Reportagem
  
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Pasolini: Um escritor sem barreiras
por Mariarosaria Fabris
COLEÇÃO PARTICULAR
Paolo e Francesca, ilustração de Gustave Doré para Divina Comédia
[continuação]

Os círculos de Sade ■ O romance do marquês de Sade, Os cento e vinte dias de Sodoma ou o elogio da libertinagem (1782-85), do qual Pasolini partiu para realizar Saló (1975), é antes uma citação do que uma transposição. Com efeito o filme divide-se em três círculos – o da mania (perversões), o da merda (coprofi lia) e o do sangue (tortura e morte). Segundo o cineasta, essa estrutura surgiu quando ele percebeu que Sade, “ao escrever, estava pensando seguramente em Dante”.

Se, no Inferno dantesco, presente e passado se fundem, pois a corporeidade das almas dos condenados, nas quais ainda palpitam as paixões, faz com que o passado tornado presente se projete para um tempo eterno, Pasolini, em seu filme, tenta alcançar essa mesma exemplaridade, “invertendo” a ordem de apresentação e projetando os anos 40 na contemporaneidade. Assim, a República Social Italiana ou República de Saló, momento de estertor do regime fascista, transforma-se na Itália dos anos 60-70, dominada, a seu ver, pelo novo fascismo. (M.F.)
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Mariarosaria Fabris é professora aposentada da USP. Mestre em Língua e Literatura Italiana e Doutora em Artes (Cinema), é autora de Nelson Pereira dos Santos: um olhar neorealista?(1994) e O neo-realismo cinematográfico italiano: uma leitura (1996).