Reportagem
  
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Pasolini: Um escritor sem barreiras
por Mariarosaria Fabris
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Cena de A terra treme (1948), de Visconti, baseado em Il malavoglia, de Verga
[continuação]

Cinema - Vozes literárias na tela

Logo após seu surgimento em 1895, o cinema sentiu a necessidade de contar histórias, enquanto tentava estruturar uma linguagem própria. Para tanto, recorreu a outras artes, dentre as quais a literatura, pedindo emprestados romances, novelas, contos, poemas épicos e dramáticos para seus argumentos, roteiros e diálogos, além da própria noção de discurso narrativo. A indústria cinematográfica italiana também escolheu como seu caminho principal o cinema narrativo e, em 1907, lançava o primeiro filme derivado de uma obra literária, Ilfornaretto di Venezia, baseado no drama homônimo de Francesco Dall’Ongaro e produzido pela Cines de Roma. Como essa, outras realizações do período foram extraídas de textos românticos.

As adaptações literárias, contudo, exigiam um conhecimento específico da arte de narrar e, a partir de 1909, aos produtores cinematográficos pareceu natural passar a engajar escritores. As relações entre ambos não foram fáceis. Primeiramente, porque nem sempre os escritores entenderam as diferenças de linguagem e de códigos narrativos entre a literatura e a sétima arte. Ademais, viam como uma espécie de aviltamento de seu talento a atividade de redigir intertítulos (na fase do cinema mudo) ou roteiros originais e de adaptar obras próprias ou alheias.

Em 1913, com o aporte do prestígio de Gabriele D’Annunzio ao sucesso de Cabíria, novas perspectivas na relação entre literatura e cinema se consolidaram. D’Annunzio, ao contrário de outros colegas de profissão, cultivava a própria aura de criador mesmo quando escrevia para a indústria cinematográfica. Embora sua contribuição ao filme de Giovanni Pastrone tenha sido mínima, ela foi mitificada a ponto de ser-lhe atribuída a autoria da obra. “Apagada” a identidade do diretor, o poeta tornou-se o autor material de Cabíria. Essa mudança do papel do intelectual dentro do cinema levou às primeiras reflexões teóricas sobre a paternidade de um filme.
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Mariarosaria Fabris é professora aposentada da USP. Mestre em Língua e Literatura Italiana e Doutora em Artes (Cinema), é autora de Nelson Pereira dos Santos: um olhar neorealista?(1994) e O neo-realismo cinematográfico italiano: uma leitura (1996).