Reportagem
De reacionário e obsceno a unanimidade nacional
Aclamado desde os anos 40 ao escrever o hoje clássico Vestido de noiva, Nelson Rodrigues viveria nas décadas seguintes dias de glória, censura e fracasso. Após o período de ostracismo, é agora o autor mais encenado nos palcos do país e considerado o mais importante dramaturgo nacional
por Marici Salomão
© EMIDIO LUISI/DIVULGAÇÃO
Cena de Nelson 2 Rodrigues, espetáculo que reúne as peças Álbum de família e Toda nudez será castigada, com direção de Antunes Filho, 1984
Nelson Rodrigues morreu em 1980, aos 68 anos, encerrando uma carreira marcada por amores e ódios: de autor aclamado com Vestido de noiva, em 1943, a escritor “maldito” nos anos seguintes; de reacionário e conservador nos anos 60 e 70 ao anonimato nos anos 80. Só com a abertura política é que sua prolífica produção, formada por 17 peças, romances, filmes e crônicas, foi sendo reabilitada. Hoje é o autor mais encenado no Brasil e, por unanimidade, tido como o mais importante dramaturgo nacional de todos os tempos. Título acertado, mas justo para ele que considerava toda unanimidade burra.

Em 40 anos de produção artística Nelson Rodrigues foi sempre um homem combatido e combativo: quando suas peças eram censuradas e ele movia fios e pavios para liberá-las; quando respondia às vaias e se vingava das críticas dos colegas, sem medir esforços; quando partia para novos amores; ao mover mundos e fundos para livrar o filho Nelsinho das mãos dos militares, durante a ditadura. Para os da esquerda, Nelson Rodrigues era um reacionário; para os da direita, um tarado e obsceno que havia escrito Álbum de família, Anjo negro, Senhora dos afogados e Dorotéia, peças que lidavam com transgressões, desvios e tabus.

Fato é que Nelson teve a personalidade moldada pelas tragédias familiares e as misérias cotidianas a que foi submetido já na adolescência e na vida adulta. Não poupou esforços para se impor num mundo de miséria e dor.

Filho do jornalista e deputado Mário Rodrigues e de Maria Esther Falcão, Nelson Falcão Rodrigues nasceu no Recife, Pernambuco, no dia 23 de agosto de 1912. Quinto de uma prole de 14 filhos mudou-se com a família para o Rio de Janeiro ainda criança. Apesar de tímido e achando-se feio – “Eu era pequenino e cabeçudo como um anão de Velazquez” –, se fez notar na infância pelo gosto por histórias de adultério. Na escola, menino, escreveu uma redação sobre uma relação adúltera. Aos 13 anos já era repórter policial no jornal de seu pai, A Manhã, e aos 16, respondia por uma coluna semanal no mesmo periódico. Era dado a se apaixonar facilmente e a sofrer depressivamente, com fortes crises de choro, a cada paixão não correspondida. Curiosamente, essas paixões avassaladoras também estão presentes em toda a sua obra.
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Marici Salomão É dramaturga e jornalista na área cultural.