BATE-PAPO COM GERALD THOMAS
O diretor teatral Gerald Thomas veio ao Bate-papo comentar a reestréia da peça que dirige, "Um Circo de Rins e Fígados". No espetáculo, Marco Nanini interpreta ele mesmo, que tenta desvendar o mistério de inúmeras caixas com documentos secretos que começa a receber. O espetáculo voltou a São Paulo para curta temporada no Sesc Vila Mariana.
Participaram do Bate-papo 300 pessoas
Este-bate-papo ocorreu em 01/11/2005, às 19h00
ÍNTEGRA
O texto abaixo reproduz exatamente a maneira como os participantes digitaram suas perguntas e respostas
(06:06:58) Gerald Thomas: Olá gente, estou aqui no UOL. estou aqui desde o inicio, desde que foi fundado. o Luis Frias me dizia em 1996 que em dois anos ninguém mais teria papel-jornal, só o seu computador. e eu dizia: "po, mas o que eu vou levar pro banheiro?". ainda bem que o jornal ainda existe, e os dois incompativeis.
(06:06:58) Gustav: Gerald, parabéns pelo trabalho. Admiro demais suas peças. Queria saber como está a recepção de público e crítica desta peça que reestréia em SP.
(06:10:45) Gerald Thomas: Gustav, a critica é uma loucura. fui ver de verdade o que é uma critica quando estreamos em Cordoba, na Argentina, nosso rival. o espetaculo termina com o Hino Nacional Brasileiro orquestrado pelo Ivo Meirelles, mestre da Mangueira. ele veste a bandeira como um parangolé do Hélio Oiticica. O calligaris e o sergio salva escreveram textos ótimos na folha, até a barbara falou muito bem no globo. e na argentina decidimos mesclar as bandeiras, colocar a argentina em cima da brasileira. e mesclamos os hinos tb. o publico veio abaixo. o teatro ainda tem esse poder maravilhoso de unir os povos, enquanto todas as outras modalidades sociais tem o poder de dividir: o esporte, a economia... o teatro traz essa comunihão. la nación, clarin e la voz estamparam isso em alta e clara voz. foi unanimidade. tá tudo no meu blog.
(06:10:51) Waldir: o que vc caha de ser tão polemico? gosta disso ou é seu jeito mesmo de ser?
(06:13:24) Gerald Thomas: Waldir, polemica ñão existe, eu nao aguento mais esse termo. isso vem de um jornalismo preguiçoso. eu simplesmente falo que penso. quem faz isso numa sociedade hipocrita vira automaticamente "polemico". como tudo hj em dia é fachada, modelos e galãs que não tem nada a dizer, burros e imbecis. entao quem tem o que dizer vira polemico. então eu soletro polemiCU, que eu acho que é quase tupi-guarani :)
(06:13:24) Gustav: Gerald, acompanhei pela FOLHA seus relatos sobre 11 de setembro. Já pensou em transformar isso em espetáculo?? Você acha que o "Grande Atentado do Século" afetará seu trabalho, sua maneira de pensar?
(06:16:56) Gerald Thomas: GUstav, afetou, mas já estou medicado com Topamax e Rivotril. no "Circo de Rins e Figados" tem citações de 11 de setembro o tempo todo. o personagem João Paradeiro é preso no 11 de setembroo de 2001. fiz um espetaculo em NY com a Fabiana Guglielmetti chamado "Anchor Pectoris ou United States of Mind" que estreou no La Mamma, que era sobre a invasão do Iraque e a amizade maluca do Blair e do Bush, o documento forjado pelo braço direito do Blair e pela Condolezza Rice, que faz com que o congresso votasse a favor da invasão do iraque. tudo isso é ligado à queda das torres, que eu vi da janela do meu apartamento. mas não acho que eu vá fazer um espetaculo só sobre isso. vou rodar um filme em 2007 chamado "looking for denial" (procurando por uma negação), que tem muito a ver com a historia dos 340 bombeiros que subiram em direção ao WTC ao invés de sair correndo.
(06:17:16) Oaxiac Odéz: Que vc tem a dizer aos críticos que detonam suas peças com suas críticas nada construtivas?
(06:18:41) Gerald Thomas: Oaxiac Odéz, isso aqui. nada a dizer. mas eles tem todo o direito à opinião deles, como eu tenho direito de montar meus espetaculos. mas minhas peças ficam na historia, e a critica deles desaparece. eles são muito provincianos. eu atuo em 12 países do mundo, então podem falar o que quiserem. eu sempre me xilarei em algum país.
(06:18:43) Torcida_Jovem_Pont: Gerald,Oq fla a sua peça?
(06:21:21) Gerald Thomas: Torcida, eu não aguento fazer resumo de peça. de novo, vá ao blog, leia as criticas, estão todas lá. como elas são descritivas, vc vai enteder. e depois dá tempo de vc voltar aqui, ainda temos 40 minutos :)
(06:21:27) Gustav: Gerald, "Rins e Fígadas" é uma das coisas mais sensacionais que eu já vi no teatro. Então, pergunto, como é o seu processo de criação. Para você, escrever uma peça é mais transpiração ou inspiração??
(06:28:08) Gerald Thomas: Gustav, essa peça especificamente foi louca, pq eu estava em uma depressão terrível. o "anchor pectors" tinha saído de cartaz em ny, e eu moro em um prédio que fica dentro d'água. queria pular e me jogar na água. queria me matar, mas antes disso pensei que faltava escrever uma peça pro marco nanini :) nos encontramos em são paulo e ficamos nos devendo uma peça. prometi pra ele uma página e meia com um esboço, enviei por e-mail e ele adorou. mandei o segundo capitulo e ele adorou tb. no final, eu tinha 20 capitulos que formavam a peça. às vezes eu ouço a peça e me pergunto de onde veio tal idéia. como o dialogo do nanini com o jean genet sobre omelete, não sei de onde veio. "e aí, genet, quantos anos vc pegou desta vez?". o genet, pederasta que era, já entenderia "ânus". lembro que eu tava morrendo de rir, mas não me lembro de onde veio. estava lendo "bloco de gelo em chamas", a peça que estréio em janeiro com o luiz damasceno. tem um pedaço de carne enorme, e a policia pega a carne. o personagem diz: "mas ess
(06:28:08) italo: aquele episodio do rio de janeiro em que vc abaixou as calças para a plateia ainda tem alguma repercusão negativa para vc?
(06:29:32) Gerald Thomas: italo, nunca teve. ao contrario, me rendeu uma capa do "new york times". a unica coisa negativa foi o que pesou na minha conta, pq tive que pagar advogados. e pegou mal pro governo garotinho pelo processo que puseram contra mim. eu estava dentro de um teatro, podia fazer o que quisesse.
(06:29:38) Torcida_Jovem_Pont: Gerald,Qual é sua formação?
(06:33:34) Gerald Thomas: Torcida, estudei na Biblioteca do Museu Britânico em Londres. Formei-me em filosofia e literatura. eu tinha um tutor, Ronald Hayman, que era autor de biografias de Beckett e Kafka. fui pra londres aos 16 anos, era muito autodidata tb. foi nessa biblioteca que Marx escreveu "o capital". mas eu ganhava a vida dirigindo ambulancia, provando café na Bolsa de Café em Londres. eu tinha vindo de uma barra pesada de prostituição em Nova York, e tava abrindo uma fase mais clean em Londres. passava muito tempo sentado lendo Descartes, Hegel, Kant, até a carta do Pero Vaz de Caminha, colocando a vida em ordem. era uma leitura aleatória. e o ILEA (Inner London Education Authority) exigia dos jovens aquela época algum tipo de educação, por isso eu tinha um tutor. eu era casado com uma bailarina chamada Jill Drower.
(06:34:01) Moderador UOL:
Marcelo Favalli / UOL

O diretor da peça "Um Circo de Rins e Fígados", Gerald Thomas, conversa com os internautas sobre o espetáculo
(06:34:08) italo: gerald sou um grande fã seu e gostaria de saber quando vc vai estar aqui no amazonas?
(06:35:18) Gerald Thomas: italo, o produtor da peça me falou que tinha um convite de um produtor local para nos apresentarmos no teatro amazonas. e tb pro teatro da paz, em belém. então devemos estar aí em breve, no inicio de 2006. ficamos em são paulo até 11/12.
(06:35:24) marcello: o que é mais dificil numa peça teatral produzi ou dirigi?
(06:38:17) Gerald Thomas: marcello, eu nunca produzi. como diretor, temos todas as dificuldades. com os atores há um conflito de egos, e tem o meu tb. é um microcosmo de um universo em conflito, como as estrelas em constante combustão, o buraco negro, a antimatéria, os cometas com seus rabos, asteróides batendo e quebrando tudo, todo mundo em crise, resolve a crise naquele dia mas acorda com outra no dia seguinte. o ator tem que capturar a luz do refletor e devolve-la para a platéia. o diretor faz o papel de Deus. e eu sou autor-diretor, tenho que criar os personagens, conduzir as cenas entre caos e harmonia. mesmo que tudo pareça harmonia, eu pingo ali uma gota de caos para não haver inercia.
(06:38:28) Hélio: vc acha que as empresas estão colaborando mais, em relação a incentivos financeiros?
(06:42:31) Gerald Thomas: Hélio, acabou o patrocinio. hj existe só o danilo santos de miranda do sesc-sp. porque o giberto gil assassinou o teatro. publiquei um artigo na folha no dia 04/10/2004. tanto o bush quanto o gil odeiam o teatro. o gil, como pessoa inteligente que é, já deveria ter revisto todas as leis de incentivo à cultura, não fez isso pq está sempre fazendo shows pelo mundo, cobrando uma fortuna de ingresso. qd não está fazendo isso, tpa viajando com o lula e apertando a mão do kofi annan, nelson mandela etc. não despacha em brasilia nem cria novos projetos. ele devia ser nomeado como representante da cultura brasileira. mas ministro ele não é. pra mim, ministro é o danilo santos de miranda, e não tem outro.
(06:42:34) Carvalhares: Vc acha que o atual governo melhorou ou piorou o incentivo à cultura?:
(06:43:04) Gerald Thomas: Carvalhares, vc está em NY?
(06:46:00) Gerald Thomas: Carvalhares, simplesmente acabou com o incentivo à cultura. só incentivaram os proprios bolsos. eu não ia com a cara do Weffort na época do FHC, mas eu aprovava um projeto em no máximo um mês! esse escandalo do lula é pior que da época do Fernando Collor! quando tinha coluna em jornal, comprei uma briga com o augusto boal a favor do gilberto gil. nunca me arrependi tanto. os unicos que tiram algum beneficio são a panelinha de amigos. FHC era um intelectual, e como tal sabia administrar democraticamente o seu governo. pode ter errado, mas não posso nem começar a descrever a diferença entre ele e Lula na cultura. é uma diferença entre um balde de água quente e fria, de 100ºC a 0ºc.
(06:46:00) Moderador UOL:
Marcelo Favalli / UOL

Gerald Thomas, diretor da peça "Um Circo de Rins e Fígados", comenta com os internautas sobre o espetáculo, em cartaz em São Paulo.
(06:46:00) Professor Jaú/SP: Gerald, o que você acha das produções das novelas atuais qua ultimamente estão explorando casos como hossexualidade, relações entre pessoas de idade diferentes?
(06:47:29) Gerald Thomas: Professor, desculpa, mas eu não tenho saco para ver novela. é me pedir demais... eu vejo só a CNN e a Globonews pra ver noticias no mundo. e leio o sergio davila, que é um dos melhores reporteres que eu conheço.
(06:47:29) Carvalhares: Foi mesmo um grande achado dirigir o Marco Nanini. Tem alguma estória engraçada dele pra nos contar?
(06:48:59) Gerald Thomas: Carvalhares, ele é hilariante. ele entra em depressão antes da peça, quer que comece logo. todo dia ele fala: "vamos começar pelo final?". e eu digo: "vc tá louco?". o nanini inclusive é um ótimo diretor, todas as sugestões de corte que ele fez foram aceitas. às vezes ele pergunta se a casa tá lotada, e diz: "então não vou fazer..." é tudo uma brincadeira.
(06:49:03) marcello: o que peça um circo de rins .essa seria alguma critica a sociedade no contexto geral?
(06:52:13) Gerald Thomas: marcello, ela é uma critica aos reality shows, o personagem fica famoso por sodomizar cadaveres e triplicam os convites pra TV. ele vai ao programa do bebê, que é uma satira do Programa do Jô, mas ele ficou emputecido com a brincadeira. tem criticas internas do Brasil, externas, acho que eu capto o momento universal. mas basicamente essa coisa da celebridade instantanea pelo pior que o ser humano tem. nos eua, em programas como o "survivor", vc ganha o premio se comer o maior numero de minhocas, por exemplo. logo vamos ter uma morte ao vivo, dedo por dedo, por exemplo.
(06:52:19) Teatro: Gerald Thomas, gostaria que me respondesse de uma maneira bem sintética: - Por quê é que você como artista de teatro é tão comum, a ponto de não querer ser um Adepto do teatro?????
(06:54:31) Gerald Thomas: teatro, eu não tenho tempo para ir ao teatro. e ao mesmo tempo não tenho nenhum pacto com o teatro. tenho mais com a musica, a pintura. eu uso o teatro como um meio de expressão, mas nao quer dizer que eu tenha que fazer parte dos grupos de teatro. não tenho que me afiliar a grupos tetrais. faço teatro muito bem, sei disso, mas não preciso sair por aí vendo teatro. me interesso mais por ciencia e outras coisas. não tenho paciência de ir ver uma peça e descobrir um show de horrores e erros, atores projetando a voz...
(06:54:37) Moderador UOL:
Marcelo Favalli / UOL

Gerald Thomas, diretor da peça "Um Circo de Rins e Fígados", fala do espetáculo, em cartaz em São Paulo.
(06:54:37) Gui: O que vc acha escencial para que uma peça faça tanto sucesso assim como essa sua?
(06:56:02) Gerald Thomas: Gui, ela tem que ser uma peça boa. tem que ter dinamica, deve ter acompanhado a evolução dos tempos e falar a linguagem universal, ser reconhecida no mundo inteiro como sendo teatro, seja na croacia, na bulgaria, russia, china... o espectador deve reconhecer a bicicleta, o automovel, a arvore. mas o que me remete ao passado não quero saber. o que remete ao presente e ao futuro, sim.
(06:56:08) Flavinha: Na sua opinião,por que a maioria das pessoas só se enteressam por peças que tem artistas?
(06:58:43) Gerald Thomas: Flavinha, porque há a vaidade, e as pessoas estão cada vez mais emburrecidas. a internet virou umas páginas amarelas, e o celular tb emburreceu, as pessoas ficam jogando joguinhos... o mundo consome cada vez mais drogas, no mundo da discoteca, da musica eletronica. não sobra muito neuronio, só uma TV que, como dizia o Jaguar, é uma maquina de fazer doido. cria-se o big brother do george orwell, seres que se arrastam controlados por um Guia Padrão, que são essas celebridades vazias, idiotas e burras. O jogo fica 1 x 1: imbecis falando imbecilidades para outros imbecis.
(06:58:43) Gui: vc acha que a sociedade brasileira perdeu o costume de ir ao teatro ou o interesse pela cultura esta ficando cada vez mais escasso?
(07:01:43) Gerald Thomas: Gui, em sp não se perdeu, cresceu até. sp é uma puta capital, maravilhosa. e o sesc tem uma participação enorme nisso. mas tenho que recortar sp do brasil, o resto do país não é assim. buenos aires tem uma vida cultural intensa, mas as peças são caretésimas. o brasil tem forte tradição de teatro experimental, com zé celso, antunes, tó araujo, michel mehlamed... a palavra "teatro experimental" não afugenta publico, mas atrai. já teve o boi voador, gabriel vilella, o felipe hirsch...
(07:02:49) Edu Falaschi: E aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii....
(07:03:01) Gerald Thomas: Quem mora em sp está intimidado a ver o "circo de Rins e Fígados", sex e sab às 21h, dom às 18h no sesc vila mariana. faço uma participaçãozinha especial, não neste fim-de-semana que estou viajando, mas a partir do próximo. Um beijo a todo mundo, obrigado pela audiência e pela participação!
(07:03:01) Moderador UOL: O Bate-papo UOL agradece a presença de Gerald Thomas e a participação de todos os internautas. Até o próximo!