Reportagem
Pasolini: Um escritor sem barreiras
por Mariarosaria Fabris
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Pier Paolo Pasolini no fi lme Contos de Canterbury, de 1972
Não é fácil dar conta da produção de Pier Paolo Pasolini, um dos mais fecundos intelectuais italianos de século XX. Poeta, ficcionista, ensaísta, crítico literário, teatrólogo, lingüista, argumentista, roteirista, cineasta, teórico de cinema, interessou-se ainda pelas artes plásticas, escreveu inúmeros artigos em jornais e revistas e manteve uma intensa correspondência com amigos e leitores. Embora no exterior, Pasolini tenha sido mais conhecido como cineasta, foi como literato que surgiu no panorama cultural italiano. Enquanto escritor, sua obra abarca três momentos: as décadas de 40, 50 e 60-70.

Os anos 40 foram marcados pelas longas temporadas que passou na mítica Casarsa delle Delizie (Friul), terra natal de sua mãe, retratada em dois romances elaborados no período, mas editados posteriormente: A hora depois do sonho (1962) e Amado meu; precedido de atos impuros (1982). Publicou seus primeiros poemas em italiano e friulano, dedicou-se ao desenho e à pintura, redigiu contos, resenhas, ensaios lingüísticos, críticas de arte para várias revistas culturais, dentre as quais Il Setaccio, de Bolonha. Em fins de 1949, foi afastado da escola em que lecionava e do Partido Comunista Italiano, por corrupção de menores e prática de atos obscenos em público, fugindo de Casarsa para Roma (janeiro de 1950).

A década de 50 foi o cerne de sua produção literária, quando deu à luz Meninos da vida (1955) e Una vita violenta (1959) e escreveu também boa parte dos textos que integrarão Ali dos olhos azuis (1965), em que focalizou os bolsões de miséria que persistiam na periferia de Roma, enquanto a Itália se encaminhava para o boom econômico. Consagrou-se ainda como poeta com Le ceneri di Gramsci (1957) e L'usignolo della Chiesa cattolica (1958). Com um grupo de intelectuais amigos, fundou a revista Officina (1958-59), reuniu seus ensaios de crítica literária em Passione e ideologia (1960) e moveu seus primeiros passos no cinema, colaborando na elaboração de argumentos, diálogos e roteiros. Começou a dedicar-se ao teatro, traduzindo a Oréstia (1959): a trilogia de Ésquilo está na base do desenvolvimento trágico de seus primeiros filmes – Desajuste social (1961) e Mamma Roma (1962) –, em que o fado preside o destino dos homens.
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Mariarosaria Fabris é professora aposentada da USP. Mestre em Língua e Literatura Italiana e Doutora em Artes (Cinema), é autora de Nelson Pereira dos Santos: um olhar neorealista?(1994) e O neo-realismo cinematográfico italiano: uma leitura (1996).