Reportagem
Fernando Pessoa: Plural como o universo
por Rinaldo Gama
REPRODUÇÃO
Pessoa fotografado em 1929 no “Abel Pereira da Fonseca”.
“Desde a data de sua morte, 30 de novembro de 1935, tem-se cada vez mais recordado o aniversário de Fernando Pessoa. Se ele morreu praticamente inédito e desconhecido mesmo em sua pátria, hoje a lembrança da octogésima passagem do dia de seu nascimento ultrapassa as fronteiras dos países de língua portuguesa”. A observação é de Roman Jakobson e está na abertura de um ensaio clássico, “Os oxímoros dialéticos de Fernando Pessoa”, datado de 1968 e incluído em Lingüística. Poética. Cinema (1970).

Quatro décadas após a publicação daquelas palavras, elas só careceriam hoje de uma atualização cronológica – e de ênfase. Cento e vinte anos depois de haver nascido – em Lisboa, às 15 horas e 20 minutos da quarta-feira 13 de junho de 1888 –, Fernando António Nogueira Pessoa segue sendo o fenômeno mais extraordinário da literatura de seu idioma, ombreado com os maiores nomes das letras do século XX e também, ponto fundamental, de qualquer outra época.

Dito de outra forma: ao salto de ordem geográfica apontado por Jakobson, deve-se somar agora a superação alcançada pela obra pessoana do que poderíamos chamar de um “confinamento histórico”, ou seja, sua importância deixou definitivamente de se restringir à poesia praticada nos Novecentos. Não é difícil entender o porquê desse alargamento no espaço e sobretudo no tempo. Quando se fala em Pessoa comete-se, nunca é demais lembrar, uma impropriedade: trata-se não de um mas de vários autores; portanto, o que está em causa são várias obras e não apenas uma. Isso porque, como é largamente sabido, o grande trunfo do escritor lusitano foi criar, sob o disfarce de diferentes personas, os seus formidáveis heterônimos – numa estratégia literária que já chamamos, em outras oportunidades, de “estética do fingimento”.

Essa disposição para “se outrar” surgiu ainda na infância: aos seis anos de idade, Pessoa deu vida ao precursor dos heterônimos, um certo Chevalier de Pas, em nome de quem escrevia cartas para si próprio. “Esse 'herói' dos seus seis anos é francês, o que leva a supor que em criança já escrevia e falava bem nossa língua, que lhe fora ensinada pela mãe”, anota Robert Bréchon na biografi a Estranho estrangeiro (1996). “O nome Pas não é aí o substantivo que designa o andar e sim o advérbio de negação. Um niilismo desses tem algo de assustador nessa idade. Podemos perguntar qual o sentido deste episódio. A tendência para 'criar em (meu) torno um mundo fi ctício' será resultado do sentimento feliz de uma superabundância de ser ou será antes conseqüência do choque afetivo que, ao privá-lo de amor, lhe gera uma carência de ser?”, indaga Bréchon (os grifos são nossos).
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Rinaldo Gama é jornalista, doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP e autor de O guardador de signos: Caeiro em Pessoa (Perspectiva/IMS, 1995). Colabora, entre outros veículos, com a revista Veja. Montou e coordena o curso de pós-graduação em Jornalismo Cultural na Faap.