Antonio Candido de Mello e Souza: Rebolo e Nós
Roger Bastide: Paisagem
Lisbeth R. Gonçalves: O Grupo Santa Helena
Olívio Tavares de Araújo: Harmonia na Vida e na Obra
Lourival Gomes Machado: Rebolo na Construção do Modernismo nas Artes Plásticas
Francisco Rebolo: Registro Pessoal / Rebolo Depõe
Sérgio Milliet: 1943: A Primeira Exposição Individual de Rebolo
Mário Schenberg: Dados para um Balanço Crítico
Mário Schenberg: A Reaproximação Vital com a Natureza
Quirino da Silva: Rebolo Gonsales
Sérgio Milliet: A Inventiva dos Meios Tons de Rebolo
José Geraldo Vieira: Rebolo, Artesão
Jorge Amado: Mestre Rebolo
Arnaldo Pedroso D'Horta: Uma Nova Fonte de Criação Pictórica
Walmir Ayala: O Anel Lírico
Antonio Gonçalves: Rebolo, Santa Helena e futebol


Rebolo, Santa Helena e futebol

Começam com força e estilo as comemorações do centenário de Francisco Rebolo. Após a inauguração do site www.uol.com.br/franciscorebolo pelo Presidente da República, está em fase de edição um livro de arte onde se resgata a contribuição do artista ao cenário cultural do País. Em seguida, várias mostras, com destaque para a retrospectiva no MAM de São Paulo, vão exibir seu percurso de quase meio século como pintor, gravador e desenhista.
Alguns aspectos iniciais da vida de Rebolo contribuíram para a definição de seu lugar no cenário artístico e para sua formação como cidadão engajado, além de revelar seus dotes pessoais de ternura, simpatia e generosidade. Entre esses aspectos, destaco seu trânsito pelo mundo do futebol e o intuitivo papel na articulação do que viria a ser o Grupo Santa Helena.
Rebolo nasceu em São Paulo, em 1902, filho mais novo de uma família de humildes imigrantes espanhóis, tendo em comum com alguns outros artistas da mesma época - também descendentes de imigrantes, como Bonadei e Graciano, ou estrangeiros, como Volpi e Pennacchi - o trabalho inicial na pintura decorativa. Tanto ele como os demais integrantes do Grupo Santa Helena têm seus nomes ligados aos imigrantes e seus descendentes, que contribuem tão significativamente para o desenvolvimento de São Paulo nas primeiras décadas do século XX, em particular nas atividades econômicas e na cultura.
Para Rebolo, o trabalho na pintura decorativa de paredes chega bem cedo. Ainda criança, contava, seguiu uma carroça com tijolos, na pista de trabalho em alguma obra; depois, aos 11 anos, levava marmita para um irmão adulto e ajudava na pintura de paredes. Dessa dura vivência acabou surgindo a precoce experiência com a pintura de casas e, um pouco mais tarde, o trabalho em restauros nas igrejas de Santa Ifigênia e Santa Cecília.
Em depoimento, Rebolo fala de seu entusiasmo com o jogo de futebol que estudantes praticam no Colégio Dante Alighieri, enquanto ele trabalha na pintura de salas da escola. Logo, começa a praticar com seriedade esse esporte, que já ensaiava em peladas da várzea, desde a infância: em 1917, com 15 anos, vai jogar no São Bento, clube onde fica por cinco anos.
Em 1922, enquanto acontece a Semana de Arte Moderna, Francisco Rebolo é convidado a jogar no Corinthians Paulista, time pelo qual torcia desde a infância; foi um momento de realização do sonho de menino, quando jogava nas peladas do bairro da Mooca. Apesar de ter mudado de clube em 1927 - quando se transferiu para o Juventus - foi de Rebolo o projeto do emblema mantido até hoje pelo time corintiano, peça por ele elaborada no início dos anos 30, a pedido de um amigo dirigente do clube. Durante mais de 16 anos, até inícios de 1934, ele se dedicou ao futebol; com mais de 30 anos de idade, deixa de lado a bola e principia o que seria uma carreira ininterrupta de 46 anos como artista de alentada produção de óleos e matrizes de gravuras.
Em meados da década de 1930, conhece Mário Zanini, logo surgindo entre os dois uma fraterna amizade e o atendimento conjunto a encomendas de pintura decorativa. Como pintor-decorador, Rebolo executa pintura para durar o mais possível. Por isso, antes, a parede recebe uma camada de tinta, geralmente a óleo, depois vem a decoração, com frisos que recebem pinturas de frutas, flores, pássaros e formas geométricas. Nesse momento, dizia, surge sua arte.
Quando inicia a atividade como pintor de óleos, Rebolo percebe que é beneficiado pelo ofício de decorador e pelos recursos de artesão. Ele prepara as telas e trabalha seus próprios tons, não só nas pinturas a óleo, mas também na têmpera, em que é um mestre. A crítica recebe com interesse o novo artista: dois anos depois, ele é premiado no principal salão de arte da época.
Em 1934, faz a mudança do atelier-escritório da rua São Bento para o edifício Santa Helena, situado na Praça da Sé, ao lado da Catedral. Logo depois, em 1935, Rebolo convida o amigo Mário Zanini a dividir com ele o aluguel e o uso da sala de nº 231, começando a delinear-se o embrião do Santa Helena.
Quase em seguida, outros artistas, quase todos iniciantes, passam a freqüentar a sala. Junto a Rebolo, lá estarão Bonadei, Pennacchi, Manuel Martins, Graciano, Volpi, Humberto Rosa e Rizzotti, gerando-se um aumento populacional que obriga o grupo ao aluguel de uma segunda sala. Além do trabalho de ateliê, com modelo vivo, começam a sair em grupo para pintar paisagens nos arrabaldes paulistanos e em cidades próximas.
Nas duas pequenas salas, esses artistas desenvolvem afinidades e coleguismo. Serão amigos e "cúmplices" por toda a vida, como se comprovou em gloriosa festa de reencontro que organizei na casa de Rebolo, no início dos anos 1971, juntando oitos integrantes do Santa Helena e uma centena de convidados, entre artistas, críticos, jornalistas, marchands e colecionadores.
Cria-se entre eles, desde o início, um autêntico espírito de apoio e estímulo mútuo que será componente decisivo na formação de todos. Não carregavam a preocupação de formar um grupo, certamente, mas as intenções artísticas semelhantes e a convivência no mesmo espaço logo levou alguns críticos a denominá-los Grupo Santa Helena; e assim eles ficaram conhecidos para sempre, desde os anos 30 e 40.
Esses artistas representam um segundo momento do modernismo no Brasil, em que a preocupação com a técnica de pintar e a perícia no acabamento são vetores fundamentais da produção, enquanto os modernistas dos anos vinte teriam enfatizado, antes, o aspecto da inovação.
Assim, os pintores do Santa Helena - do qual Rebolo foi fonte inicial e decisiva de agregação - compuseram um grupo, independentemente da sua percepção do fenômeno que viviam. Esses pintores, dos quais alguns se tornaram verdadeiros ícones da arte brasileira, tiveram esse mérito adicional de contribuir para a renovação de um tipo de expressão artística preocupado com os aspectos técnicos. Como observou Sérgio Milliet, arguto e qualificado crítico, com vasto conhecimento da produção de todos eles, a atuação do Grupo Santa Helena representou "uma reação da pintura de matizes e atmosferas contra as correntes mais avançadas, mas menos artesanais".
Ainda que não consciente disso, possivelmente, Rebolo teve papel relevante na dinâmica desse grupo. Para isso, contribuíram certas características, algumas de sua rica personalidade, outras desenvolvidas na extensa e intensa vivência como jogador de futebol e como pintor de paredes.
Fato incontestável é que a experiência de vida e o jeito de ser de Rebolo levaram esse artista, cujo centenário está sendo devidamente lembrado, a atuar como um aglutinador de pessoas, sempre pensando no coletivo. Este foi um traço que Francisco Rebolo manteve durante toda a vida e que o tornou, também neste aspecto, uma figura ímpar na história da arte brasileira.

Antonio Gonçalves é sociólogo e presidente da Comissão do Centenário de Francisco Rebolo.