Reportagem
edição 11 - Março 2006
O Brasil por inteiro de José de Alencar
Nova biografia traz de volta escritor que abarcou o país em seus vários ângulos, da floresta à cidade, no sécuo XIX
por Luiz Ruffato
JOSÉ DE ALENCAR, RETRATADO POR ALBERTO HENSCHELMUSEU HISTÓRICO NACIONAL, RIO DE JANEIRO
Lembro-me que nos meus tempos de escola ainda se discutia qual o maior escritor brasileiro de todos os tempos, se José de Alencar, se Machado de Assis, ambos os lados defendidos com ardor por leitores e especialistas. Com o tempo, cresceu o prestígio do autor de Dom Casmurro - sua complexa obra, cada vez mais estudada, no Brasil e no exterior, vem alçando alturas impensáveis, assegurando- lhe o legítimo lugar no panteão da literatura universal. A fama do autor de Iracema injustamente decaiu. Escasseiam os trabalhos acadêmicos e seu nome ainda circula quase exclusivamente em função da obrigatoriedade da leitura nas escolas. Por isso, a importância de O inimigo do rei, do jornalista Lira Neto, que se junta às pouco mais de uma dezena de biografias de José de Alencar, um número minúsculo dada a importância do personagem.

Parece que quem melhor compreendeu a importância de Alencar foi exatamente Machado de Assis. Em diversas ocasiões, o escritor carioca discorreu sobre a obra de seu colega mais velho, de quem afirmava "nenhum escritor teve em mais alto grau a alma brasileira" e para quem predizia que, contra a conspiração do silêncio, trabalhava por ele a "conspiração da posteridade". Vaidoso, rancoroso e contraditório, Alencar sozinho indicou os caminhos possíveis para a literatura ulterior, em temas e linguagem - só tendo equivalente em Mario de Andrade, no século XX.

Nascido em 1829, em Mecejana, Ceará, José Martiniano de Alencar era o primogênito da união entre o padre José Martiniano Pereira de Alencar e a prima Ana Josefina - o casal teve mais sete filhos. Sempre às voltas com conspirações políticas, o padre Martiniano descendia de uma família tradicional do Ceará, tendo participado de episódios da história brasileira, como a Confederação do Equador [movimento de resistência a D. Pedro I, em 1824] e o "golpe da maioridade", que conduziu D. Pedro II ao trono do império com apenas 14 anos. Exerceu ainda a presidência da província do seu estado natal e foi senador. A paixão pela política insufloua no filho, como também suas contradições e reviravoltas ideológicas.

O gosto de Alencar pela literatura nasceu dos tempos em que lia para a mãe e amigas "não somente as cartas e os jornais, como os volumes de uma diminuta livraria romântica". Em sua importantíssima autobiografia intelectual, Como e porque sou romancista, diz que a primeira aproximação com as letras deu-se por meio das charadas, que lhe teriam alimentado o "dom de produzir a faculdade criadora". Ainda na adolescência tentou um poema heróico sobre a Confederação do Equador e um romance histórico, Os contrabandistas.
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