Antonio Candido de Mello e Souza: Rebolo e Nós
Roger Bastide: Paisagem
Lisbeth R. Gonçalves: O Grupo Santa Helena
Olívio Tavares de Araújo: Harmonia na Vida e na Obra
Lourival Gomes Machado: Rebolo na Construção do Modernismo nas Artes Plásticas
Francisco Rebolo: Registro Pessoal / Rebolo Depõe
Sérgio Milliet: 1943: A Primeira Exposição Individual de Rebolo
Mário Schenberg: Dados para um Balanço Crítico
Mário Schenberg: A Reaproximação Vital com a Natureza
Quirino da Silva: Rebolo Gonsales
Sérgio Milliet: A Inventiva dos Meios Tons de Rebolo
José Geraldo Vieira: Rebolo, Artesão
Jorge Amado: Mestre Rebolo
Arnaldo Pedroso D'Horta: Uma Nova Fonte de Criação Pictórica
Walmir Ayala: O Anel Lírico
Antonio Gonçalves: Rebolo, Santa Helena e futebol


Uma Nova Fonte de Criação Pictórica

Rebolo Gonsales está expondo na 4 Planetas uma série de trabalhos de pequeno formato. Os quadrinhos obedecem a dias técnicas diferentes: alguns pintados à maneira tradicional do artista, são manchas feitas diante da própria paisagem, e que desta refletem a frescura e a espontaneidade; outros são de maior elaboração mental, e realizados mediante processo aparentado com o da gravura.

Aconteceu que um dia Marcelo Grassmann, que tem pela gravura furor missionário, convenceu Rebolo a experimentar a xilogravura. Arranjou-lhe a madeira, a tinta, os primeiros instrumentos, e Rebolo, deixando de lado seu pincel e a superfície escorregadia da tela, empunhou os instrumentos de corte e pôs-se a ferir as fibras vegetais. A experiência interessou-o, mas não o satisfez. Aquele simples sulco cortando a prancha e a oposição direta do branco e preto nas provas tiradas parecia-lhe um pobre resultado. Assim foi que começou a retocar as cópias com pinceladas e cor, e em pouco estava pintando diretamente sobre a madeira gravada.

Daí a voltar à pintura sobre tela foi um passo, mas ele aprendera, na gravura, a desbastar uma camada para revelar o interior da madeira, e foi quase naturalmente que começou a fazer a mesma coisa em sua nova pintura: ele pinta e depois tira, a intervalos, sulcos da camada pintada, que assim se torna irregular, farfalhante e misteriosa.

Admiradores de sua antiga maneira de pintar torceram o nariz diante do novo procedimento, achando que ele perdera a pureza. Mas o destino dos artistas é esse mesmo: são eles que criam a ótica mediante a qual o público aprende a ver seus trabalhos, e quando substituem o modo anterior por uma nova proposição, o público, aferrado à anterior posição, protesta. Com o tempo irá de novo alcançando aquilo que lhe parecera um salto dado pelo artista, e que na verdade foi o fruto de uma longa elaboração interior, afinal publicada. E quem não tiver a coragem de desprender-se, a intervalos, do círculo em que o público está habituado a situá-lo, não viverá a aventura artística. Rebolo, aos 60 anos, arrisca-se, e por isso continua criando.

Arnaldo Pedroso D'Horta
Jornal da Tarde, maio de 1967