BATE-PAPO COM GERALD THOMAS

Diretor de teatro falou sobre a montagem da ópera "Tristão e Isolda".

Participaram do Bate-papo 133 pessoas
Este-bate-papo ocorreu em 19/08/2003, às 15h00

ÍNTEGRA
O texto abaixo reproduz exatamente a maneira como os participantes digitaram suas perguntas e respostas

(03:11:28) Cinéfilo: Boa tarde
(03:11:43) Negra*RJ: Oi Boa Tarde......Geral o q vc achou do público q assisitiu a ópera aqui no RJ?
(03:18:47) celo: : olá gerald,blz? Semana passada morreu haroldo de campos,na tua opinião qual a influência dele no teu trabalho?

(03:21:40) Gerald Thomas: Oba gente, eu estou aqui, neste estúdio maravilhoso na avenida Faria Lima em São Paulo, onde eu jamais achei que eu estaria, mas deveria estar no RJ mostrando a bunda no Teatro Municipal. Na TV UOL estará em breve programa especial com Haroldo de Campos, querido poeta. Oi gente.

(03:22:38) Ana Peluso: Oi Gerald, eu queria saber quais foram as principais dificuldades que vc encontrou nessa montagem, especificamente.

(03:23:56) Gerald Thomas: celo, no meu trabalho ele é influência total, porque o Haroldo fazia essa ponte entre todas as culturas. Ele não era um iconoclasta, porque quer dizer destruição, ele era um levantador de todos os ícones, fazia a fusão de tudo. Obcecado por Goethe, Joyce, Ezra Pound, obcecado pela cultura anciã, mandarim, manchuriana, cantonesa, pela poesia de Confucius e pelo movimento de como as culturas se formavam. Ele se orgulhava e tinha a modéstia de não ser só um transcriador, sempre querendo descobrir aquilo que criou as culturas.

(03:25:11) Gerald Thomas: celo, Haroldo de Campos é o verdadeiro pai do Tropicalismo, é bom não ser esquecido.

(03:26:05) Zed: Ola Gerald. Qual a sua opiniao sobre a falta de inteligencia do povo carioca com relação a sua adaptação ??

(03:29:19) Gerald Thomas: Ana Peluso, todas as dificuldades. Uma ópera na Europa demora dois anos, é o tempo que você tem para trabalhar. Morava em Nova York mas trabalhava na Europa, isso é normal. Primeiro você faz a discussão intelectual, três dias conversando sobre os conceitos. Depois desenha-se os cenários e manda para a equipe de montagem da ópera. Vai e volta-se a cada etapa de produção, três meses de ensaio, tudo para que as coisas saiam como deveriam. Quando se chega para ensaiar, está tudo já montado, toda equipe disponível.

(03:29:40) Gerald Thomas: continuando para Ana, e no Brasil não, no dia de chegada até a estréia da ópera, tudo acontece em 17 dias, e dá no que dá.

(03:30:14) Fabinho: quando vc volta a fazer teatro em sp?

(03:32:14) Gerald Thomas: Zed e Nega RJ, o público carioca não é muito conhecido pelo seu conhecimento sobre ópera. Mas a intuição é muito interessante. O centro brasileiro de cultura é São Paulo, uma cidade que prefiro. Rio de Janeiro é um balneário, como Cancun e Acapulco. A Helena Severo é uma sensacional secretária de cultura. Mas ela é completamente subvertida por um débil mental chamado César Maia, um prefeito esquizofrênico e talvez maluco de pinel, que entregou os teatro para Miguel Falabella - que por sua vez entregou os teatros para a turminha dele, uma mafiazinha do teatro, a turma Global, que superfaturam as obra com verbas públicas. Literalmente roubam, de uma certa forma, aqueles que não tem chance de usar os teatros da rede municipal. Está um desastre a cena carioca.

(03:32:25) Ana Peluso: E pq vc aceitou trabalhar nessas condições?

(03:32:32) Gerald Thomas: Fabinho, volto a fazer teatro em SP assim que me convidarem.

(03:34:06) Gerald Thomas: Ana Peluso, eu adorei trabalhar nessas condições, te dá uma adrenalina maravilhosa. Em nenhum momento eu fiquei descontente com o espetáculo, que está em pé e maravilhoso. às vezes na Alemanha este processo burocrático todo faz com que você mude de idéia, queira fazer outra coisa e não possa. Essa contradição, em que existem dois, três, quatro lados para tudo. O cavalo talvez não esteja tão preparado, mas a adrenalina e o chicote são tão fortes que ganha-se a corrida.

(03:34:44) celo: gerald,qual a tua opinião á respeito da tv? Qual programa você indicaria para o seu filho(caso tenha,se não tiver para um amigo) assistir?

(03:35:52) Gerald Thomas: Ana, os idiotas conservadores é que não entenderam. Se lerem o texto hoje que saiu no Jornal do Brasil, belíssima crítica de um psicanalista entendedor de Wagner, se lerem o texto que vai sair no Globo amanhã, pelas mãos do Cacá Diegues, que entendeu a minha proposta, enfim, explica tudo. Não pode ler esses idiotas como, essas coisas premeditadas, como Luiz Paulo Orta, Mario Henrique Simonsen. O NYT estabeleceu há 30 anos algo muito bom, quem cobre Broadway não faz críticas da off-off-Broadway. são três categorias de críticos.

(03:36:44) Gerald Thomas: No Rio de Janeiro, aquele balneário, só tem um tipo de crítico. A Bárbara Eleodora não gosta e todo mundo já sabe o que vai dizer. Ela vai odiar, odeia estar ali, os atores odeiam que ela esteja ali, o público não gosta do que ela escreve. É um exercício de redundância.

(03:38:48) Gerald Thomas: O crítica do NYT, Walter Kerr, fez uma ótima e humilde despedida, há uns vinte anos atrás, quando ele percebeu que tinha errado e errado profundamente. Ele meteu o pau em Esperando GOdott quando estreou em 53 nos EUA. E disse, na década de 70, "esperando godot é o maior espetáculo que eu já vi e não entendo como não percebi isso na época, e não devo ter entendido outras várias peças e peço desculpas por ter arruinado carreiras e desorientado o público". Eu adoriaria que muitos críticos brasileiros tivessem a mesma humildade.

(03:39:31) paulo: olá, gerald, ainda te espanta em 2003 que um possível baixar de calças suas no teatro municipal cause frisson?

(03:40:58) Gerald Thomas: celo, eu adoro a Marília Gabriela, me orgulho muito de tê-la introduzido ao teatro, mas eu não moro no Brasil, estou muito por fora da TV brasileira. Tenho um vício terrível, que é a CNN, fico quase que 24 ligados nela para saber o que está acontecendo. O Paulo Henrique Amorim acabou de me contar da morte do embaixador brasileiro da ONU no Iraque, o que estou chocado, e ainda estou chocado com a morte do Haroldo de Campos.

(03:41:14) ana: vc se sentiu mais preso a conceitos ao fazer a ópera do que quando monta suas peças teatrais? Porque me parece que a linguagem de uma ópera te impõe mais limites...

(03:41:44) Gerald Thomas: celo, eu não recomendo televisão, mas sim reportagem.

(03:43:24) Gerald Thomas: paulo, mas é claro né gente, teatro é feito de brincadeira. Zé Celso Martinez faz isso o tempo todo... o teatro é conhecido por ter nudez, os gregos botavam nudez em palco, os romanos, o que que é isso. Parece que agora eu estou sendo processado por um policial lá no Rio que quer se promover às minhas custas. Estou indiciando este cara de volta por maus costumes. É chocante que no Rio de Janeiro tenha uma imbecilidade dessas.

(03:44:08) Ana Peluso: Em cima dessa tua colocação dos críticos da Brodway, não fica bastante claro que tudo é meio manipulado? Então não estaria na hora da própria arte denunciar a arte "corrupta" que existe? Enfim, quando teremos um caminho livre de deformações na informação??

(03:46:16) Gerald Thomas: ana, nenhum limite. montei tristão e isolda na república de Weimar, na terra da Bauhaus, terra da revolução modernista alemão - verdadeira - (Brasil, Eua e Alemanha fizeram). Eu não tenho limite para nada, não me vejo limitado por absolutamente coisíssima nenhuma, nada me impõe limites. Me sinto como um artista livre, não vejo tabu em ópera, fiz 19 óperas, 3 no Brasil, e arte é arte. Jackson Pollock e uma ópera, para mim, são a mesma coisa. Teatro é minha desculpa para fazer arte. Assim como Philipp Glass e Jackson Pollock.

(03:47:41) atriz_rj: boa tarde, gerald!!! acabo de chegar, e andei lendo mto sobre vc ....vc sempr foi mto polemico, e as xvezes faz de certos acontecimentos, como 11 de setembro um meio de estar na mídia....gostaria de saber sua opnião a respeito de pessoas q vivem dizendo q vc só gosta de aparecer...

(03:48:47) Gerald Thomas: Ana, não acho nada manipulado não. o artista faz a sua obra. o crítico vai e faz a sua crítica. eu conheço dois críticos, respeito o Sérgio Coelho aqui da Folha e, fora isso, o resto eu não tenho contato ou respeito. Tem de ser muito honesto quando gosta-se e não gosta-se. O Sérgio viu a montagem de Deus Ex-Machina e achou que a versão brasileira (encnada nos Eua e na Dinamarca) a pior. Tem de ser honesto - e o que há de manipulação nisso? Nada.

(03:49:43) Gerald Thomas: atriz_rj, querida, adoro aparecer. estou aparecendo agora exatamente por isso.

(03:49:53) Ana Peluso: Você não acha que o Brasil está pouco preparado para ver uma fusão como a que vc fez no espetáculo (de Freud com Wagner) e que isso, mal compreendido, tenha gerado as vais que vc recebeu?
(03:55:46) Johannes: Gerald, pq a escolha de Tristão e Isolda, embora haja óperas mais expressivas, como Lohengrin, ou Mestres Cantores de nuremberg, do ponto de vista musical?

(03:57:51) Gerald Thomas: Ana, o Brasil está preparado para tudo, prova disso é Haroldo de Campos e a Semana de 22, e o Tropicalismo, e o Cinema Novo, Gláuber Rocha, Nelson Rodrigues, que no mesmo teatro levou brócolis na cara em 1947 na montagem de Vestido de Noiva. A TFP, a porcaria deste conservadorismo, que botou fogo no TUCA, que quebrou a estátua de Garcia Llorca na avenida 9 de julho. O Brasil poderia ser um país extremamente modernista, que tem seres pensantes, Burle Max, Wally Salomão, Niemeyer, Hélio Oiticica, Décio Pignataria, lindos criadores... e ao mesmo tempo tem o lado retrógrado. O Brasil não tem compromisso histórico, não tem um Shakespeare (o mais irreverente), não tem um Dom João VI, um merda, que fugiu de Portugal. O Brasil não tem esse compromisso, é um ser antropofágico que vai, come e regurgita, caga, mija, digere tudo que se fabrica pelo mundo, e aí nasce um Macunaíma, que é maravilhoso. O Brasil está preparado para tudo se tiver boa vontade, e não mau humor. E com o governo Lula deveria estar mais explícito i

(04:00:15) Gerald Thomas: Johannes, Lohengrin não é mais expressiva que Tristão e Isolda, que foi escrita por encomenda por Dom Pedro II, pago por um rico que morava em Dresden para estrear no Teatro Municipal em 1808, e a obra só chegou em 1863. Mas não sei quem afirmou que essas obras são mais expressivas que Tristão e Isolda. Lohengrin é uma das obras mais inexpressivas da obra de Wagner. E eu fui convidado por Helena Severo para montar Tristão e Isolda, para consertar esta falha histórica, uma montagem original, brasileira, com 90 e poucos anos de reparo. Antes falho do que tardo.

(04:01:15) Gerald Thomas: Milhões de obrigados a vocês e espero que a UOL coloque a minha entrevista com o brilhantíssimo Haroldo de Campos no ar e quero voltar a dizer que o Gerald.UOL voltará com força total a daqui duas semanas, quando terei tempo de cuidar dele direito. Adoro esta UOL, sou parte de vocês, parte daqui, me considero da casa, sou da casa e beijo para todos vocês.

(04:02:05) Moderador: O Bate-papo UOL agradece a presença de Gerald Thomas. Boa tarde a todos