Reportagem
edição 3 - Julho 2005
Oppenheimer, o americano intranqüilo que fez a bomba atômica
Biografias e livros de história nos Estados Unidos traçam a gênese do Projeto Manhattan, de onde surgiu a bomba que, há 60 anos, destruiu Hiroshima e Nagasaki
por Richard Rhodes
Nagasaki, em 9 de agosto de 1945
A história da descoberta de como liberar a energia nuclear, e sua aplicação para fazer bombas capazes de destruir, irradiar e queimar cidades inteiras, é a grande epopéia trágica do século XX. Para construir as primeiras armas, os Estados Unidos investiram mais de US$ 2 bilhões e construíram um complexo industrial, espalhado do Tennessee ao Novo México e ao Estado de Washington, que em 1945 era tão grande quanto a indústria de automóveis americana.

Sessenta anos depois, o Projeto Manhattan esmaece em mito. Os reatores para produção em massa e equipamentos para a extração de plutônio em Hanford, Washington; as instalações para separação de urânio de quase um quilômetro de extensão em Oak Ridge, no Tennessee; os 200 mil trabalhadores que construíram e operaram o vasto maquinário enquanto se esforçavam para manter seu propósito em segredo, tudo desaparece de vista deixando para trás um núcleo vazio de lenda: um laboratório secreto em uma típica colina do Novo México, onde as bombas de verdade eram projetadas e construídas; o carismático diretor do laboratório, J. Robert Oppenheimer, que conquistou reputação internacional até que seus inimigos o derrubaram; um solitário B-29, incongruentemente batizado em homenagem à mãe do piloto, Enola Gay; uma cidade arruinada, Hiroshima, e a pobre Nagasaki, quase esquecida.

Robert Oppenheimer morreu de câncer na garganta aos 62 anos, em 1967. Talvez porque ele fosse um homem complicado, American Prometheus é a primeira biografia completa de sua vida, rica em novas revelações. (J. Robert Oppenheimer and the American century, de David C. Cassidy, o autor de Uncertainty: the life and science of Werner Heisenberg [Incerteza: a vida e a ciência de Werner Heisenberg], trata principalmente do papel de Oppenheimer como cientista.) Nascido em uma rica família de judeus alemães na cidade de Nova York em 1904, ele cresceu com talento para idiomas e amizades, mas sozinho e cheio de auto-aversão. Embora sempre muito magro, fumante inveterado, desajeitado e nervoso, as mulheres amavam seus brilhantes olhos azuis e lhe davam atenção atraídas por sua vulnerabilidade. Sua difícil esposa, Katherine Puening, "Kitty", havia abandonado o marido por ele. Kai Bird e Martin J. Sherwin descobriram um longo caso amoroso com Ruth Tolman, uma psicóloga clínica que era mulher de um dos seus colegas mais próximos. Em 109 East Palace, Jennet Conant, cujo livro anterior intitulava-se Tuxedo Park: a Wall Street tycoon and the secret palace of science that changed the course of World War II (Parque Tuxedo: um magnata de Wall Street e o palácio secreto da ciência que mudou o curso da Segunda Guerra Mundial), relata que pelo menos duas das mulheres associadas ao laboratório secreto de Los Alamos, a secretária de Oppenheimer, Priscilla Greene, e a recepcionista do laboratório de Santa Fé, uma viúva mais velha chamada Dorothy McKibben, eram (como a própria Greene se descreveu) "mais do que ligeiramente apaixonadas por ele". Se por um lado, ele não foi capaz de salvar sua linda e melancólica primeira paixão, Jean Tatlock, das depressões profundas que a conduziram ao suicídio em 1944, ela ao menos abriu seus olhos ao sofrimento humano durante seus melhores anos de convivência em Berkeley, na década de 1930. A terapia de Tatlock era sua atuação no Partido Comunista. Oppenheimer, por sua vez, contribuiu com o partido e compareceu a pelo menos uma reunião, mas nunca se filiou, conclusão a que chegaram Bird e Sherwin depois de uma profunda análise dos arquivos de Oppenheimer no FBI: "Qualquer tentativa de rotular Robert Oppenheimer como membro do partido é um exercício fútil - como o FBI descobriu após muitos anos de investigação frustrada".
1 2 3 4 5 6 7 »
Richard Rhodes é do Book Review.