Reportagem
edição 10 - Fevereiro 2006
Reino de fadas às avessas
Escritores embaralham clássicos e criam versões em que o lobo é bom e a princesa, rebelde
por Gabriela Romeu
Nem tudo transcorre segundo as regras estabelecidas há séculos no reino dos contos de fadas, com narrativas que misturam personagens tipificados, estrutura determinada e dilemas existenciais, além de ingredientes como encantamentos, metamorfoses e provações. A história pode ter versões diferentes daquelas recolhidas, registradas e (re)inventadas por Charles Perrault, irmãos Grimm e Hans Christian Andersen. Ou seja, nem sempre o lobo é mau, e a princesa às vezes é rebelde.

Essa desconstrução do reino do "era uma vez" é constantemente promovida por escritores contemporâneos de literatura infantil. São autores que bebem nas fontes dos textos tradicionais, mas modificam a ordem narrativa, invertem o papel de personagens e brincam com as conhecidas fórmulas dos contos de fadas. Clássicos, aliás, cuja leitura, segundo Bruno Bettelheim, em A psicanálise dos contos de fadas (Paz e Terra), é de extrema importância para o desenvolvimento infantil. Os contos de fadas, explica Bettelheim, anunciam já nos primeiros anos de vida que a luta contra as dificuldades é inevitável.

Em algumas obras, os personagenstipo dos contos de fadas - princesas, fadas, seres encantados, por exemplo - são virados do avesso. É o caso de Procura-se lobo (Ática), da escritora laureada com o Prêmio Hans Christian Andersen, Ana Maria Machado. Famosos em histórias como Chapeuzinho vermelho, Os três porquinhos e O lobo e os sete cabritinhos, os lobos estão na pior, à procura de emprego, e decidem responder ao seguinte anúncio publicado no jornal: "Procura-se lobo, adulto, de boa aparência, com experiência comprovada, para trabalho de responsabilidade. Pagase bem". Lobos que habitam diferentes contos de fadas, além de mitos, fábulas e lendas, mandam uma carta para destacar e enaltecer suas características.

O lobo é também o personagem central de A verdadeira história dos três porquinhos!, escrita por Jon Scieszka e ilustrada por Lane Smith, uma dupla americana famosa pelos livros que versam sobre contos e fábulas. Alexandre T. Lobo é o narrador que traz uma versão bem desconhecida dos leitores sobre Os três porquinhos. Alex, como o animal prefere ser chamado, diz logo de cara que não tem culpa que os lobos se alimentam de coelhos e porquinhos - "É apenas nosso jeito de ser". Na verdade, essa história de que o lobo bufou e assoprou a casa dos porquinhos começou quando o animal foi preparar um bolo para o aniversário de sua vovozinha. Como faltava uma xícara de açúcar para concluir a receita, teve a idéia de bater na porta dos irmãos porquinhos: o resto todo mundo conhece.
1 2 »