Reportagem
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Pasolini: Um escritor sem barreiras
por Mariarosaria Fabris
[continuação]

Esse filme de Visconti é um bom exemplo de como a interpretação de uma obra literária pode ser enriquecida por outras leituras, na composição de uma nova narração, que assim se transforma em criação autônoma em relação ao texto de partida. Uma operação idêntica foi levada a cabo, 30 anos mais tarde, pelos irmãos Taviani no episódio “La giara” (que integra Kaos), quando emprestaram a Dom Lolló, um dos protagonistas da novela e da peça pirandellianas, alguns traços do avarento Mazzaró da novela Os bens, de Verga.

Isso traz de volta a discussão sobre a paternidade de uma obra cinematográfica. Baseada no romance Meninos da vida, La notte brava (1959), de Mauro Bolognini, em algumas seqüências, traz uma marca autoral tão forte de Pier Paolo Pasolini (que também assina o argumento e o roteiro), que é difícil resistir à tentação de classifi cá-la como uma espécie de obra inaugural de sua filmografia. O reverso da medalha é representado por Federico Fellini, o qual, ao filmar obras literárias, imprimiu um estilo tão pessoal que, às vezes, se tornou necessário declarar sua autoria já no título dos filmes. Foi o caso de Casanova de Fellini (1976), adaptação de Storie della mia vita, de Giacomo Casanova.

O cajado da voz ■ Como Soldati e Pasolini, outros autores italianos transitaram entre a literatura e o cinema: de Alberto Bevilacqua, que dirigiu quatro de suas obras levadas para a tela – La califfa (1970), Questa specie d'amore (1972), Attenti al buff one (1975) e La donna delle meraviglie (1978) –, a Andrea De Carlo, que deu ao filme Treno di panna (1988) uma estrutura própria, diferente daquela do romance homônimo.

Tampouco devem ser esquecidos diretores como Mauro Bolognini e Valerio Zurlini, em virtude do grande número de obras literárias que levaram para a tela. De Bolognini, vale destacar O belo Antonio (1960), Un bellissimo novembre (1968), L'assoluto naturale (1969) e Metello (1970), extraídos de textos de Vitaliano Brancati, Ercole Patti, Goff redo Parise e Vasco Pratolini, respectivamente. De Zurlini, podem ser arroladas suas versões para obras de Pratolini – Quando o amor é mentira (1954) e Dois destinos (1962) – e de Dino Buzzati, do qual adaptou O deserto dos tártaros (1976). Deve ser lembrada, ainda, sua penúltima realização, A primeira noite de tranqüilidade (1972), cujo roteiro deriva da última parte de uma trilogia romanesca de sua autoria (inédita e inacabada) sobre a saga de uma família italiana de colonizadores no Norte da África, a partir de fins do século XIX.

O exemplo mais significativo do amadurecimento das relações entre literatura e cinema, talvez, possa ser retirado de outra obra dos Taviani, Pai patrão (1976-1977), inspirada na autobiografia de Gavino Ledda. No plano final do prólogo do filme, Ledda entrega um cajado ao ator que interpreta seu pai; em seguida, sai de cena, enquanto o personagem dá início à ação propriamente dita. A entrega do cajado adquire o valor simbólico de entrega da voz autoral aos cineastas por parte do escritor, pois é a eles que a história passa a pertencer, para que possam transformá-la numa nova obra. (M.F.)
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Mariarosaria Fabris é professora aposentada da USP. Mestre em Língua e Literatura Italiana e Doutora em Artes (Cinema), é autora de Nelson Pereira dos Santos: um olhar neorealista?(1994) e O neo-realismo cinematográfico italiano: uma leitura (1996).