Reportagem
edição 32 - Dezembro 2007
Segredos íntimos
Com as telas de Almeida Júnior, pode-se compreender o casal de Um copo de cólera e o silêncio que seu autor, Raduan Nassar, escolheu em lugar da literatura
por José Castello
IOFILME/DIVULGAÇÃO
Cena de Um copo de cólera, dirigido por Aluízio Abranches, com Júlia Lemmertz e Alexandre Borges, 1999
Também temos o nosso “escritor do não”: o paulista Raduan Nassar, que em 1978, depois de publicar Um copo de cólera, sua segunda novela, desistiu de escrever. Com esse gesto, e sem saber disso, Raduan se tornou um personagem em potencial de Bartleby & cia, livro que o catalão Enrique Vila-Matas publicaria 22 anos depois. Vila-Matas não o inclui em seu inventário dos escritores que abdicaram de escrever, mas podia ter feito isso. Escritores que, imitando o célebre personagem criado por Herman Melville em Bartleby, o escrivão, e sua frase atordoante, “acho melhor não”, também acharam melhor não escrever mais, também preferiram, à literatura, a arte mais refinada do silêncio. Sem dúvida, Raduan Nassar é um deles.

Depois de Lavoura arcaica, livro de estréia, de 1975, e de Um copo de cólera, novela de 76 páginas, Raduan se limitou a publicar um relato antigo, Menina a caminho, em 1994. No mais, se recolheu ao interior paulista e a sua vida de criador de galinhas. Silenciou. É um dos silêncios mais ruidosos da literatura brasileira. Duas novelas geniais, um conto, e mais nada. Por que fez isso? A pergunta é inútil, já que envolve o campo nebuloso dos segredos íntimos. Como leitores, contudo, temos o direito de fazer uma segunda pergunta: o que esse silêncio, esse sonoro não, significa?

Numa terça-feira escura, em São Paulo, dedico-me a reler Um copo de cólera. Quanto mais leio, mais me convenço de que a novela guarda algum tipo de resposta. Sim: Um copo de cólera é um livro limítrofe, um livro terminal. A partir dele, a literatura de Raduan Nassar entrou em colapso. Mas em que fracassou? Que furo é este, que falência é esta que o livro carrega e que, como uma infecção, contaminou toda a obra, e contaminou o próprio escritor, a ponto de levá-lo a desistir de escrever?

Com essa pergunta na cabeça, visito a Pinacoteca Paulista, onde me detenho no conjunto de salas dedicado ao século XIX brasileiro. A apresentação do acervo diz que as telas ali guardadas são obras de fácil assimilação. Exemplares daquilo que os especialistas chamam de “arte pompier”. As situações devem ser verdadeiras e deve haver uma mensagem. Um pintor, em particular, me interessa: Almeida Júnior (1850-1899). Enquanto observo suas telas, a novela de Raduan não me sai da cabeça. Por quê?
© KLA US MITTELD ORF/DIVULGAÇÃO
Raduan Nassar, que depois de lançar duas novelas geniais e um conto, desistiu de escrever
Três telas me fascinam. Em Leitura, de 1892, uma mulher, sentada em um terraço de fazenda, abstrai-se do mundo com um livro. Enquanto lê, ignora atrás de si um vale, um lago, o horizonte. Toda sua atenção – todo o centro da tela de Almeida Júnior – está no livro aberto, cujo conteúdo nos escapa. Que livro é esse? Não sabemos. Trata-se de um segredo. A tela “realista” de Almeida Júnior gira em torno de algo que está oculto – de algo que não se revela.

Realismo? Mensagem? Situação verdadeira? Caminho mais um pouco e encontro a segunda tela, O importuno, que Almeida Júnior pintou em 1898. O ateliê de um pintor. Diante de seu cavalete, o artista pinta o retrato de uma bela moça, em vastos trajes sumários (era uma época de pudor e de exagero). Mas não é isso o que se vê – isso é o que não se vê, apenas se supõe. A tela mostra outra coisa: no fundo, de costas para o observador, o artista entreabre a cortina da porta de entrada. Fala com alguém, um visitante inesperado que não se deixa ver.

Tomada pelo pudor, a modelo se esconde atrás de um segundo cavalete e observa, a distância. Esconde-se? Mas é justamente aí, atrás desse segundo cavalete, que está o foco do quadro – é a partir daí que também nós observamos a cena. Dupla condição do oculto. De um lado, o importuno se esquiva atrás de uma cortina; ao entreabri-la, o pintor ajuda a escondê-lo ainda mais. De outro, a modelo se oculta atrás de um cavalete – mas, ao se esconder, é aí que ela mais se expõe, não ao visitante, mas ao observador da tela. De novo, um segredo está no centro – é o coração – da tela “realista” de Almeida Júnior. Realismo? Fica cada vez mais difícil aceitar a designação.

Chego à terceira tela, Saudade, de 1899. Recostada numa janela que se abre para uma paisagem oculta, uma bela mulher, toda de preto, segura o que parece ser uma fotografia. Um retrato de alguém que está muito distante e cuja ausência lhe dói. Lágrimas lhe escorrem pelo rosto. Mais uma vez, o centro da tela, aquilo que lhe empresta potência, nos é vedado. E, no entanto, é em torno desse objeto perdido que toda a cena, toda a emoção se desenrola.
IMAGENS: PINACOTECA DO ESTADO DE SÃO PAULO
Leitura, 1892, O importuno, 1898, e Saudade, 1899; telas de Almeida Júnior oferecem um modelo para a leitura de Um copo de cólera, de Raduan Nassar
Três telas, três ausências, três furos: um livro, uma cortina, uma fotografia. Pois é assim também, em torno de um grande furo que se desenrola Um copo de cólera. As telas de Almeida Júnior se oferecem, então, como um modelo para a leitura de Raduan Nassar. A narrativa inteira é a reprodução “realista” do diálogo entre um homem e uma mulher. As falas se misturam, se interceptam, se bloqueiam. Uma longa discussão travada com palavras ferozes. Um jogo de acusações, de ressentimentos, de cobranças, de incriminações. Mas disso tudo nós, leitores, temos apenas restos.

Sobras eloqüentes, fulminantes. Tão intensas quanto o olhar que a mulher debruça sobre seu livro, a atenção que o pintor e sua modelo dirigem ao visitante oculto, a dor que a mulher derrama sobre um retrato. É o que Raduan nos oferece: os restos de uma luta interior. Dois personagens travam uma batalha mortal. Tudo o que temos a respeito dos impasses que levaram Raduan a desistir de escrever.

Com Um copo de cólera, Raduan Nassar dirige a seus leitores um grande Não. Um Não que, ao se materializar em um livro fabuloso, guarda a força de um Sim. Um Não que – como o Não gritado pelas mulheres na hora do amor – é um Sim. Alguma coisa fracassou em Um copo de cólera? Ou, ao contrário, alguma aflição extrema se expõe? Uma fotografia que não podemos ver. Um livro que desconhecemos. Um visitante ignorado. Segredos camuflados em algum interior. Tanto Almeida Júnior, nascido em Itu, como Raduan Nassar, em Pindorama, são artistas que vêm do interior. Almeida Júnior morre em Piracicaba, no mesmo interior. Raduan, depois de desistir de escrever, é no interior que se refugia também. Interiores: esconderijos.

Em Um copo de cólera, a relação amorosa tem a aparência de um teatro, no qual as duas partes do amor – atração e repulsa – se misturam: O amor é uma luta. É uma sucessão de cenas – cenas ocultas, como o importuno atrás da cortina. O secreto está no centro do livro. Assim que se encontram, logo nas primeiras páginas, o homem e a mulher se preparam para o sexo. Enquanto a mulher se recolhe ao banheiro, o homem a espera deitado na cama, já sem a calça e a camisa, “já teso e pronto”. Espera e imagina a cena ardente.
A longa cena imaginária se desenrola ao longo de quatro páginas, após as quais o capítulo se fecha. Quando o capítulo seguinte, “O levantar”, se inicia, a relação sexual já terminou. Tudo o que temos (como a figura que se oculta na fotografia) é o que o próprio homem imaginou. É a imaginação, e não a realidade – o “realismo”. Tudo o que temos é o olhar de uma mulher que se derrama sobre um retrato – e o que vemos não é o retrato, mas seu olhar sobre ele. Em outras palavras: a imaginação não só se impõe, como supera a realidade. Realismo? É muito difícil usar essa palavra.

É assim, entre furos e segredos, que a luta entre homem e mulher se desenrola. Nos olhos da mulher, antes da briga começar, o homem lê uma mensagem oculta que diz: “Eu não tive o bastante, mas tive o suficiente”. No amor, o bastante sempre fica de fora, atrás de uma cortina, como na tela de Almeida Júnior. E a idéia do bastante é inoportuna: é em contraste com ela que desmerecemos os prazeres reais (ou “suficientes”, ainda que insuficientes) que caracterizam o amor.

Mas, na grande luta que apenas se esboça entre homem e mulher, uma tendência se evidencia: o homem se inclina sempre para o real, enquanto a mulher dele pede, sempre, um “a mais”. O homem aceita o livro que não se lê, a cortina que veda, a fotografia que se oculta, e deles (dessas fraquezas) retira sua força. A mulher, ao contrário, quer ler, quer descortinar, quer ver, e se move nessa insatisfação. É como a luta entre homem e mulher se desenrola. Ao menos na novela de Raduan.

A mulher quer saber mais e insiste numa pergunta desesperadora para o homem: “Que que você tem?”. Pergunta que se reporta à dúvida, ao escondido, à insegurança, mas também à ameaça e ao desejo de posse – de tudo ter, de conhecer os segredos do amado, de saber o que é o amor. É indisfarçável que, nessa luta, não só por uma questão anatômica, Raduan se coloca do lado do homem. Raduan “é” o homem, que respeita seus impulsos, suas incertezas, sua fúria e se defronta com a mulher que sempre quer ter mais, e que dele exige clareza, segurança, contenção – tudo aquilo que se esconde sob a cortina.
Pensando na entrevista que Raduan concedeu muitos anos depois aos Cadernos de literatura, do Instituto Moreira Salles, arrisco-me a pensar se essa mulher não é o mundo literário, com suas exigências ferozes, seus ritos duros e suas cobranças atordoantes. Penso mais: se ela não é a própria literatura, ou pelo menos a idéia que, em geral, temos hoje a respeito da literatura. Um ideal desenhado pela história literária, pelas escolas estéticas e pelos padrões de interpretação. Ideal que se distingue e se separa do livro realmente escrito – este livro, aquele livro, um livro qualquer.

O homem, dizem os clichês (e Raduan trabalha com clichês), prefere a ação. Por isso é mais quieto e por isso desconfia das palavras. Se busca, busca efeitos materiais, a que não pede coerência, mas potência. Não se ilude: nenhum alimento mata sua fome, nem mesmo a glória literária. O homem desconfia da razão idealizada da mulher, pois sabe que “a razão jamais é sem paixão”. Isto é: sem o corpo e suas instabilidades, seus sentimentos e seus tremores. Sem o que escapa, o que falta, o que se esconde.

A mulher, em Um copo de cólera, encena o ideal. O homem também atua, mas imita os versos de Pessoa: “Ator, eu só fingia a dor que realmente me doía”. A mulher é o cocheiro que manobra as rédeas e busca um destino; o homem é o cavalo enfurecido que, aos trancos e sem pensamentos, se limita a avançar. A mulher é o pintor, que tenta ver e tenta compreender. O homem é o importuno, que chega na hora errada. Há um jogo em Um copo de cólera, jogo em que o homem (Raduan?) reage ao desejo de enquadramento e de sentido. Quer tudo de si, até o pior, até o mais repulsivo. Não deseja comportar-se bem, deseja apenas ser. Mas a mulher (a literatura e seus rituais, o mundo literário e suas regras, os grandes intérpretes e seus cânones) insiste em suas exigências. E, para atendê-las, ele precisa deixar de ser – como o visitante que se esconde atrás da cortina, como o retrato que não se deixa ver, como o livro que vemos, mas desconhecemos. Ele precisa, ostensivamente, aos gritos (expressos em Um copo de cólera), desaparecer.

O homem ri da submissão da mulher a seus mestres (“E ela feito um sabujo se filiaria à sua escola, lambendo-lhe os pés numa submissão obscena”). Sabe que, visto de fora, seu pensamento masculino e caó¬tico (“sem escola”) parece enfermidade, e talvez seja mesmo. Para a mulher, pensa, ele é apenas “uma besta vagamente interessante”. Alguém que precisa ser domesticado? Alguém que, ato contínuo, escapa da domesticação pelo silêncio? Calar-se é a única forma de sobreviver. Silenciar. Parar de escrever? Escrever (Um copo de cólera) para, dado o último grito, nunca mais escrever e viver, assim, dessa reverberação?

Saio da Pinacoteca certo de que as telas de Almeida Júnior me ajudaram a ler Raduan. Leitores precisam, sempre, experimentar novos caminhos (como picadas na mata, feitas a golpes de facão) para, enfim, chegar a ler. Não, Almeida Júnior não me ajudou a entender Um copo de cólera. Livros não existem para o entendimento, mas para a invenção. Inventamos novas maneiras de ler os mesmos livros. Sobre livros, abrimos outros livros, e nada mais. Mas, como o importuno que se esconde atrás da cortina, como o retrato que não se deixa ver, como o livro que não podemos ler, os livros continuam inacessíveis. Vem-me a sentença de Borges: “A literatura é um eixo de infinitas relações”. Quando nega nosso desejo de sentido, e faz desse Não um enérgico Sim, a literatura afirma sua grandeza.
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