Reportagem
edição 8 - Dezembro 2005
Darwin x Deus
Nos EUA, defensores das teorias da evolução e da criação do homem travam debate cultural e ideológico
por Richard C. Lewontin
O desenvolvimento da biologia evolutiva gerou duas reações opostas nos Estados Unidos, ambas pretendendo desafiar sua legitimidade como explicação científica natural. Uma delas, baseada em convicções religiosas, recusa, de forma hostil, a ciência da evolução, contestando sua suficiência como mecanismo que explica a história da vida em geral e a natureza física dos seres humanos em particular. Os que sustentam essa visão propõem que teorias alternativas sejam ensinadas nas escolas americanas.

A outra reação, proveniente de estudiosos que buscam uma teoria universal da sociedade e da história humana, adota, com entusiasmo, o darwinismo, mas ameaça o estatuto de ciência natural dessa abordagem ao pretender que seu esquema explanatório dê conta não só da forma dos cérebros, mas também das idéias. The evolution- creation struggle trata do primeiro desafio, Not by genes alone, do segundo.

A luta política e cultural em torno da origem da vida e da espécie humana foi, durante um século, fenômeno tipicamente americano. Em julho passado, a disputa teve mais um lance: o cardeal austríaco Christoph Schönborn enunciou a doutrina da evolução do novo papado beneditino. Ele admite que os seres humanos e outros organismos têm um ancestral comum e, portanto, que as espécies atuais evoluíram de outras que não mais existem. O cardeal aceita, assim, o fato histórico de que a vida evoluiu. Mas distingue desse fato aceitável da evolução aquilo que ele caracteriza como a inaceitável teoria "neo-darwinista", segundo a qual a evolução seria redutível ao puro acaso e à necessidade. Ele rejeita a idéia de que no início Deus teria criado somente um mecanismo material dotado de poucas leis moleculares básicas e que o resto da história seria simplesmente a conseqüência desse mecanismo.

No processo evolutivo, segundo o cardeal, deve haver o desígnio divino. O próprio papa João Paulo II, que endossou a ciência da evolução em 1996, insistia que deve haver um princípio de finalidade e direção inscrito no processo material. Essa finalidade e direção interna são partes da postura cristã. Se a evolução é somente a conseqüência de mutações aleatórias que poderiam não ter ocorrido e se o destino subseqüente dessas mutações está sujeito somente à habilidade de seus portadores de se reproduzirem e de sobreviverem às catástrofes do meio que eliminam espécies e dão lugar a novas, então os seres racionais capazes de escolha moral poderiam não ter existido. Ora, sem tais seres o conceito de salvação é ininteligível. O cristianismo exige a emergência inevitável de criaturas capazes de pecar. Sem a história do pecado humano, não haveria Cristo.
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Richard C. Lewontin é do The New York review of Books.