Reportagem
  
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Pasolini: Um escritor sem barreiras
por Mariarosaria Fabris
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Cena de Senso (Sedução da carne), de Visconti, baseado em novela de Camilo Boito
[continuação]

Realidade do pós-guerra ■ Na segunda metade dos anos 40, a afirmação do neo-realismo tornou a modificar as relações entre literatura e cinema. Com o fim da guerra, os cineastas, em seu papel de cronistas por excelência, num primeiro momento, sobrepujaram os literatos, pois a urgência de gravar a memória dos acontecimentos recém-vividos parecia exigir um registro direto, sem a intermediação da palavra escrita. Passado esse primeiro momento, literatura e cinema voltaram a dialogar: no entanto, mais do que em adaptação, preferia-se falar em inspiração. Embora muitas vezes ainda buscassem sua fonte de inspiração num conto ou num romance, os autores cinematográficos reescreviam a história, a contavam a partir de seu ponto de vista, a interpretavam à luz dos acontecimentos que estavam vivenciando.

Foi o caso de Cesare Zavattini quando, sob a direção de Vittorio De Sica, levou para a tela seu romance Totò il buono, sob o título de Milagre em Milão (1950). O apólogo surreal sobre a sociedade, que se desenrolava numa cidade imaginária, transformava-se numa fábula ambientada numa metrópole de verdade, com referências bem concretas à realidade do pósguerra, pois era necessário estar em sintonia com o momento social que o país estava vivendo. Mais radical ainda havia sido a apropriação da obra de Luigi Bartolini para a realização de Ladrões de bicicleta (1948), da qual sobrou apenas o título e a idéia do roubo do veículo, elementos que permitiram a De Sica e Zavattini levar adiante seu conceito de cinema: o dos pequenos fatos de crônica, da poética do dia-a-dia.

Luchino Visconti, antes de estrear como cineasta, já havia escrito Ângelo. Publicado postumo em 1993, esse romance inacabado foi concebido por volta de 1937 e representa uma das poucas experiências literárias do diretor. Em Ângelo, a crítica detectou a presença de Giovanni Verga, o mesmo escritor que, no início dos anos 40, voltava a ser descoberto por toda uma geração de intelectuais de esquerda, a qual sentia a necessidade de opor à retórica da cultura ofi cial fascista uma cultura enraizada na realidade social e popular do país.
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Mariarosaria Fabris é professora aposentada da USP. Mestre em Língua e Literatura Italiana e Doutora em Artes (Cinema), é autora de Nelson Pereira dos Santos: um olhar neorealista?(1994) e O neo-realismo cinematográfico italiano: uma leitura (1996).