Reportagem
  
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Pasolini: Um escritor sem barreiras
por Mariarosaria Fabris
[continuação]

Visconti - Sintonia literária

A relação de Luchino Visconti com a literatura foi sempre intensa. A análise de sua filmografia revela que a maior parte de seus argumentos derivou de textos literários de autores estrangeiros e italianos. Dentre estes, Giovanni Verga, Camillo Boito, Giovanni Testori, Giuseppe Tomasi di Lampedusa, Gabriele D’Annunzio. Esse leque, no entanto, é muito mais amplo ao se constatar que seus filmes não pretenderam ser uma mera ilustração, mas uma releitura, ou antes, uma reescrita das obras em que o diretor milanês se baseou, reescrita essa na qual freqüentemente afloravam textos de outros autores.

Assim, só para ficar no âmbito da literatura italiana, o argumento de A terra treme (1948) baseava-se em Os Malavoglia, de Verga; o de Sedução da carne (1954), na novela Senso, de Boito, além de contar com a colaboração de Giorgio Bassani no roteiro; o de Rocco e seus irmãos (1960), em alguns dos contos de Il ponte della Ghisolfa, de Testori; os de O leopardo (1963) e O inocente (1976), nos romances homônimos de Tomasi di Lampedusa e D’Annunzio, respectivamente; o roteiro original de Vagas estrelas da Ursa (1965) inspirava-se na obra poética de Giacomo Leopardi (como atesta o título).

Diálogo com Verga ■ O autor italiano com que Visconti mais dialogou foi Verga. Aparentemente, o escritor siciliano estaria só na base do roteiro de A terra treme, quando, na verdade, é possível apontar sua presença também em Rocco e seus irmãos e O leopardo. O diretor, num texto intitulado “Rocco, uma continuação de A terra treme”, classificava a obra de 1960 como o segundo episódio da realização de 1948, uma vez que o núcleo principal daquele filme seria o mesmo de Os Malavoglia: a luta pela sobrevivência e por bens materiais. O tom melodramático que, num constante crescendo, vai tomando conta da narração, no entanto, acaba afastando Rocco e seus irmãos da óptica do escritor siciliano, o qual, para “dissecar” o mundo popular em seus aspectos sociais, o fazia com o distanciamento crítico próprio do Verismo.

Se, nessa obra, a presença de Verga era reconhecida, o mesmo não aconteceu com O leopardo. Nas seqüências iniciais, logo depois da interrupção da reza do terço, o príncipe Fabrizio Salina dirige-se ao jardim: lá, seus empregados encontraram o cadáver de um soldado do exército dos Bourbons, que jaz de costas, com o rosto voltado para o céu. Dessa forma, ao texto de Lampedusa, Visconti sobrepõe a parte final de um conto menos conhecido do autor siciliano, “Carne vendida”, onde é descrita a morte de um jovem soldado da infantaria. Um “esquecimento” que se explica porque, desde o início dos anos 40, o diretor estava tão por dentro do universo de Verga a ponto de senti-lo como próprio. (M.F.)
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Mariarosaria Fabris é professora aposentada da USP. Mestre em Língua e Literatura Italiana e Doutora em Artes (Cinema), é autora de Nelson Pereira dos Santos: um olhar neorealista?(1994) e O neo-realismo cinematográfico italiano: uma leitura (1996).