27 de janeiro de 1999
Revista Veja
A atriz sem inimigos - Unanimidade entre os brasileiros, Fernanda
Montenegro agora brilha e recebe prêmios no exterior
Okky de Souza
Nunca uma atriz brasileira chegou tão longe na carreira. A simples
indicação de Fernanda Montenegro ao troféu Globo de Ouro, cuja
premiação acontece em Los Angeles neste domingo, já seria suficiente
para lhe conferir estatura no mundo do cinema. Embora desconhecido do
público brasileiro, o Globo de Ouro, distribuído pela Associação da
Imprensa Estrangeira em Hollywood, não é pouca coisa. Sua
credibilidade, em termos de escolha dos melhores do cinema, é bem
menor que a do Oscar. Mas, do ponto de vista mercadológico, ele
funciona como uma fantástica vitrine. Resultado: suas várias categorias são
muito disputadas pelos artistas. Fernanda Montenegro conseguiu chegar
ao Globo de Ouro porque o mundo gostou de sua interpretação em
Central do Brasil, de Walter Salles. O filme é um sucesso internacional.
Em fevereiro do ano passado, tornou-se a primeira produção brasileira a
ganhar o Urso de Ouro no Festival de Berlim. Por seu desempenho,
Fernanda levou o Urso de Prata. Desde então, filme e atriz já faturaram
quase trinta prêmios, dos Estados Unidos ao Casaquistão. Central do
Brasil foi exibido em 22 países, sempre com ótimas bilheterias — na
França, por exemplo, foi assistido por 400.000 espectadores. Em todos
esses países, críticos e espectadores são unânimes ao apontar a grande
atração do filme: a interpretação de Fernanda Montenegro. "Ela está
soberba", escreveu Janet Maslin, do jornal The New York Times.
O sucesso de Central do Brasil virou pelo avesso a vida de Fernanda
Montenegro. De repente, a atriz que se habituou a ser chamada de grande
dama do teatro brasileiro — título que considera bobo — passou a ser a
sensação das telas. Ela já se havia destacado em filmes como A Falecida
e Eles Não Usam Black-Tie, este premiado no Festival de Veneza, mas
nenhum deles alcançou a projeção de Central. Para promover o filme, ela
vem fazendo uma maratona de viagens pelo mundo orquestrada pela Sony
Classics, encarregada de distribuir Central do Brasil nos mercados
internacionais. A empresa tem também acionado seu lobby em Hollywood
para que o filme e sua atriz principal recebam indicações para o próximo
Oscar. No ano passado, embora tenha montado a peça Da Gaivota,
apresentada em seis cidades brasileiras, Fernanda passou boa parte do
tempo envolvida com a promoção de Central. "Tenho sempre uma mala
pronta e minha casa ficou jogada às traças", conta. No início deste ano, a
atriz começou a sentir outro efeito colateral de sua dedicação ao filme:
abalos em sua conta bancária. O pequeno cachê que recebe a cada
viagem promocional está longe de lhe garantir o sustento. "Quiseram os
deuses que a televisão me oferecesse três trabalhos avulsos, que considero
honrosos", ela diz. Fernanda se refere às recentes participações que fez na
minissérie O Auto da Compadecida, no programa Você Decide e em O
Belo e as Feras, do humorista Chico Anysio. Pelos três, recebeu da Rede
Globo algo em torno de 80.000 reais. "Sou muito grata à TV", comenta.
"Desde os tempos do Grande Teatro Tupi, nos anos 50 e 60, é ela que
dá sustentação econômica para que os atores e atrizes nacionais possam
aventurar-se nos palcos." Fernanda leva na esportiva os rostinhos bonitos
que tentam representar nas novelas. "Com seu corpo e dentadura
perfeitos, são peças descartáveis na TV", define. "Se não desenvolvem
algum talento para atuar, a própria engrenagem os cospe para fora."
Fernanda comunica que neste ano não pretende mais fazer televisão. Seus
planos: prosseguir com as oficinas de interpretação de textos voltadas para
jovens atores e protagonizar um espetáculo sobre a estilista francesa Coco
Chanel.
No trato pessoal, Fernanda nada tem de diva ou de grande dama.
Afetação, empáfia, arrogância, presunção — todos esses atributos tão
caros aos artistas brasileiros não costumam infectá-la. Talvez por isso, e
pela qualidade de seu trabalho, Fernanda se tenha transformado numa
unanimidade nacional. Os críticos invariavelmente elogiam suas atuações.
Entre os colegas, é impossível achar alguém que torça o nariz para ela ou
se queixe de seu comportamento. É um caso raro de pessoa sem inimigos.
"Ela tem uma sabedoria proletária, de gente simples", define a atriz
Fernanda Torres, sua filha, referindo-se às origens modestas da mãe. A
avaliação de Fernandinha explica muito sobre a personalidade de
Fernanda Montenegro. Filha de um mecânico, funcionário da Light, ela
nasceu no subúrbio carioca de Campinho ("numa época em que não havia
favelas nem traficantes") e teve de batalhar bastante até engrenar na
carreira de atriz. Nunca foi à Europa estudar teatro, como Bibi Ferreira,
nem despertou cálidas paixões, como a outrora bela Tônia Carrero. Ao
falar de sua trajetória, deixa transparecer que seu maior orgulho é ter saído
do nada para vencer à custa de muita luta. É uma pessoa humilde de salto
alto. Considera-se uma operária, como o pai, e não uma artista agraciada
pela natureza. Costuma dizer que, se sua vida fosse contada em horas de
trabalho, teria 150 anos. Ao exteriorizar suas opiniões sobre teatro, é
capaz de elaborar teorias complicadas, mas em segundos as desmonta
com um faiscar de olhos e uma risada. Nesses momentos, volta a ser a
menina pobre e ambiciosa que suspirava nas sessões de cinema e sonhava
virar artista.
Definitivamente, ela não mitifica seu ofício. "O que faço, na maioria das
vezes, é artesanato. Só às vezes isso vira arte", ela explica. "Quem não
aprende a fazer esse artesanato jamais chega a roçar a expressão
artística." A lembrança da infância pobre talvez explique também o
desentendimento de Fernanda com Walter Salles, numa das viagens para
promover Central do Brasil. A atriz se queixou de que o diretor, um dos
herdeiros do Unibanco, fingia emocionar-se nas entrevistas e usava roupas
gastas para disfarçar a condição de milionário. Hoje, quando se toca no
assunto da briga, ambos desconversam e disparam elogios mútuos.
A atriz vive atualmente num apartamento em frente da Praia de Ipanema.
Confortável, mas sem luxos. Com ela mora o ator Fernando Torres, seu
marido há 45 anos e que ela se orgulha de ser o único homem que teve na
vida. Fernando tem acompanhado a mulher em várias das viagens
promocionais de Central do Brasil, mas no passado ela nem sempre
pôde contar com sua presença. No final dos anos 80, o ator foi acometido
de uma depressão profunda que abalou a vida de Fernanda em todos os
aspectos. Na biografia da atriz, escrita em 1990 pela jornalista Lucia Rito,
um depoimento de Fernanda mostra claramente o que ela estava
passando: "Cada ciclo da vida é uma passagem dolorida. (...) Meu
querido companheiro de tantos anos passa por um momento delicado de
saúde. Luto com ele e por ele".
No apartamento de Ipanema funciona também o QG executivo do casal.
Eles produzem quase todas as peças em que atuam e ainda outras, para os
colegas. É uma forma de não depender de produtores e, caso a bilheteria
ajude, de ganhar um dinheiro extra. Fernanda tem fama de durona nos
negócios. Ou, como circula no meio teatral, de cultivar certa avidez pelo
vil metal. Comenta-se também que não é de esbanjar dinheiro e gosta de
pechinchar. No terreno da vaidade, Fernanda, aos 69 anos, tem uma
característica que a diferencia das demais atrizes famosas do país. Ela fez
apenas uma cirurgia plástica, e assim mesmo para diminuir as bolsas sob
os olhos, sua característica facial mais marcante desde os tempos de
juventude. "Não sou contra plásticas, mas dar puxadinha na cara, para
quem já dobrou o cabo da Boa Esperança, é arriscado", ela diz. E
emenda, numa autocrítica impiedosa: "Admito que meu pescoço está
completamente tombado, talvez o opere". O público de Central do Brasil
nem liga para o pescoço de Fernanda Montenegro. Quando ela entra em
cena, detalhes como esse desaparecem sob sua interpretação.
O jeito Fernanda de ser
Profissão, família, histórias, manias — passagens marcantes da
vida da atriz e algumas de suas opiniões a respeito
AUTODEFINIÇÃO
Fernanda nos anos 70:
"Desde o início me chamam
de grande dama do teatro
brasileiro. Mas nós, atrizes,
não somos um bando de
éguas alinhadas em busca do
grande prêmio"
INICIO SEM PALMAS
As Alegres Canções da Montanha
marca a estréia de Fernanda como
atriz profissional, em 1950 . A
peça foi um fracasso, mas rendeu-lhe
o namoro com Fernando Torres, seu
futuro marido, que fazia parte do
elenco.
ADEUS, ARLETTE
Arlette Pinheiro Esteves da Silva
inventou o pseudônimo Fernanda
Montenegro. O nome Fernanda lhe
evocava personagens de Balzac
MÃE "PÃO COM MANTEIGA"
O casal posa com os filhos
adolescentes em 1980. Eles
receberam uma educação tradicional.
"Ela é uma mãe conservadora, faz o
estilo pão com manteiga", avalia
Cláudio, hoje diretor de cinema.
ORÇAMENTO MENSAL GARANTIDO PELA TV
Os cachês obtidos com O Auto da
Compadecida e outros dois papéis recentes
na televisão compensaram os meses em que
Fernanda ficou promovendo Central do
Brasil. "Todo brasileiro está fazendo bico e
eu também: anúncios, especiais de TV..."
FUGINDO DA TOSSE
Ritual antes de entrar em cena: tomar um
cafezinho com uma pequena colher de
margarina. "Lubrifica a garganta, que fica
seca por causa do ar condicionado", explica.
GENRO CABEÇA
Em The Flash and Crash
Days (1992), Fernanda
contracenou com a filha,
Fernanda Torres, então
casada com Gerald Thomas,
autor e diretor da peça. A
encenação não tinha diálogos
e o público não entendeu nada, mas a atriz considera o ex-genro genial.
A DECOLAGEM DE CENTRAL
Central do Brasil ganha o
Urso de Ouro em Berlim e
Fernanda (na foto com
Walter Salles), o Urso de
Prata. "Ganhamos, em parte,
por apresentar algo diferente
dos clichês das mulatas
rechonchudas", diz Fernanda.
94 609 km
Essa foi a distância que Fernanda percorreu até agora, no
Brasil, nos Estados Unidos e na Europa, para divulgar Central
do Brasil. "Tenho uma mala daquelas de aeromoça, sempre
arrumada, esperando o próximo vôo", ela conta.
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