Reportagem
edição 12 - Abril 2006
Mario Quintana um par de sapatos para a posteridade
No centenário de nascimento do poeta, sua obra retorna às livrarias e desperta o interesse de leitores e críticos além das fronteiras gaúchas
por Fabrício Carpinejar
Mario Quintana como patrono da Feira do Livro de Porto Alegre, 1985
Se a figura de Carlos Drummond de Andrade está soberanamente de pernas cruzadas na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, em estátua de costas ao mar, o poeta ficou de castigo, em pé, na Praça da Alfândega, em Porto Alegre. Quem está sentado é Mario Quintana. A escultura criada por Xico Stockinger reúne os dois poetas, no coração e centro da capital gaúcha, onde há meio século é realizada a tradicional Feira do Livro.

A comparação das duas esculturas ilustra a importância de Quintana em Porto Alegre. Raro caso de poeta que virou ponto turístico. Ele rivaliza em fama com o pôr-do-sol do Guaíba, o qual descreveu com deslumbramento bairrista: "é para nós que inda S. Pedro pinta os mais belos crepúsculos do mundo!". Sua unanimidade porto-alegrense é percebida caminhando duas quadras de sua estátua até a Casa de Cultura que leva seu nome, antigo Hotel Majestic, onde o poeta esteve hospedado de 1968 a 1980.

Mario Quintana já advertia: "um engano em bronze é um engano eterno". No caso dele, sobram acertos e ainda falta bronze para eternizá-los. O que é possível ser corrigido no centenário de nascimento do poeta é recolocá-lo nas livrarias, com a reedição de seus livros pela Editora Globo e a publicação da poesia completa pela Nova Aguilar. "Quintana não é poeta regional, pois sua poesia não é localista. Também ainda não é nacional por não ter uma recepção uniforme no país. Prefiro dizer que Quintana é um poeta universal porque sua poesia fala a todos, e expressa a condição humana, explorando a reflexão sobre a vida e sobre a morte. Vejo que o relançamento de seus livros deve contribuir para a difusão do poeta no Brasil", afirma Tania Franco Carvalhal, organizadora da obra completa.

Mario Miranda Quintana aboliu o nome do meio. Algo deve ficar escondido mesmo. Nasceu em uma noite gélida em Alegrete, fronteira do Estado, em 30 de julho de 1906. A cidade estava a um grau negativo. Parecia abrigar um congresso anual de ventos. O parto fora prematuro, de sete meses. "Quintana brincava que não estava pronto", lembra a sobrinha-neta e herdeira Elena Quintana, 50 anos, diretora de teatro, que o acompanhou de 1979 a 1994.
Drummond, Vinicius, Bandeira, Quintana e Paulo Mendes Campos na época de franca produção literária
A fragilidade do nascimento resultou infância adentro no apelido de "menino azul", devido à pele fina e branca, e às veias azuis e saltitantes. Virou o protegido entre os três irmãos - Celso, Marieta e Miltom - e dos pais Celso e Virgínia.

Quintana poderia ter ficado a vida inteira atrás de um balcão em sua terra natal. Seu pai tinha farmácia e ele chegou a atuar como prático durante cinco anos. A experiência o motivou a dosar as palavras, cuidar das contra-indicações e, a partir das bulas de remédio, não desprezar nada que fosse escrito, ainda que em caractere mirrado. Sua principal cliente acabou sendo a poesia. Foi atendê- la em Porto Alegre, após a morte dos pais, em 1927. Autodidata, traduziu para a editora Globo clássicos como Joseph Conrad, Guy de Maupassant, Virginia Woolf e Marcel Proust - verteu para o português os três primeiros volumes do Em busca do tempo perdido.

Nunca visitou Paris, a exemplo de Machado de Assis, e quando teve oportunidade, era tarde e não quis. "Não era mais a França que queria conhecer", falava. Logo desfez o feitio de novato ao conviver com a nata da intelectualidade, formada por Theodomiro Tostes, Álvaro Moreyra, Athos Damasceno Ferreira, Erico Verissimo e Moysés Vellinho.

Em 1940, aos 34 anos, Mario Quintana estréia com os sonetos de A rua dos cataventos. Depois viriam mais de 30 obras entre individuais, seletas e infantis. O reconhecimento nacional o corteja em 1966, com a Antologia poética de Mario Quintana, preparada por Rubem Braga e Paulo Mendes Campos.
Poesia completa, publicada pela Nova Aguilar, no final de 2005
No jornalismo, conseguiu exercitar com desenvoltura a graça e a ironia em sua coluna Do caderno H, no Correio do Povo. Tratava a poesia como um vício, individual e libertário. Considerava profissão mesmo a de jornalista e tradutor. Parte de seus poemas foi escrita na barrinha em branco do periódico, nos intervalos do expediente. Para variar, as melhores notícias não eram publicadas, estavam com letra do autor na edição anterior.

Sua personalidade magnética produzia, de modo perdulário, poesia falada. Em qualquer encontro com amigos, surgiam anedotas e provérbios exemplares. Era frasista inveterado, da linhagem de Otto Lara Resende, alguém precisava sair atrás dele anotando. Desconcertava com o raciocínio analógico, virando o senso comum de ponta-cabeça. Em seu espelho mágico, os leitores saíam transfigurados: "Sorri com tranqüilidade/ Quando alguém te calunia./ Quem sabe o que não seria/ Se ele dissesse a verdade...". Divertia-se inventando histórias e assustava os interlocutores ao demorar a esclarecer que eram mentiras. Apresentava um afiado radar da aproximação dos chatos. "Identificava um chato a distância, especialmente os aduladores sem conhecimento de causa. Trocava de calçada se preciso", recorda Elena.

Boêmio, enfrentou o excesso do álcool. Quase sucumbiu. Venceu com a ajuda de amigas, como Lara de Lemos, e com duas internações. A dependência ao cigarro perdurou praticamente a biografia inteira. Largou a nicotina nos seus últimos dez anos. Quebrou o jejum apenas por raiva, em 1989, quando eleito o presidente Fernando Collor de Mello. "Fumou dois cigarros xingando a televisão, de angústia", rememora a sobrinha.

Como todo mortal, sua vida contou com altos e baixos financeiros. Elena esclarece: "Quintana costumava resumir sua história com a imagem de um carrossel: cavalinho sobe, cavalinho desce. Fases ruins alternadas com fases estáveis". O brinquedo por pouco não enguiçou em 1984, quando o Correio do Povo encerrou temporariamente suas atividades. Mario Quintana ficou desempregado. E o pior: o Hotel Presidente em que se encontrava também fechou no mesmo período. Sem salário e despejado aos 78 anos, contou com a ajuda valiosa do jogador Paulo Roberto Falcão, que cedeu um dos quartos do Hotel Royal, de sua propriedade na época. "Ele não acreditava na longevidade. Nos 30, dizia que não chegaria aos 40. Nos 40, não chegaria aos 60. Aos 60, se convenceu que viveria muito e percebeu que estava sendo repetitivo", evoca Elena. Durou com clareza até os 87 anos.
Títulos republicados; a Editora Globo, que publica Mario Quintana desde a estréia, em 1940, deve completar a reedição de 18 livros do poeta
Sua morte aconteceu quatro dias depois da tragédia de Ayrton Senna, em 5 de maio de 1994, e comoveu tremendamente o Rio Grande do Sul. O ficcionista Sergio Faraco, amigo fiel de três décadas, guarda a despedida com a nitidez de ontem. "A morte dele, para mim, foi muito dolorosa, não só pela perda de um amigo e de um grande poeta que, embora idoso, ainda escreveria seus belos e sentidos poemas, mas pelas circunstâncias em que se deu. Estávamos ao lado dele na UTI do Hospital Moinhos de Vento, Elena e eu, segurando-lhe as mãos. Mario já não falava, já não ouvia, a agonia se prolongava e então desci para fumar um cigarro no pátio do hospital, com o propósito de retornar logo e acompanhá-lo até o fim. Naqueles escassos minutos que permaneci no térreo, ele morreu. Nunca me perdoei por essa absurda deserção justamente no instante em que ele deixou de respirar e partiu para o céu dos poetas.

Quintana talvez quisesse falecer como cantou: "sozinho como um bicho".

Apesar da idolatria no Rio Grande do Sul, Quintana ainda não é considerado um poeta maior além-fronteiras - talvez seja mais conhecido pelas suas frases de efeito, tiradas e chistes do que propriamente pelos seus versos. Sofre com a regionalização de autores na poesia como Cora Coralina em Goiás, Adélia Prado em Minas Gerais, Manoel de Barros no Mato Grosso, José Chagas no Maranhão, Paulo Leminski no Paraná. Não conquistou a plenitude de ser um poeta para todo o Brasil.

De acordo com o crítico Antonio Carlos Secchin, "parece que apenas poetas cariocas e paulistas não precisam de gentílico. Difícil ler 'o poeta carioca Vinícius de Morais' ou 'o paulista Oswald de Andrade'. Mas lemos a toda hora 'o pernambucano João Cabral'. Infelizmente, apenas os do Rio e de São Paulo estão dispensados de exibir a carteira de identidade".

Em sua argumentação, Secchin aponta a resistência da crítica em absorver distintos sotaques. "Todo escritor alheio a esses territórios será estadual. Nos melhores casos, alcança ressonância nacional, em que estarão - ou não - valorizados os traços de origem, de poeta regional. Assim, os estaduais João Cabral e Manoel de Barros se alçaram ao nacional por meio do elevado e consistente teor de regional que impregna suas obras. O estadual Leminski chegou ao nacional com dosagem infinitamente menor de regional. É por aí que situo Quintana. Talvez tenha faltado à sua poesia a oportunidade que agora a Nova Aguilar lhe oferece: a de ser reunida em um só e criterioso volume. O poeta se dispersou num sem-número de pequenas publicações, várias que não transpuseram as fronteiras gaúchas, e editorialmente confusas."
Quintana e sua sobrinha-neta, Elena, companhia inseparável nos últimos anos
Estudioso de João Cabral com o ensaio "Poesia do Menos", Secchin acredita que é discutível definir a grandeza de um autor. "Os poetas ditos maiores não escapam de tornar-se menores de vez em quando, e vice-versa. Uma precaução é dissociar estatura e prestígio: nem sempre os dois termos andam juntos. Considero Quintana um grande poeta, ainda que não suficientemente conhecido. E seria 'menor' apenas no sentido que Manuel Bandeira empresta ao adjetivo, relacionando-o a expressões subjetivas, em oposição aos poetas de sopro épico e engajado", completa.

Já Luís Augusto Fischer, que analisou a poesia gaúcha em O passado pela frente (Editora UFRGS), não concorda com o ponto de vista de achatamento da estatura de Quintana. Acredita que ele pertence à família dos grandes, embora não se revele um irmão de virtudes de Manuel Bandeira ou Drummond. Talvez seja um primo. "De todo modo Quintana tem um domínio extraordinário dos meios expressivos (vocabulário, ritmo, tamanho de verso, regularidade ou não dos metros), mas falta um último lance, que é o que faz os grandes: deixar a marca de sua linguagem na língua de todos. Eu penso que ele não é dos maiores. Nem tem a pungência do Bandeira, nem sua conquistada simplicidade retórica, e muito menos tem a profundidade do Drummond, muito menos seus achados de linguagem e seus fortes laços com a vida brasileira".

Mesmo apontando a excelência técnica e expressiva, Fischer observa Quintana como um passadista, com resquícios de Casimiro de Abreu. "Não apenas no sentido trivial de falar de saudades, mas num nível mais radical: sempre que os confrontos do presente se apresentaram para ele, ele fugiu, em sua poesia. Não enfrentou os dilemas de sua geração (que é a de Drummond), preferindo a relativa facilidade das pequenas cidades, da infância, da alegação de afinidade com os loucos, afinidade que, porém, não entranha na linguagem."

Nele, julga como virtude aquilo que também enxerga como defeito, a persistência em temas e procedimentos determinados. "Tal persistência rendeu intensa freqüentação dos temas da evocação da simplicidade perdida, com ótimos momentos, mas por isso mesmo resultou ser uma espécie de álibi dele contra a necessidade de encarar as broncas mais pesadas de sua geração, que são as do existencialismo, em sentido amplo (a liberdade, a participação do intelectual, a crescente presença da tecnologia na vida)", afirma.
Posição totalmente oposta é a de Sérgio de Castro Pinto, um dos raros a empreender e publicar estudo sobre a poesia de Quintana, Longe daqui, aqui mesmo (Editora Unisinos). O poeta e jornalista paraibano credita ao estilo plural um dos empecilhos para a consagração. "Foi o sonetista que o modernismo não teve, pois diferentemente da maioria dos poetas de 45, soube incorporar ao soneto, carro-chefe dessa geração do pós-guerra, uma linguagem coloquial, prosaica, em oposição ao discurso na maioria das vezes eloqüente, circunspecto e etéreo da confraria composta por Domingos Carvalho da Silva, Péricles Eugênio da Silva Ramos, José Paulo Moreira da Fonseca e outros. Funde a tradição com a renovação, e converte o estranho em familiar e o distante em próximo."

Quintana seria neo-simbolista? Ou romantista tardio? Ou surrealista? Ou modernista? Embora não fosse matriculado em nenhuma escola, o escritor freqüentava a todas indistintamente. "Isso sem sacrificar a alma boêmia das ruas, as quais ocupou ora de corpo inteiro, ora espiando-as através das muitas janelas que abriu nos seus poemas", argumenta Sérgio de Castro Pinto.

A confusão de influências atordoou a recepção acadêmica. Mesmo recebendo a simpatia de escritores como Drummond, Bandeira, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, e a adesão de críticos como Fausto Cunha e Augusto Meyer, Quintana foi um caso de reconhecimento de fora para dentro. Em primeiro lugar, do público. A torcida o escalou antes do técnico.

Sérgio de Castro Pinto relata alguns focos de subestimação.

Massaud Moisés até a 9ª edição de A literatura brasileira através dos textos resistiu o quanto pôde, bravamente até, para incluir Mario Quintana no "painel altamente representativo da diversidade, riqueza e valia das manifestações do gênio literário no Brasil". "E assim procedeu, quem sabe, por nutrir um certo ranço preconceituoso com relação à poesia lírica, gênero, segundo ele, subordinado à fase da adolescência, da imaturidade emocional, enquanto o épico assinalaria o momento `em que o poeta alcança a maturidade interior`", comenta Castro Pinto.
Já no volume VII da História da inteligência no Brasil, Wilson Martins faz menção à coletânea Do sentimento do mundo (1940), de Carlos Drummond de Andrade, lançada no mesmo ano de A rua dos cataventos, do poeta gaúcho, para estabelecer um paralelo entre os dois livros. "O crítico e professor parece insinuar que o sentimento de Drummond era tão vasto quanto o mundo, ao passo que o de Quintana, de tão insignificante, apenas cabia nos estreitos limites de uma rua: a dos Cataventos", expõe o paraibano.

Alfredo Bosi, por sua vez, utilizando A rua dos cataventos como ponto de referência da poesia de Quintana, conclui que o poeta encontrou fórmulas felizes de humor sem sair do clima neo-simbolista que condicionara a sua formação. "No caso, porém, quando emprega o vocábulo fórmulas, Bosi simplesmente parece aprisionar Quintana à ditadura das fôrmas em contraposição à maleabilidade das formas. Ou sugerir, ainda, que o feiticeiro Quintana teria descoberto uma fórmula mágica capaz de fabricar poemas em série, todos monocórdicos porque contaminados por uma compulsão tautológica. Daí por que, sobre Quintana, talvez fosse mais pertinente afirmar: saiu da atmosfera neo-simbolista que condicionara a sua formação por descobrir formas felizes de humor", pontua Castro Pinto.

Não será a posteridade que acovardará Mario Quintana. Em vida, sobreviveu ao fogo em quatro oportunidades. A primeira vez na adolescência no Colégio Militar, em que perdeu seus documentos e seus primeiros textos publicados, a segunda numa pousada em Gramado, ao tentar enganar a luz forte do abajur com papel, e as outras duas aconteceram na velha pensão em que morava nos anos 50 e 60, em que o incêndio destruiu seus livros e anotações, juntamente com os móveis. Sua alma de poeta era a de um piromaníaco. Esteve na vida para arder. E fazer arder.
Passarinhando infâncias
Na infância, o poeta, de tão branco, era chamado de "menino azul"
Quintana não é o poeta da dúvida, mas da curiosidade confiante. Estava com um pé direito no quarto e o esquerdo na sala de estar. Em sua poesia, não interfere no mundo, assiste como um fantasma de si, que sabe um pouco mais do que os vivos. Este adicional intuitivo o fazia escutar os mortos na mesma freqüência dos despertos. "Sonhar é acordar-se para dentro".

Sua lírica é obcecada pelos sapatos. Poucos calçaram com tanto conforto um par de solas gasto e macio, a sublimar a solidão do caminhante, a esmo, sem um endereço certo para voltar. Quintana nunca se portou como um residente, porém como um hóspede (morou praticamente em hotéis e pensões), provisório e atento. A imagem do calçado reincide em diferentes fases, como a repicar - sem parar - o som dos seus passos nas ruas baldias de Alegrete.

Ele redescobriu o interior na capital gaúcha, apagou a modernidade em nome do recolhimento apaziguador da memória. Catava os becos silenciosos, as travessas vazias a cicatrizar as linhas do bonde. Sua cidade avançava para trás na linha do tempo. Quanto mais antiga, mais atual. Preferia os esconderijos atemporais, os desvãos, os sobrados. Porto Alegre bastou-lhe como uma maquete ancestral, um rascunho de mapa. Menino envelhecido que desejava atravessar o universo numa noite.

Com as reticiências simbolistas, as exclamações e os diminutivos das cantigas de roda, as comparações surrealistas, a nostalgia romântica e um vocabulário coloquial, Quintana firmou seu estilo moderno com roupas de brechó. Combinar peças antigas não é para qualquer um. Sua elegância consistia em vestir o necessário. O controle das formas reflete-se na metapoesia, na preocupação em conceituar reiteradamente o poema. Quintana, na maioria de seus títulos, discute o ofício de escritor, seja zombando da precariedade, seja revelando a alquimia de seus desejos.

Um novo paralelo para descrever o seu estilo é a de um carro antiquado com motor envenenado. Não recomendo fazer um pega com ele na sinaleira. A aparência formal é a de menos, pois seus sonetos ou heptassílabos se prendem e se moldam aos temas, e não à linguagem e a um mero exercício de estilo. Sob o escudo da ingenuidade, ele profere verdades duras. O ar de orfandade permite a opinião ácida.

Quintana alentava a imagem de sofredor como charme e sedução, a carência funciona como isca da credibilidade. Um pessimismo entusiasmado, de aguda consciência, característico da autocrítica. Ele desabona o comportamento dos outros a partir do seu. Persuade por se incluir nos defeitos, eliminando traços de autoritarismo e de sermão. O tom infantil chama para perto, provoca intimidade, enquanto o pensamento adulto aprofunda a voz e a crença. Um vô com espírito arruaceiro de guri. Sua poética é desmerecida pelo descompromisso com as agruras da realidade. Ele levantava os ombros com desdém, a concluir que não precisava forçar o engajamento social e político. A singeleza é cativante. Poemas legíveis, diretos, comunicativos e soprados de lado como confidências. O que leva o crítico Antonio Carlos Secchin a qualificar como "uma deliciosa e enganadora sensação de que é fácil escrever poesia, poemas que aparentam fluir sem um esforço de construção, pelo clima e pela ponte de descontração".
No convívio, um poço de ternura
Armindo Trevisan, contemporâneo de Quintana, que publica este ano duas obras sobre o amigo
Armindo Trevisan, poeta gaúcho, 72 anos, que estará publicando neste ano os livros Mario Quintana, poeta gaúcho e universal (Casa de Cultura Mario Quintana) e Mario Quintana Desconhecido? (Editora Brejo), fala sobre o amigo.

Sabe me explicar direitinho a polêmica de Quintana ter sido recusado três vezes pela Academia Brasileira de Letras?
Como explicar direitinho o que nasceu meio torto? Ele não tinha "perfil" para a Academia de Letras. Quem imaginaria o Quintana de fardão? Era tão irreverente que acabaria quebrando as xícaras de porcelana do chá das cinco... Quando me telefonou, referindo-me a sua segunda derrota para a Academia, eu, muito imaturo, lhe disse (coisa de que me arrependo) que era a Academia que precisava dele, e não ele da Academia... Respondeu-me que a sua vontade de lá ingressar era um sonho da família, especialmente de sua mãe, que via na Academia a máxima consagração literária. Minha interpretação pessoal do affaire: Quintana, de algum modo, desejava justificar socialmente sua condição de poeta.

A personalidade bem-humorada de Quintana, cheia de chistes e causos, ajudou na divulgação de sua obra ou atrapalhou?
As duas coisas, ao mesmo tempo. Num primeiro momento, ajudou, e até demais! Quintana, mesmo no seu centenário, corre o risco de ser considerado um piadista genial, e não o grande lírico que ele foi, dos maiores da nossa literatura. Num segundo momento, o caráter folclórico de sua personalidade o desfavoreceu. Está na hora de se porem as coisas no seu devido lugar. Até por que é fácil repetir suas piadas, mas não seu estilo, que é finíssimo!

Qual a posição de Mario Quintana na história da literatura brasileira?
A de um gênio - que não sabia que o era, e que por isso, não chegou a ser tudo que poderia ter sido. Mas que foi o suficiente para ser um dos maiores poetas do Brasil e da América do Sul.

Lembra de algum encontro marcante, decisivo ou anedótico?
Às vezes, era temperamental, imprevisível, capaz de sumir, na presença de quem quer que fosse, a cavalo de uma espiral de seu inapagável cigarro. Paciência! Mesmo assim, lembro inúmeros encontros, sobretudo os dos últimos dez anos de vida, quando descobri que havia dentro de Quintana um poço de ternura, também para os amigos.
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