Reportagem
  
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Pasolini: Um escritor sem barreiras
por Mariarosaria Fabris
c i n e a s t a - A cultura como mediação poética
DIVULGAÇÃO
Cena do filme As mil e uma noites, de 1974, de Pier Paolo Pasolini, com os atores Ninetto Davoli e Luigina Rocchi
OS PRIMEIROS FILMES DE PIER PAOLO PASOLINI – Desajuste social (1961), Mamma Roma (1962), “A ricota” (episódio de Relações humanas, 1963), uma das partes de La rabbia (1963), Comizi d’amore (1964), Sopraluoghi in Palestina per il fi lm “Vangelo secondo Matteo” (1964) e O evangelho segundo São Mateus (1964) – caracterizam-se por manter certo vínculo com o Neo Realismo.

Dois conjuntos de obras são representativos da superação dessa fase naturalista: o constituído por Gaviões e passarinhos (1966) e pelos episódios “A terra vista da lua” (As bruxas, 1966) e “O que são as nuvens?” (Capricho à italiana, 1968), em que o tom de fábula passa a predominar, graças também às teorias teatrais de Bertolt Brecht que iluminam essas realizações; o integrado por fi lmes baseados em peças clássicas gregas – Édipo rei (1967), Medéia, a feiticeira do amor (1970), Anotações para uma Oréstia africana (1970) –, quando o cineasta, não conseguindo mais ancorar se na realidade, faz da cultura a mediação necessária para sua inspiração poética.

A fase mítica da trilogia grega corre paralela à realização de Appunti per un fi lm sull’India (1968), Teorema (1968), “La sequenza del fi ore di carta” (episódio de Amore e rabbia, 1969), Pocilga (1969) e Le mura di Sana (1971), período em que o cinema pasoliniano começa a tornar-se impopular, no sentido de não ser mais mimético, mas de salientar exatamente aquele rito cultural que o naturalismo de certas obras cinematográficas tendia a camuflar.

Com a chamada trilogia da vida, Pasolini parece retomar seu contato com o mundo popular, um mundo popular ideal, suspenso no tempo, portador de uma vitalidade que a sociedade burguesa não tinha conseguido sufocar. Deixando de lado a visão do próprio diretor, alguns críticos, no entanto, passaram a interrogar as obras e mostrar como a pulsão de morte que caracterizará Saló (1975) – com a qual o cineasta abjura Decameron (1971), Os contos de Canterbury (1972) e As mil e uma noites (1974) – já está contida nas realizações que o antecedem e, estabelecendo uma linha de continuidade entre os quatro filmes, preferem agrupá-los sob a etiqueta de tetralogia da morte. (M.F.)
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Mariarosaria Fabris é professora aposentada da USP. Mestre em Língua e Literatura Italiana e Doutora em Artes (Cinema), é autora de Nelson Pereira dos Santos: um olhar neorealista?(1994) e O neo-realismo cinematográfico italiano: uma leitura (1996).