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NxW
O diretor Gerald Thomas no palco do Sesc Ipiranga: wagnernite aguda curada
com uma boa dose de Nietzsche, composições de um desconhecido autor croata
e crítica à fragmentação moderna iniciada com "Tristão e Isolda"
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NIETZSCHE ENFRENTA WAGNER NA ÓPERA SECA
No gênero lírico que inventou, o diretor Gerald Thomas joga o filósofo contra o compositor.
Antonio Gonçalves Filho*
As Isoldas de Thomas: desespero mudo acompanhado pela música de Krzisnik
e Arrigo num espetáculo que incorpora a neurose afásica do mundo fashion
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Desde que o conde Gobineau escreveu seu ensaio racista sobre a degeneração da espécie humana, a Alemanha e o mundo nunca mais foram os mesmos. Gobineau era amigo de Wagner, que era amigo de Nietzsche, que se tornou inimigo do compositor. Wagner escreveu panfletos anti-semitas. Nietzsche, a despeito de rejeitar o nacionalismo alemão e o racismo biológico, foi incorporado pelos nazistas, como Wagner. Agora os dois estão de volta numa "ópera seca", ou seja, sem árias ou recitativos: "N x W" (ou "Nietzsche versus Wagner"), dirigida pelo polêmico Gerald Thomas. Com ou sem piquete na por-ta do teatro, ela estréia no dia 20, no Sesc Ipiranga, prometendo barulho (ainda que mais discreto) como o da estréia da montagem de "Tristão e Isolda" em Weimar, há quatro anos.
"N x W" adota, aliás, o mesmo ponto de partida, a ópera de Wagner que Thomas dirigiu na .Alemanha e provocou reações apaixonadas da comunidade judaica. Gerald Thomas é judeu. Wagner foi banido durante anos em Israel, não só porque era o compositor favorito de Hitler, mas por seu anti-semitismo militante, a ponto de incluir na ópera "Parsifal" uma personagem judia, Kundry, que tenta corromper o ingênuo herói em busca da redenção cristã.
Nietzsche achava "Parsifal" uma bobagem. Considerava os cristãos escravos da moral, fracos como os socialistas. Propôs como alternativa a figura de Zaratustra, que anunciava o super-homem do futuro, livre de crenças e superstições. Hitler achou que era ele o representante do "Herrenmensch", do super-homem capaz de manipular ás massas com histórias de pureza racial e uniformização cultural.
Hoje, perto do novo fascismo transcultural e transnacional do mundo globalizado, Hitler e Mussolini são pintos. É justamente sobre isso o que fala a ópera "NxW", "aggiornamento" de "Tristão e Isolda" ambientado no mundo fashion. O Tristão de Gerald Thomas não é mais o sobrinho do rei Marcos, que se apaixo-na pela Isolda prometida ao tio, formando o triângulo agonizante da ópera wagneriana. Ele é um prisioneiro de Auschwitz denunciado pelo promotor Nietzsche, cujo centenário de morte cai em agosto, quando termina a temporada da ópera.
Thomas joga o filósofo contra o compositor, partindo do prelúdio de "Tristão e Isolda" para mostrar que o marco zero musical do mundo moderno, fruto da fragmentação, pode ser identificado com a expansão da tonalidade provocada pelo uso de harmonias cromáticas na ópera, que tanta influência exerceu sobre músicos como Schoenberg.
Como nas óperas de Wagner, "NxW" é uma combinação de leitmotifs desenvolvidos durante o espetáculo. No palco, o barítono Paulo Szot lidera um elenco formado por beldades como Ludmila Rosa (apresentadora do "MTV Erótica") e Camila Morgado, além de outros oito integrantes da Companhia de Ópera Seca, todos munidos de instrumentos de percussão para servir de contraponto ao clássico quarteto de cordas que interpreta as obras do compositor croata Borut Krzisnik. Ele e Arrigo Barnabé assinam a ópera, que tem figurinos de Walter Rodrigues, uma das eternas estrelas do Morumbi Fashion. Rodrigues criou os modelitos que as três Isoldas de Thomas desfilam no palco (ou passarela).
A música de Borut Krzisnik é uma colagem intrigante com ecos de Penderecki, Henze e Piazzolla. Ou seja, de bom tamanho para um espetáculo que pretende traduzir a fragmentação do mundo moderno duchampiano. Thomas descobriu Krzisnik por acaso. Ele era carpinteiro na montagem de "Tristão e Isolda" dirigida por ele em Weimar. "Certo dia, Borut chegou timidamente para mim e pediu para mostrar suas composições", conta. "Fiquei deslumbrado", lembra o diretor, ele mesmo baterista da escola de samba Mangueira desde os 13 anos e melômano que já teve como parceiros Philip Glass e Luciano Berio.
A matriz da ópera, contudo, é o "liebestod" de "Tristão e Isoldá", que Thomas identifica como a fe-rida não cicatrizada da modernidade, o primeiro arranhão dissonante na história da música. Ela acompanha uma cena de açoitamento, que tanto pode ser a de Tristão como uma representação do colapso nervoso de Nietzsche, em 1889, abraçado a um cavalo açoitado em Turim, crise que o levou a um asilo.
"A dissonância de Wagner trouxe graves conseqüências para o mundo moderno", analisa Thomas, que sofre de wagnerite aguda desde que o pai fez o pequeno ouvir pela primeira vez o ciclo "O Anel dos Nibelungos", tetralogia em que Wagner conta a danação da humanidade por ter se comparado aos deuses. Mas o diretor adverte: faz parte do Wagner Forum de Viena e é da ala progressista. Ou seja, não alinhada com os descendentes na-zistas de Wagner.
O "vírus Wagner", lembra Thomas, entrou em seus ouvidos por meio de uma gravação de Furtwängler, grande regente que continuou sua carreira sob Hitler e é visto hoje como um clone do Mephisto de Klaus Mann. Ou seja, alguém que lavou as mãos do sangue judeu derramado na Alemanha nazista. Thomas, como Furtwängler, sempre achou Wagner o máximo, mas não esquece por um segundo sua origem semita. "Nós, judeus, temos a tendência de expor a sociedade, porque estamos e ao mesmo tempo não estamos dentro dela", diz, fumando um Gitanes.
Como ninguém toma partido no mundo globalizado, povoado por ideologias travestidas, Thomas achou que estava na hora de alguém ressuscitar, no centenário de morte de Nietzsche, a polêmica que envolveu os dois ex-amigos. O mais controvertido dos compositores eruditos, o adúltero, anti-semita e megalo-maníaco Wagner encontrou em Nietzsche primeiro um aliado e, depois, seu mais ferrenho opositor. Wagner escreveu uma ópera, "Parsifal", que traduz sua crença na redenção humana pelo sangue de Cristo. Nietzsche dedicou parte de seus dias ao estudo do cristianismo, concluindo (em "O Nascimento da Tragédia"), que ele (o cristianismo), desde o seu início, esteve identificado com a náusea e o desgosto existencial, "maquiado" pela crença numa vida melhor.
Mas, como provou a história, nem mesmo Nietzsche pode apagar a idéia de Deus. A própria identidade nacional e étnica judaica liga-se à crença que o santuário vazio simboliza, como já observou o crítico A. N. Wilson. Por acaso, o palco da ópera "NxW" não tem cenários. Tristão e Isolda são só modelos nesse vazio mundo fashion, perseguidos por uma luz estranha e ofuscante que vem do fundo do palco.
* (Eu& - Cultura - Segunda-feira, 10 de julho de 2000)
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