Reportagem
Eça de Queirós - Cenas da vida portuguesa
por Hélder Garmes e José Carlos Siqueira
COLEÇÃO PARTICULAR
Retrato de Eça de Queirós em Neuilly.
Em um artigo publicado na Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro em 6 de dezembro de 1894, Eça de Queirós faz a seguinte projeção sobre a já então crescente migração de trabalhadores chineses pelo mundo: “Nas fábricas, nas minas, no serviço dos caminhos de ferro, não se verão senão homens de rabicho, silenciosos e destros, fazendo por metade do salário o dobro do serviço – e o operário europeu, eliminado, ou tem de morrer de fome, ou fazer revoluções, ou de forçar os estados a guerras com quatrocentos milhões de chineses. [...] Em cada centro industrial da Europa haverá assim um permanente e atroz conflito de raças”. Quando comparamos tais observações com as notícias que lemos diariamente nos jornais sobre os conflitos étnicos, não só Europa, mas em todos os cantos do mundo, resultantes, em sua quase maioria, da disputa pelo mercado de trabalho, constatamos que Eça não foi simplesmente um grande retratista da realidade portuguesa do século XIX, mas sobretudo um grande analista das conseqüências da internacionalização das formas de produção, quer no âmbito da luta de classes, quer no âmbito dos conflitos culturais.

A segunda metade do século XIX foi quando grandes empresas sedimentaram suas ramificações por todo o mundo, tendo também surgido a dimensão internacional do movimento operário. Além disso, é um momento privilegiado no processo de densificação das relações culturais internacionais, pela presença de diversos novos meios de comunicação que facilitavam o trânsito de pessoas e informações e, conseqüentemente, dos diferentes modos de vida existentes no globo.

Portugal encontra-se um tanto à margem desse processo, já que a industrialização ali tinha sido prejudicada na primeira metade do século XIX pelas invasões napoleônicas, pela conseqüente fuga da família real para o Brasil em 1808 e pela guerra civil gerada pelo processo sucessório com a morte de D. João VI em 1826. Com poucas indústrias, alto índice de analfabetismo, cultivando uma frouxa separação entre Igreja e Estado, a sociedade portuguesa em meados do século XIX está em todas as suas instâncias fragilmente atinada com o processo crescente de internacionalização das relações econômicas e culturais. É nesse contexto, no ano de 1845, que nasce Eça de Queirós, em Póvoa do Varzim, localidade do norte de Portugal. Seus pais, que ainda não se encontravam casados quando nasceu, tiveram que deixar o filho com uma ama, depois com os avós paternos e finalmente como interno de um colégio do Porto. Só é integrado oficialmente à família já adulto.
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