Reportagem
  
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Dante - Poemas autobiográficos
A obra de Dante se constrói em torno de um núcleo autobiográfico, tendo sempre à frente um eu poético que coincide com o eu empírico do autor
por Eduardo Sterzi
NATIONAL ART COLLECTIONS FUND
Beatriz se dirigindo a Dante em ilustração de William Blake para o canto XXIX, do Purgatório.
[continuação]

A partir de então, Dante erra pela Itália, de corte em corte, atuando como conselheiro político: os mais largos períodos são aqueles passados em Verona, junto ao príncipe Cangrande della Scala, de 1312 a 1318, e em Ravena, com Guido Novello da Polenta, de 1318 (ou 1319) a 1321 (nesta última cidade, graças à generosidade de Guido, Dante teria de novo a seu lado a mulher, os filhos e mesmo alguns de seus netos). Tudo isso não seria mais do que graves atribulações de um político da época, se este político não fosse Dante – e se não tivesse extraído precisamente do exílio a motivação maior de sua obra-prima, a Comédia. Como já observou Joan M. Ferrante, o Inferno está tão cheio de conterrâneos de Dante que Florença parece ter-lhe servido como modelo para a representação do reino doloroso. Mas a acusação de Dante, quanto ao combate de todos contra todos, não se dirigia apenas aos florentinos: “Ai serva Itália, que és da dor hotel,/ nave a que arrais no temporal não resta,/ não dona de províncias, mas bordel!// [...] // e agora em ti não andam sem ter guerra/ os teus viventes e um e outro se morda/ que o mesmo muro e o mesmo fosso encerra.// Mísera, busca as costas que te borda/ o mar, e depois olha no teu seio/ se alguma parte tua em paz acorda” (tradução de Vasco Graça Moura).

Na Monarquia, tratado político que escreve por volta de 1318, paralelamente à redação dos cantos finais da Comédia, Dante propõe um império universal como meio de se superar as infelicidades nascidas da fragmentação do território não só italiano, mas europeu. A mesma idéia perpassa a Comédia, explícita, mas sobretudo implicitamente, como lastro dos juízos políticos que Dante emite ao longo de toda a obra.
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Eduardo Sterzi é poeta e doutor em Teoria e História Literária pela Unicamp, com tese sobre Dante Alighieri e a origem lírica moderna. É autor dos livros Prosa (2001) e Por que ler Dante Alighieri (2008). Atualmente, realiza pós-doutorado na USP e prepara seu segundo livro de poemas, Aleijão.