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Antonio Candido de Mello e Souza: Rebolo e Nós
Roger Bastide: Paisagem
Lisbeth R. Gonçalves: O Grupo Santa Helena
Olívio Tavares de Araújo: Harmonia na Vida e na Obra
Lourival Gomes Machado: Rebolo na Construção do Modernismo nas Artes Plásticas
Francisco Rebolo: Registro Pessoal / Rebolo Depõe
Sérgio Milliet: 1943: A Primeira Exposição Individual de Rebolo
Mário Schenberg: Dados para um Balanço Crítico
Mário Schenberg: A Reaproximação Vital com a Natureza
Quirino da Silva: Rebolo Gonsales
Sérgio Milliet: A Inventiva dos Meios Tons de Rebolo
José Geraldo Vieira: Rebolo, Artesão
Jorge Amado: Mestre Rebolo
Arnaldo Pedroso D'Horta: Uma Nova Fonte de Criação Pictórica
Walmir Ayala: O Anel Lírico
Antonio Gonçalves: Rebolo, Santa Helena e futebol

Registro Pessoal / Rebolo Depõe
Uma retrospectiva é uma oportunidade de se repensar muitas coisas: a vida, antes e depois de ser pintor, a evolução na pintura, com seus altos e bobos, as obras criadas e soltas no mundo, que são como filhos que a gente volta a encontrar e algumas vezes estranha um pouco, outras vezes se encanta. Também as lutas, alegrias e decepções, marcos decisivos de que não me esqueço.
Antes da pintura, o futebol já tinha marcado minha vida. Como no futebol, acho que na arte deve-se fazer coisas espontâneas, com a marca do amor e entusiasmo, para poder se emocionar e emocionar outras pessoas.
Ainda como jogador de futebol, eu preferia as rodinhas de artistas, no Café Paulista da Praça Antonio Prado ou no Café Guarani, na rua XV de Novembro. Depois de alugar uma sala no ''Santa Helena'', comecei a ter mais contato com artistas, alguns já formados, outros principiantes, e isso foi benéfico para meu desenvolvimento como pintor. Todos nós pintávamos com idéias novas na cabeça, querendo fugir ao mau gosto e às deformações reinantes na arte, e tínhamos uma coisa bastante definida: a vontade de estudar e aprender a pintar.
Foi lá no ''Santa Helena'', mesmo, que os intelectuais e críticos forma nos descobrir. Sérgio Milliet, um dos meus amigos mais íntimos, foi dos primeiros, juntamente com Mário de Andrade Paulo Magalhães, Oswald de Andrade, Paulo Mendes de Almeida, Alfredo Mesquita, Quirino da Silva e muitos outros. Todos foram importantes para que eu me tomasse mais conhecido e me estimularam a continuar pintando. Para mim, esse estímulo sempre foi mito benéfico.
Foram muitas as lutas. Uma das principais foi a que provocou o reconhecimento, em todos os setores da população, da importância da arte moderna, que até começos da década de 40 ainda não era vista com bons olhos. Lutamos, também, por uma atitude profissional do artista; transformamos a Associação de Belas Artes em Sindicato dos Artistas Plásticos e Compositores Musicais e tentamos aglutinar os artistas em tomo da defesa de seus interesses, instituindo imposto sindical e todas essas coisas. Eu sempre achei que o artista, como todo profissional digno, deve viver do seu trabalho e poder dedicar-se a ele integralmente. Por isso, fico satisfeito constatando que hoje uma parte dos artistas com algum lastro já vive da sua arte e voltados para ela.
Antigamente, expúnhamos em livrarias ou corredores alugados e hoje são centenas de galerias, pelo Brasil todo, como resultado do aumento do número de colecionadores e interessados em arte. Isso tudo é bom, porque facilita a consolidação de muitos artistas e faz com que surjam novos, trazendo a longo prazo benefícios para a arte brasileira, para nosso desenvolvimento cultural.
Muito importante, para ruim, foi também o prêmio de viagem, que me possibilitou viver dois anos na Europa e me criou uma necessidade ainda maior de experimentar coisas novas na minha pintura, Voltando de lá, em 1957, vivi um período muito rico de pesquisas e acho que elas foram decisivas para minhas fases posteriores, inclusive a atual.
Em todas essas coisas - e numa infinidade de outras - eu me vejo pensando, agora que um grupo de amigos organiza minha retrospectiva. E o que mais entusiasma é constatar que- ao longo da vida fui me tornando amigo de muita gente boa e sincera, e que fui leal com todos eles. Agora, acho que minha responsabilidade cresce, quando mais gente vem a conhecer minha obra.
São Paulo, 1973.

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