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GERALD THOMAS VOLTA EM DOIS ESPETÁCULOS

Gustavo Fioratti*


Elenco do espetáculo "N x W", que apresenta o confronto entre as visões de Nietzsche e Wagner

Duas peças de Gerald Thomas entram em cartaz nesta semana em São Paulo: a inédita "N x W" estréia hoje no Sesc Ipiranga e "Ventriloquist" volta na segunda-feira no teatro São Pedro.

A nova montagem de Thomas é baseada em protestos do filósofo Friedrich Nietzsche contra o músico Richard Wagner e seu estilo romântico. "De Wagner, a peça tem a estrofe mais patética de "Tristão e Isolda", além do espírito que envolve o artista. De Nietzsche, há toda a rebeldia contra isso", afirma Thomas.

A divergência pode ser lida como um confronto de duas ideologias, uma conivente com uma arte preocupada sobretudo em agradar o público, outra comprometida com o conceito de arte pura, despreocupada com a aceitação popular. "Percebi que esta briga acabou influenciando toda a cultura do século 20, das mais diversas formas possíveis", conclui Thomas. O diretor também destaca as assinaturas de Arrigo Barnabé e Borut Krzisnik na composição musical do espetáculo, além da última ária de Isolda na voz de um cantor, o barítono Paulo Szot.

"Ventriloquist" volta ao cartaz depois das apresentações no final do ano passado. A peça é inspirada na ópera "Moisés e Arão", de Schoenberg.

* (Folha de São Paulo - Guia da Folha - Ano 3 - Nº 175 - De 21 de Julho de 2000.)

ÓPERA LEVA GERALD THOMAS AO INSTINTO

Atores urram em "N x W", que estréia hoje em São Paulo e cita Nietzsche e Wagner para criticar modernidade

Valmir Santos*


Atores da Cia. Ópera Seca em cena de "N x W", espetáculo de Gerald Thomas que estréia em SP

Urra-se muito em uma das cenas de "N x W", Nietzsche versus Wagner. Apesar de ser uma "pocket opera" (ópera econômica, de menor porte, sem orquestra no fosso, por exemplo), os atores não possuem técnica de canto lírico e berram à vontade durante cerca de cinco minutos. Essa passagem diz muito sobre a nova montagem de Gerald Thomas, que estréia hoje em São Paulo.

O encenador afirma que é seu trabalho mais instintivo, sem compromisso com grandes teses. Associa ao título pilares da cultura ocidental, o filósofo Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900), cujo centenário de morte é lembrado este ano, e o compositor Richard Wagner (1813-1883), ambos alemães, mas nem por isso vai a fundo no seu legado intelectual.

Tampouco transforma os dois em personagens ou se concentra na relação que transitou da mútua admiração à ruptura ideológica. Nietzsche, que via em Wagner "um revolucionário do drama musical", ficou decepcionado por causa da sua inclinação ao pessimismo, influenciado pela filosofia de Schopenhauer (1788-1860).

"Nietzsche acusava Wagner de manipular, de ser um vírus que despertava emoções extremas, mas não percebeu que o compositor já embutia na ópera 'Tristão e Isolda' a nota atonal (dá predominância ao ritmo e emancipa a dissonância), que depois Schoenberg usaria para criar todo o vocabulário dodecafônico do século 20", diz Thomas, 45.

"N x W" colhe as faíscas desse atrito - "Brutus contra Júlio César, ironiza o diretor - para discutir os tempos que correm. "O espetáculo não traz a estrutura convencional de uma ópera, recitativa, mas tem a ver com o gênero dentro do que representa o universo moderno ou contemporâneo", afirma. "Tem a ver com a evasão dos valores críticos, como observou Nietzsche; com o mundo fashion e com o faz-de-conta-que-estou-feliz da mídia."

A questão anti-semita, esta sim, é explicitada. Mesmo morrendo décadas antes da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), Nietzsche e Wagner tiveram suas obras de certa forma apropriadas por ideólogos de Hitler.

Na verdade, "N x W" configura-se como um prolongamento da ópera "Tristão e Isolda", que Thomas montou no final de 1996, em Weimar, na Alemanha.

"Havia piquetes do lado de fora. Tanto os judeus quanto os simpatizantes do nazismo achavam que era ridículo um judeu dirigir Wagner", lembra o carioca filho de mãe inglesa e pai alemão.

O cenário de "N x W", concebido pelo próprio Thomas, prioriza os espaços vazios. Há uma pedra bruta num canto, um filó (tela transparente) subdividindo algumas cenas e uma presença marcante da luz, tudo para evocar uma espécie de prisão.

"O palco pode ser lido como um campo de refugiados que são forçados a acompanhar os tempos modernos na passarela", diz.

Compositor croata
Avesso a histórias lineares, Thomas cita em cena, como premissa, a lenda medieval de "Tristão e Isolda", uma tragédia sobre o amor imortal que foi transformada em ópera por Wagner.

Os refugiados são esses Tristãos e Isoldas que desfilam pelo palco. Os personagens surgem com mais ênfase na ária "Liebestod", o solo no qual Wagner traduz o momento em que Isolda toma Tristão nos braços, morto.

Aqui, o encenador provoca mais um estranhamento: troca a soprano (voz feminina mais aguda) da ária original por um barítono (voz média entre o tenor e o baixo). Paulo Szot, 31, não imaginava interpretar o solo de Isolda em sua carreira. "É uma proposta ousada e desafiadora", diz.

A música, claro, é vital em "N x W". São executados trechos da partitura original de Wagner, adaptados pelo pianista Marcelo de Jesus, além de composições criadas por Arrigo Barnabé e pelo croata Borut Krzisnik, que conheceu Thomas em 1999, durante a participação de "Nowhere Man" no Festival Internacional de Teatro de Zagreb, na Croácia.

Em entrevista à Folha, por e-mail, Krzisnik afirma que, ao ver a peça de 'Thomas sem som, "ouviu música". "Finalmente, poderei 'ver' com o que minha música se parece", afirma Krzisnik, 39. Ele acompanhará a estréia em SP.

"Esse cara vai enterrar muita gente, e olha que já trabalhei com o compositor norte-americano Philip Glass", compara Thomas. Antes, porém, ele conheceu o talento de Krzisnik para a carpintaria de cenário em "Nowhere Man". De volta ao Brasil, surpreendeu-se com a qualidade do CD que o músico enviou com as composições para "N x W".

O figurino é do estilista Walter Rodrigues. O artista plástico Guto Lacaz assina os objetos de cena.

Thomas encenou 18 óperas, a maioria delas no exterior. A primeira, "O Navio Fantasma", montado no Rio em 1987, não por acaso era de Wagner. Quando encontra liberdade para driblar as estruturas rígidas do gênero com o qual batizou sua Cia. de Ópera Seca - como agora, no projeto Pocket Opera do Sesc Ipiranga -, ele diz "se expressar melhor como um compositor que dirige que como um dramaturgo que também dirige".

Companhia tem elenco estável desde 99
Em 15 anos de história, a Cia. de Ópera Seca abrigou elencos flutuantes. Houve primeiros-atores, como Luiz Damasceno e Bete Coelho. Mas raramente se configurou como grupo.

Desde o ano passado, porém, a Ópera Seca mudou de Estado e encontrou abrigo. Antes baseada em São Paulo, agora está no Rio e ocupa o Sesc Copacabana com a perspectiva de repertório.

Já montou "Ventriloquist" (inspirada em "Moisés e Arão", ópera de Schoenberg) e "Coro e Camarim - Uma Tragédia Rave". Hoje, o integrante mais antigo da companhia é Marcos Azevedo, que vem de montagens como "Unglauber" (1994). Muriel Matalon, 39, uma das Isoldas em "N x W", entrou em 1999. Acha positivo que os atores tenham se mudado para o Rio.

"Não se trata de uma família, Gerald não é um guru e temos discussões homéricas, mas é interessante perceber que criamos códigos, que não é preciso explicar o universo inteiro para um ator entender a sua dimensão artística. É um ganho imensurável", diz.

Ludmila Rosa, 28 ("Erótica MTV"), Fabiana Guglielinetti, 25, e Camila Morgado, 25, entraram também em "Ventriloquist" e são igualmente Isoldas agora. "O trabalho contínuo torna mais forte a relação e estabelece uma confiança fundamental para o teatro", diz Camila. "Gerald não trabalha com personagens, mas com personalidades fragmentadas em cena", afirma Ludmila. "Ele trabalha com tudo hipermarcado e, ao mesmo tempo, desenvolve um elemento caótico que dá vida a suas obras", completa Fabiana.

A curta temporada da Cia. de Ópera Seca em São Paulo inclui também a reestréia de "Ventriloquist", na próxima segunda-feira no teatro São Pedro, em horários alternativos.

É a chance de rever a montagem que retrata as "tribos" de uma festa rave, um fenômeno recente, e critica a hipocrisia social.


Trecho
A - Como parece fácil pra você desligar na minha cara!
B - Como parece fácil pra você entornar uma garrafa nessa goela só pra dormir e me evitar pro resto da noite.
A - Como parece fácil pra você me culpar por todos os teus problemas.
B - Como parece fácíl pra você dormir enquanto eu frito a noite inteira.
A - Como parece fácil pra você me acusar das coisas mais horrendas e sair andando.
B - Como parece fácil pra você me mandar embora.

(Cena do espetáculo "N x W")

* (Folha de São Paulo - Ilustrada - De 20 de Julho de 2000)

'N x W' ACABA EM VITÓRIA TRISTE DA MÚSICA SOBRE O DISCURSO

Fábio Cypriano*

Sobre o palco, duas rochas. Sólidas, perenes, imutáveis. Como o legado de Wagner e Nietzsche. Uma em cada canto do cenário. Elas estão unidas por uma corda. Frágil, discreta. Metáfora perfeita para o novo espetáculo de Gerald Thomas "N x W".

Ele é decepcionante para quem espera um julgamento final entre esses dois pilares da cultura ocidental - afinal, a disputa é anunciada já no nome da peça. Entretanto, é arrebatador para quem se liberta da necessidade de buscar significados imediatos e flui de mais um espetáculo repleto de imagens deslumbrantes.

A encenação está inserida na série Pocket Opera, que o Sesc organiza já há alguns anos, com o objetivo de utilizar a estrutura do gênero ópera, mas de maneira menos convencional. Proposta perfeita para Thomas.

No início, um pianista toca uma ária de Wagner. Ao seu lado, o barítono Paulo Szot. Expectativa. Ele vai cantar? Não. Entristecido, ele sai do palco. Entram os atores. Cada um com uma lanterna a iluminar um personagem que interpreta Wagner. Ao mesmo tempo, outro personagem (será Nietzsche?) puxa um fio com um barquinho. A pequena nave estará presente ao longo do espetáculo, como seu fio condutor. Para Thomas, é uma alegoria do próprio Wagner, "uma arca de Noé, onde estão contidos os segredos que o tempo apagou", diz no programa.

Outro fio condutor está na música. A partir de uma nota atonal de "Tristão e Isolda", Thomas mixa três compositores e cria um universo sinfônico. Ele junta Wagner, o croata Borut Krzisnik e Arrigo Barnabé em um perfeito diálogo a conduzir os atores durante o espetáculo. São quase esquetes, só que a encenação não é uma alegoria para a música, mas uma releitura para elas.

A participação dos atores da Cia. de Ópera Seca é integral, completa. Nenhum se destaca. Como notas na partitura de uma música, todos contribuem para o resultado final. O entrosamento é perfeito. A presença no palco é coreografada, muitas vezes transforma-se mesmo em dança.

Já o texto é acessório, a palavra tem papel secundário. Para um espetáculo sobre o conflito entre Wagner e Nietzsche, é como afir-mar que nessa batalha é a música que vence, os discursos tornaram-se vazios, sem significados. Um bom exemplo é a voz em "off' do rabino Henry Sobel, sobre a neutralidade da arte. Não é o que acredita Thomas. Seu espetáculo é também político, contra estereótipos, antiestético no sentido "fashion". E ao mesmo tempo uma ironia, afinal ele se utiliza do mundinho, com o ótimo figurino do estilista Walter Rodrigues.

Não por acaso há vários momentos em que os atores desfilam no palco. De maneira irônica, trata-se de outra crítica aos discursos vazios, no caso, a vaidade.

Essencialmente, "N x W" é um espetáculo triste, confesso na voz do próprio Thomas no fim da peça: "Encerro tristemente esse capítulo, eu amei Wagner". E o barítono volta ao palco e finalmente canta uma ária de Wagner, originalmente composta para uma soprano. Os atores beijam uma das rochas, como a se despedirem de um defunto, e apaga-se a luz. É a triste vitória da música sobre o discurso.

NxW
Concepção e Direção: Gerald Thomas
Com: Cia. de Ópera Seca (Amadeo Lamounier, Bruce Gomlevsky, Marcelo Boschar e outros)
Quando: de qui. a sáb, às21 h; dom., às 20h. Até 6/8
Onde: Sesc Ipiranga - teatro (r. Bom Pastor, 822, tel. 3340-2000)
Quanto: R$ 12
* (Folha de São Paulo - Folha Acontece - de 22 de Julho de 2000)