Reportagem
edição 28 - Agosto 2007
Em casa com a indomesticável Hilda
Reedição da obra e transformação do sítio onde morou em centro cultural aproximam leitores da complexa autora de A obscena senhora D
por Cláudia Nina
Eder Chiodetto/Folha Imagem
Hilda no escritório da Casa do Sol, em 2004
Quando resolveu se isolar num sítio, em meados dos anos 60, a escritora Hilda Hilst disse que ficaria confinada em sua “torre de capim”, sarcástica alusão à torre de marfim dos intelectuais. Viveria, então, até o falecimento, em 2004, na Casa do Sol, a rústica “torre” construída em um terreno de 12 mil m2 próximo a Campinas, onde redigiu mais de 80% de uma obra que reúne poemas, peças de teatro, crônicas e romances. A mudança radical foi influenciada pela leitura de Testamento para El Greco, do escritor grego Nikos Kazantzakis (que defende a necessidade do isolamento para um conhecimento mais profundo do ser humano). Hilda percebeu que, se não se dedicasse exclusivamente ao trabalho, não teria tempo de escrever tudo o que tinha a dizer.

O paradoxo é que, embora avessa ao burburinho da vida literária e às leis do mercado, ao senso comum e às convenções, nunca quis se afastar do público leitor a fim de tornar-se, propositadamente, uma escritora difícil ou inacessível. Pelo contrário. Ainda que não fizesse concessões ao fácil, queria vender mais livros e ser reconhecida. Foi por isso, ou pelo menos com este pretexto que, em 1990, iniciou sua tetralogia pornográfica com o polêmico O caderno rosa de Lori Lamby, seguindo-se de Contos d'escárnio - Textos grotescos, Cartas de um sedutor e Bufólicas. Para muitos desavisados, era chegada “a hora do lixo” de Hilda Hilst. Engano, porém, supor que a autora se desvencilhara da complexidade; mesmo nestes livros, mais do que a temática, a própria literatura é a matéria-prima de inusitadas “promiscuidades” lingüísticas, nas quais os gêneros e as vozes intertextuais se misturam e se confundem numa grande orgia.

Três anos após a morte da autora, sobram motivos para falar em Hilda Hilst. A Editora Globo relança sua obra, com organização do professor de teoria literária Alcir Pécora, diretor do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp. Desde 2001, 19 livros retornaram às livrarias em caprichadas edições, restando o teatro completo, que sairá até o fim do ano, e um volume de entrevistas, previsto para 2008. Além disso, o Instituto Hilda Hilst – Centro de Estudos Casa do Sol, criado em 2004, acaba de ganhar um projeto de revitalização.

O restauro da sede, que espera receber patrocinadores, vai possibilitar a criação de um centro dinâmico de pesquisas da obra de Hilda Hilst e deve atrair estudantes até do exterior em sistema de intercâmbio cultural. A idealização do projeto é do escritor José Mora Fuentes, amigo da escritora e morador do local há duas décadas. Fuentes é seu herdeiro, o que inclui a Casa do Sol e direitos autorais.
Renata Caldana
O sítio onde a escritora morou no interior paulista deve se tornar centro cultural
A importância de Hilda Hilst para a história da literatura brasileira contemporânea precisa mesmo ser revista. Não só a figura polêmica e imponderada que foi a mulher, mas, sobretudo, a escritora notável que a crítica tateia para descobrir. Certamente há vários pesquisadores que há anos se debruçam sobre a obra de Hilda, mas ainda existem obstáculos a serem vencidos para que a autora possa atravessar os dourados portões do cânone. Tal consagração, porém, talvez não seja apropriada, como explica Alcir Pécora: “Espero que a crítica mais acomodada institucionalmente nunca descubra a obra de Hilda Hilst. Se acontecer, representará uma domesticação de sua leitura”.

É natural imaginar que parte da indiferença que existe em relação à obra hilstiana se deva ao afastamento da autora dos centros de convívio intelectual predominantes no país. A imagem pública de Hilda como uma pessoa excêntrica e amalucada predominou sobre o conhecimento de sua literatura. Na opinião do professor Valentim Facioli, da USP, o isolamento da autora produziu um certo efeito multiplicador de distância. “Certa indiferença acadêmica, ou de público, tem a ver com o comportamento do escritor perante o mercado, a imprensa, o badalo da literatura no mundo massificado de hoje em dia.” Facioli acredita, porém, que esta indiferença tende a se dissipar, uma vez que, morta a autora, a obra falará por si. “O público e a universidade já começam a se interessar por ela”, diz o professor, referindo-se a alguns estudos, como a tese de doutorado de Gabriel Albuquerque, com o título Deus, amor, morte e as atitudes líricas na poesia de Hilda Hilst.

A verdade é que a obscena senhora Hilda, que nasceu em Jaú, no interior do estado de São Paulo, ao longo de 74 anos de vida nunca se preocupou em cultivar relações diplomáticas com a imprensa ou o mercado. Fazia declarações incômodas, atacando os leitores que não compreendiam ou não conheciam os seus livros. Os auto-elogios eram constantes. As questões sobrenaturais, pelas quais passou a se interessar, ajudaram a compor um perfil que, para muitos, parecia lunático: os experimentos com gravações de vozes de pessoas mortas através de ondas radiofônicas e as supostas visitas de discos voadores ao sítio. Hilda estava sempre envolta por um desconfortável manto de loucura.

A loucura, aliás, foi para Hilda Hilst uma lembrança bastante familiar. O pai era esquizofrênico e fora internado em um sanatório em Campinas aos 35 anos. Quando os pais se separaram, ela e a mãe saíram de Jaú e foram para Santos. Depois, seguiram para São Paulo, onde Hilda estudou direito. A moça bonita que se comportava com excessiva liberdade em meados dos anos 30 despertou a paixão de artistas e empresários e escandalizou a alta sociedade paulistana. A literatura viria duas décadas depois com Presságio (1950) e Balada de Alzira (1951). A vida que ela levava em São Paulo, segundo José Mora, “era deliciosa, cheia de amigos maravilhosos e tudo o mais”. Contudo, Hilda se despediu daquele cenário, pois as “delícias” a distanciavam do seu verdadeiro trabalho, que era escrever.
Renata Caldana
Fotos dos muitos amigos de Hilda Hilst se distribuem pelas paredes da Casa do Sol, em Campinas
Enquanto no plano pessoal Hilda Hilst vivia intensamente e sem reservas o papel que deliberadamente escolhera, na literatura mantivera-se sempre “prolífica e errática”, na definição de Alcir Pécora. Depois da estréia, outro marco importante foi a publicação da primeira obra em prosa, Fluxo-floema, lançada em 1970. A edição contém cinco textos em que a narrativa é um fio invisível; proliferam personagens e diálogos em cenas absurdas, que misturam o erudito ao escatológico. Uma bela e árdua tarefa até mesmo para os leitores mais bem equipados, como é o caso da professora Ana Chiara: “Fluxo-floema é um dos livros mais difíceis de Hilda. Eu procuro trabalhar no sentido de uma figuração do feminino em disparada”, diz a professora, que ministra na Uerj um curso de especialização sobre a autora.

Às vezes buscando o sublime, outras o mais comezinho terra-a-terra, transitando entre a existência e a metafísica, Hilda Hilst foi singular em tudo o que escreveu. E, embora sua obra denuncie rara erudição, a criação não parece ser resultado de um processo penoso e racional; era meio mágico, como confessou certa vez, dizendo que o esforço representava apenas uma tentativa de conseguir pela técnica o que já tinha sido captado pelos sentidos, especialmente em relação aos versos.

Em razão da densa complexidade literária embutida em cada frase, a literatura de Hilda Hilst pede um leitor atento. Conforme explica o professor Alcir Pécora, “a dificuldade de leitura básica de seus textos, especialmente os de prosa, está ligada à exigência de erudição literária, filosófica e até científica, que acaba gerando um vocabulário final altamente idiossincrático”. Não é à toa que, numa crônica intitulada “A vida? Essa monstruosidade de irrealidades”, reunida em Cascos & Carícias & Outras crônicas, a autora escreve: “A crônica é um verdadeiro martírio para mim, porque de alguma forma tem que se aproximar de um texto 'arrumadinho', um texto que todos entendam, você lê pro fedelho, pra Zefa, pro dotô, e todos têm de dizer 'óóóó sim! entendi!', mas a verdade é que nada faz sentido, pois faz sentido você nascer, crescer, envelhecer e depois apodrecer?”.

Para que pudesse supostamente “descer” ao nível dos leitores comuns, Hilda decidiu dar adeus à literatura séria quando começou a produzir a famosa tetralogia pornográfica. Mas a essência da escrita de Hilda Hilst permaneceria a mesma. O obsceno não deixava de acobertar reflexões imprescindíveis sobre os grandes temas da modernidade, como a solidão, o sexo no feminino, a fragilidade, o tempo, a morte, Deus.
Três obras imperdíveis: A obscena senhora D Globo 108 págs.R$ 26;O caderno rosa de Lori Lamby Globo 128 págs.R$ 35; Poemas malditos, gozosos e devotos Globo 92 págs.R$ 23
Segundo o professor Alcir Pécora, autor de um artigo intitulado “Não é pornográfica a literatura pornográfica de Hilda Hilst”, a obra da autora não tem nada, nem de longe, próximo ao realismo de representação que está na base do pornográfico. “É totalmente improvável uma ereção ao ler a Hilda obscena. A adesão pornográfica, no caso dela, trata de escancarar, em primeiro lugar, os próprios dilemas da criação literária. Além disso, o registro obsceno é visceral em toda a sua obra madura.”

Ana Chiara concorda. A iniciativa de aderir ao pornográfico foi “um gesto teatral e sardônico”, através do qual a escritora anunciou abrir-se ao mercado. Um logro para os leitores frívolos, já que “manteve as linhas mestras de sua literatura essencial em tais livros, colocando problemas de recepção para quem não se desse conta da forte trama intertextual em que se movia”, analisa a professora.

Em todos os gêneros pelos quais passou, Hilda Hilst deixou a marca de uma personalidade que jamais se afinou com nenhum movimento ou corrente literária. “O travo irônico, sarcástico e a liberdade com que maneja o léxico fazem dela uma escritora absolutamente contemporânea, pois nela podemos reconhecer a multiplicidade de questões do mundo atual, como a perda de substancialidade, a desordem dos afetos, o descentramento do sujeito, a polifonia, a mistura entre o sagrado e o profano, a dissolução das fronteiras entre os gêneros como antídoto contra o empobrecimento do vivido e da experiência estética”, acrescenta Ana Chiara.

Uma definição bem concisa do que foi esta escritora tão peculiar quanto surpreendente e polêmica está nas palavras do escritor José Mora, que faz a conciliação entre a pessoa e a artista: “Hilda faz as perguntas essenciais, comuns a todos os seres humanos, por isso ela é uma escritora universal. Era de fato um gênio. Tinha um olhar generoso, emocionado e fraterno sobre o mundo, a vida e a humanidade”.

A obra de Hilda Hilst é, de fato, parte viva do seu próprio tempo. Em um de seus livros mais essenciais, A obscena senhora D, por exemplo, observa-se a intensidade com que, sem excessos verborrágicos, Hilda conseguia escrever. Muito além de se fixar no adjetivo “obsceno” que pode ser redutor se entendido apenas no que o dicionário denota numa primeira leitura, a sugestão é que o leitor avance até o “D”, de desamparo, e descubra aí uma desconcertante reflexão sobre o tempo, a morte e a velhice. Escreve Hilda Hilst a respeito da viúva que, aos 60 anos, decidira morar num vão da escada. Revisitar Hilda Hilst é tirá-la do confinamento ao qual voluntariamente ela mesma se condenou, ainda que com o nobre objetivo de se dedicar com devoção à sua arte. Toda obra de um grande autor tem algumas portas facilitadoras para se entrar numa primeira viagem. Não se aconselha ninguém a conhecer Guimarães Rosa por Grande sertão: veredas, por exemplo. Se num primeiro contato o estranhamento da linguagem de Hilda Hilst pode assustar, vale a pena prosseguir: a viagem que a autora propõe em livros tão diversos é um mergulho profundo nas inquietações da alma humana. E por isso mesmo indispensável.
Cláudia Nina É jornalista, doutora em Letras, professora de teoria literária e autora de A palavra usurpada, sobre a obra de Clarice Lispector (Edipucrs)
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