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Reportagem |
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| Dante - Poemas autobiográficos |
| A obra de Dante se constrói em torno de um núcleo autobiográfico, tendo sempre à frente um eu poético que coincide com o eu empírico do autor |
| por Eduardo Sterzi |
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MUSEU DO LOUVRE/PARIS |
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| Dante e Virgílio no Inferno (1822), em quadro do pintor romântico francês Delacroix. |
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[continuação]
Com a Comédia, Dante consegue a proeza de ao mesmo tempo retornar ao nucleamento autobiográfico de sua obra, colocando-se desde os primeiros versos como o personagem que tudo vê e narra, e avançar em direção a um muito abrangente panorama alegórico da sociedade de sua época, que é projetada no plano atemporal dos três reinos ultramundanos sem, no entanto, perder sua historicidade. E, na verdade, embora o tempo de Dante, ou seus mais recentes momentos antecessores, empreste ao poema alguns de seus personagens mais marcantes, não há limites para o aprofundamento no passado, que chega a Adão. No entanto, sejam egressos da Antigüidade ou do Medievo, os homens e mulheres com que Dante depara em sua peregrinação rumo a Beatriz e a Deus podem ser vistos, em certa proporção, como diversos aspectos de sua própria personalidade: estamos, afinal, dentro de sua imaginação, dentro de seus temores e de suas expectativas. Por mais que os destinos de alguns desses personagens nos impressionem ou mesmo comovam (no tocante a isto, Francesca e Ulisses, condenados ao Inferno, mas merecedores da simpatia do autor, são insuperáveis), é a história de Dante que mais interessa. É o seu percurso até o reencontro com Beatriz e depois, com ela, até Deus que se coloca no centro da obra que Dante conseguirá concluir poucos meses antes de sua morte, em 1321.
contexto Antes e depois de Dante Para se compreender mais plenamente o significado e mensurar com justeza o valor da obra de Dante Alighieri, é preciso, antes de mais nada, perceber seus vínculos com o momento histórico em que foi produzida, sua participação naquele vasto movimento cultural que levou do período que conhecemos como Idade Média àquele que conhecemos como Renascença. Mas não menos importante é entender que a relação que a obra dantesca estabelece com a época e a cultura na qual aflorou não é meramente subordinada, derivativa: pelo contrário, esta obra é uma das principais instâncias de afirmação, confirmação, retificação e livre engendramento daquela cultura; em larga medida, tanto nossa imagem da Idade Média quanto que temos da Renascença são determinadas pela imaginação dantesca. |
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| Eduardo Sterzi é poeta e doutor em Teoria e História Literária pela Unicamp, com tese sobre Dante Alighieri e a origem lírica moderna. É autor dos livros Prosa (2001) e Por que ler Dante Alighieri (2008). Atualmente, realiza pós-doutorado na USP e prepara seu segundo livro de poemas, Aleijão. |
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