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Reportagem |
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| Pasolini: Um escritor sem barreiras |
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| por Mariarosaria Fabris |
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DIVULGAÇÃO |
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| Cena de Ladrões de bicicleta (1948), de Vittorio de Sica, um marco do cinema neo-realista italiano |
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[continuação]
Em 1941, Visconti adquiriu os direitos cinematográficos de Os Malavoglia, atraído pela plasticidade e pelo “ritmo íntimo e musical” (como ele mesmo escrevia) do romance de Verga, mas apenas sete anos mais tarde conseguiu realizar a obra que dele derivou: A terra treme. Numa leitura gramsciana, a esse filme de 1948 poderiam ser atribuídos os mesmos limites que haviam sido apontados na obra do escritor siciliano. Antonio Gramsci não considerava Verga um autor popular, por sua céptica impassibilidade de observador, sinal evidente do distanciamento que, durante séculos, havia caracterizado a relação entre intelectuais e povo na Itália. Em A terra treme, o esteticismo das imagens foi interpretado como o reflexo do imobilismo social ao qual o diretor, como Verga, parecia condenar suas personagens. Em 1948, contudo, Visconti não poderia ter seguido a lição de Gramsci, dado que o comentário deste sobre o autor siciliano integra Literatura e vida nacional, publicado apenas em 1950. Em 1954, porém, ao filmar Sedução da carne, o aproveitamento dos ensinamentos gramscianos foi outro.
Criação autônoma ■ Ao inspirar-se na novela Senso, de Camillo Boito, em que a condessa Lívia Serpieri narra de forma fria e distanciada sua aventura extraconjugal com um jovem ofi cial austríaco, Visconti transformava o adultério numa envolvente história de amor, marcada pela fatalidade do destino de seus protagonistas, representantes de um mundo agonizante: o do Império austro-húngaro e da nobreza. Dessa forma, privilegiava o gênero melodramático (o fi lme se inicia, não por acaso, com Il trovatore, de Giuseppe Verdi), prestando sua homenagem a Antonio Gramsci, para quem a ópera vinha suprir, dentro da cultura italiana, a falta de uma literatura popular como a que se havia desenvolvido na França. Ademais, Sedução da carne valia-se da interpretação gramsciana também na releitura do Risorgimento, visto pelo diretor sem nenhuma ênfase retórica, ao contrário da visão apresentada pela história oficial e pelo cinema, em geral. A não-participação de camadas populares no processo de unificação do país explicitava-se, no filme, na reconstituição das zonas de guerra, com os camponeses concentrados em seu labor cotidiano e indiferentes ao deslocamento das tropas que se preparavam para o combate. |
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| Mariarosaria Fabris é professora aposentada da USP. Mestre em Língua e Literatura Italiana e Doutora em Artes (Cinema), é autora de Nelson Pereira dos Santos: um olhar neorealista?(1994) e O neo-realismo cinematográfico italiano: uma leitura (1996). |
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