4 de março de 1998
Revista Veja

A taça que faltava - Central do Brasil é o primeiro filme brasileiro a vencer o Festival de Berlim

Depois da indicação ao Oscar recebida por O que É Isso Companheiro?, o cinema brasileiro teve outro motivo para comemoração na semana passada.
O filme Central do Brasil, protagonizado por Fernanda Montenegro e dirigido por Walter Salles Jr., recebeu o principal prêmio do festival de cinema de Berlim, um dos três mais importantes do mundo, ao lado de Cannes e Veneza.
O Brasil já foi premiado anteriormente nesse festival, mas nunca havia ganho a maior láurea, o chamado Urso de Ouro, concedido apenas ao melhor filme.
O segundo colocado, bem como os vencedores das demais categorias, ganham o Urso de Prata. Central do Brasil, que recebeu um prêmio também na categoria melhor atriz um Urso de Prata para Fernanda Montenegro, derrotou, na competição, pesos pesados como Jackie Brown, o novo filme de Quentin Tarantino, e O Gênio Indomável, com Matt Damon, que concorre a nove Oscar.
É a segunda vez que o Brasil ganha um prêmio de melhor filme num dos três principais festivais.
A primeira foi em 1962, quando O Pagador de Promessas, de Anselmo Duarte, levou a Palma de Ouro em Cannes.
No mundo do cinema, só existe uma glória maior do que ser premiado em Cannes, Veneza ou Berlim: ganhar o Oscar.
Esse feito nenhum filme brasileiro conseguiu até hoje, embora O que É Isso Companheiro? concorra neste ano com boas chances.
A diferença entre ganhar um desses três festivais e concorrer ao Oscar é que, no segundo caso, há um efetivo chamariz para o público.
Berlim, Cannes e Veneza têm outro efeito, o de chamar a atenção da crítica, o que pode ajudar na carreira internacional de um filme.
No caso de Central do Brasil, não haverá muita alteração.
Os direitos do filme já estavam vendidos mundialmente antes do festival.
Central do Brasil é um representante típico daquilo que vem sendo chamado de "novo cinema brasileiro", expressão utilizada por uma parte da crítica para designar a explosão de filmes produzidos na esteira da Lei do Audiovisual, criada em 1993.
Essa lei, que permite às empresas investir em cinema até 3% do que gastariam com imposto de renda, teve como efeito triplicar o número de lançamentos nacionais de seis em 1994 para dezoito no ano seguinte e vinte em 1997.
O chamado "novo cinema brasileiro" não constitui uma corrente estética, como o festejado cinema novo.
Também não fez surgir um diretor marcante, desses que se propõem a reinventar a arte de filmar e são prolixos no discurso, como o falecido Glauber Rocha.
A virtude comum a todos esses filmes é o bom padrão técnico.
Walter Salles, um defensor ferrenho da idéia de que o cinema não é a arte de um autor, mas um produto criado coletivamente, é um dos responsáveis pela elevação desse padrão técnico do cinema brasileiro.
"É uma injustiça creditar apenas a mim o sucesso alcançado por todo um grupo", concede o diretor.
Baiano de telenovela Como cineasta, Walter Salles é, antes de tudo, um ótimo formador de equipes.
Sua especialidade é juntar técnicos, roteiristas e artistas de universos aparentemente díspares para, com isso, chegar a um resultado criativo e competente tecnicamente. Em seu primeiro longa-metragem, A Grande Arte, reuniu atores brasileiros e americanos no sonho ambicioso de fazer um filme bilíngüe.
No segundo, Terra Estrangeira, formou um par romântico com uma atriz consagrada, Fernanda Torres, e um ator iniciante, Fernando Alves Pinto, e convidou Daniela Thomas, mais conhecida pelos trabalhos na área de cenografia teatral, para dirigir o filme junto com ele.
Em ambos os casos, Walter pagou a ousadia de fazer tantas misturas com problemas de coerência no roteiro.
Seu terceiro filme, Central do Brasil, é o mais bem resolvido.
Os atores principais são Fernanda Montenegro, de 68 anos, com larga atividade em teatro, cinema e televisão, e Vinícius de Oliveira, de 11 anos, sem nenhuma experiência dramática antes do filme.
O menino encantou Berlim tanto que jurados mais entusiasmados chegaram a cogitar seu nome para o prêmio de melhor ator.
Walter Salles descobriu Vinícius por acaso, no saguão do Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, onde ele trabalhava como engraxate.
O garoto aproximou-se do diretor e pediu-lhe um sanduíche.
Ganhou um lanche completo e o convite para um teste frente às câmaras. Como Vinícius não apareceu no dia combinado, Salles voltou ao aeroporto e renovou a proposta.
O pequeno engraxate respondeu que só iria se pudesse levar também alguns coleguinhas.
"Nenhum problema", concordou o diretor.
Vinícius saiu-se brilhantemente no teste e fez o filme sob a condição de que voltasse para a escola.
Hoje, o diretor paga os estudos de Vinícius, até como forma de evitar que ele se transforme em um novo Fernando Ramos da Silva o garoto que virou estrela ao fazer Pixote, a Lei do Mais Fraco, de Hector Babenco, e depois voltou à marginalidade.
Em seu novo filme, Walter Salles retrata um país que só na aparência perdeu a delicadeza.
Dora, a personagem principal de Central do Brasil, interpretada por Fernanda Montenegro, é uma mulher que vive de um pequeno golpe: escrever cartas para analfabetos que querem comunicar-se com seus parentes, cobrando pela postagem no correio.
Na verdade, as cartas jamais são enviadas.
Sua vida muda de rumo ao conhecer o garoto Josué, interpretado por Vinícius.
Na primeira versão, o personagem chamava-se Jeová, mas o produtor internacional Arthur Cohn, que é judeu, ficou incomodado com o uso do nome do deus de sua religião e a troca foi feita.
Para fazer os papéis secundários do filme, Salles recrutou os integrantes do grupo de teatro paraibano Piollin, conhecido no eixo Rio São Paulo pelo premiado espetáculo Vau da Sarapalha. Com isso, conseguiu evitar que seu filme, em grande parte ambientado no Nordeste do país, ficasse com aquele sotaque de baiano de telenovela.
A fotografia ficou a cargo de Walter Carvalho, decano da especialidade no cinema e na televisão é o responsável pela fotografia de novelas como Renascer e O Rei do Gado.
Para fazer a música, Salles convidou o violoncelista e maestro Jacques Morelembaum, arranjador de nove entre dez estrelas da MPB.
Morelembaum evitou o baião e o maracatu e fez uma trilha de caráter universal, parecida com aquelas que Michael Nyman faz para produções hollywoodianas.
O resultado dessa mescla toda, em Central do Brasil, é emocionante.
Além de ganhar o prêmio, o filme foi o que teve as sessões mais concorridas no Festival de Berlim, com gente sentada no chão em cinemas para 800 pessoas.
"Só achei que o filme poderia ganhar depois que ele foi aplaudido de pé na noite de estréia", diz Fernanda Montenegro, que magnetiza a platéia com seu desempenho em Central do Brasil.
"É um dos melhores filmes que já vi, há muito tempo não chorava tanto no cinema", avalia o diretor Bruno Barreto.
O diretor Walter Salles tem outra qualidade além do talento para reunir pessoas: habilidade para alocar recursos para seus filmes.
Atualmente, sua empresa, a Videofilmes, está tocando três projetos: a filmagem do romance Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar, com direção do global Luiz Fernando Carvalho; um documentário de três horas sobre o futebol brasileiro, que está sendo feito por seu irmão mais novo, João Moreira Salles, para ser exibido antes da Copa do Mundo; e o filme que tem o nome provisório de O Primeiro Dia, dirigido pelo próprio Walter, que está em fase de acabamento.
Para desenvolver os quatro projetos os três acima mais Central do Brasil , o diretor conta com 6 milhões de dólares da Credicard, maior empresa brasileira de cartões de crédito, que é administrada por três bancos, entre eles o Unibanco, de propriedade da família Moreira Salles.
Não é usual que o diretor recorra aos contatos familiares para ajudar a viabilizar seus filmes ele faz questão de dizer que até evita misturar as coisas.
O pontapé inicial para a realização de Central do Brasil, enfatiza o diretor, foi um prêmio de 300.000 dólares dado ao roteiro escrito pelos jovens Marcos Bernstein e João Emanuel, no Festival de Sundance, em 1996.
O evento, promovido todos os anos pelo ator Robert Redford nos Estados Unidos, é considerado o maior acontecimento do cinema independente.
Segundo dos quatro filhos do embaixador Walther Moreira Salles, 86 anos, fundador do Unibanco, o diretor, que tem 41 anos, sempre foi considerado o rebelde da família.
Como os irmãos, estudou economia com vistas a assumir um posto na empresa do clã.
Cedo, no entanto, se desgarrou desse caminho.
Na hora de fazer uma pós-graduação no exterior, preferiu estudar cinema na Universidade da Califórnia do Sul.
Em meados dos anos 80, fundou a Intervídeo, produtora de documentários, responsável, entre outras coisas, pelo programa de entrevistas Conexão Internacional. Mais tarde, tornou-se diretor de comerciais.
Só depois de ter uma carreira consolidada nessa área chegou a cobrar 20.000 dólares de cachê por filme publicitário foi que Walter Salles partiu para o cinema, com A Grande Arte.
Morou em Washington na infância e em Paris na adolescência, onde teve a oportunidade de freqüentar museus, bibliotecas e cineclubes.
"Minha família me deu acesso à educação mas também me propiciou a possibilidade de ter uma boa formação cultural, e isso não é só o dinheiro que dá", diz o diretor.
"Muita gente tem dinheiro, mas desconhece o prazer de ler um livro.

Com reportagem de Neuza Sanches e Ricardo Valladares