Reportagem
  
edição 27 - Julho 2007
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Nelson Ululante
Trágico e moderno, tornou-se popular como frasista inspirado e reacionário, mas é um dos grandes dramaturgos do século XX
por Carlos Haag
ACERVO SÉRGIO RODRIGUES
Ilustração de Roberto Rodrigues, o irmão de Nelson assassinado e de quem se lembraria sempre
[continuação]

Mas, nesses últimos tempos, bem mais do que conhecer Nelson, precisamos do impossível: dele. “O brasileiro não está preparado para ser ‘o maior do mundo’ em coisa nenhuma. Ser o ‘maior do mundo’ em qualquer coisa, mesmo em cuspe à distância, implica uma grave, pesada e sufocante responsabilidade”, disse, num hoje-mais-do-que-nunca, necessário puxão de orelhas nacional. O país parece, enfim, ter dado razão ao desabafo rodriguiano de que “o homem não nasceu para ser grande e um mínimo de grandeza já o desumaniza”. Procure, em vão (e para além dos imitadores de plantão), um texto sagaz como o dele, capaz de dar conta do que é o nosso país. Andamos muito mal-humorados, secos, insossos, incapazes de arrancar, da realidade nacional, as pequenas delícias cotidianas, na sociedade e na política, que fizeram grande o melodrama rodriguiano. Como ele nos faz falta. “Abominando a dissolução do indivíduo na massa informe, preza a dignidade dos que resistem à mediocridade da visão de mundo e das formas de comportamento mais generalizadas. Para ele, a tragédia do homem consiste no fato de, sendo finito e limitado, carregar o anseio pelo infinito e a perenidade como uma condenação”, escreveu Adriano de Paula Rabelo, autor da tese de doutorado Formas do trágico moderno nas obras teatrais de Eugene O’Neill e de Nelson Rodrigues.

“Ninguém faz nada em arte se lhe falta a dimensão de Vicente Celestino. Todos nós somos um pouco o autor de Acorda, patativa. Shakespeare viveu grandes momentos de Vicente Celestino: Ricardo III tem coisas de Coração materno e de Ontem rasguei o teu retrato”, disse numa entrevista em 1978. “Nelson, consciente de utilizar a tradição do melodrama, ainda a advoga como ingrediente indispensável à obra de arte. Seu gênio mandou às favas o preconceito e intuiu que a exploração do melodrama poderia fornecer um imenso repertório de recursos de extraordinária teatralidade, acessível a uma platéia mais vasta”, observa o pesquisador e encenador Caco Coelho. “Adotando o melodrama, ele estaria comungando dos mesmos valores culturais do povo brasileiro, capturando-lhe a carne e o espírito. De quebra, daria um tapa com luva no autoritarismo do establishment intelectual. No Brasil, o dramalhão é realista por espelhar o vasto universo social dos subúrbios e das favelas, comportamentos típicos do povo, seus gostos, moral, mitos e tabus”, completa.
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