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BERRO SOBRE O FUTURO
Em 'N x W', o inquieto diretor Gerald Thomas vê a Humanidade daqui a dez anos

Rení Tognoni*

Cena de "N x W": histeria recorrente, num clima sombrio Na peça, todos os atores representam Tristão e todas as atrizes Isolda, ilustrando a constatação de Gerald da falta de individualidade

O compositor Richard Wagner (1813-1883) escreveu panfletos anti-semitas, era o compositor predileto de Hitler e foi acusado pelo filósofo Friedrich Nietzsche (1844-1900) de manipular e distorcer as emoções do povo alemão com a sua música. Esse embate ideológico, filosófico e até religioso entre o compositor e o filosofo é o ponto de partida do diretor Gerald Thomas para discutir a manipulação das massas na pocket ópera "N x W", que entra em cartaz dia 20 no Sesc Ipiranga em São Paulo, e chega ao Rio no dia 17 de agosto, no Sesc Copacabana. Gerald ressalta, no entanto, que não se trata de uma crítica aos tempos modernos, mas de uma sátira que aponta para o futuro próximo da Humanidade.

- Não estou fazendo crítica, estou berrando o futuro. Essa peça tem algo de futurista e estou mostrando como será daqui a dez anos. Não será muito legal, haverá uma catalepsia, um colapso do entendimento. As pessoas terão que berrar porque estarão sufocadas pelo monopólio da informação. Mas isso será interessante, porque os melhores movimentos de arte surgem daí - diz ele.

"N x W" é baseada no livro "Nietzsche contra Wagner - Dossiê de um psicólogo" (Cia. das Letras), escrito por Nietzsche. Nele, o filósofo define Wagner, anti-semita militante, como a ruína da música. Gerald, que é judeu, diz que a relação entre os dois representa a autofagia do século XX:

- Sou fascinado pelos dois porque estão diretamente ligados ao sistema que foi dar no Holocausto. Eu sou Nietzsche contra Wagner, minha geração é Nietzsche contra Wagner. Se levarmos ao extremo o que Nietzsche fala de Wagner, a solução foi Schoenberg (compositor judeu). A não-manipulação do públi-co, com o entendimento racional da arte foi trabalhada muito bem por Schoenberg. Ele é justamente o judeu do futuro da música e Wagner acusava o judaísmo de estar arruinando a música.

Em "N x W" a histeria é recorrente, em um ambiente que lembra, em muitos momentos, o clima sombrio e devastado do cult "Blade runner", de Ridley Scott. Os dez atores da Companhia de Ópera Seca são levados a constantes repetições de frases e gestos, com expressões de terror e neurose no rosto. O clima futurista é reforçado por uma instalação de Guto Lacaz, na qual uma espécie de cabine de comando é formada por metralhadora e câmera de vídeo. Nela, a atriz Fabiana Guglielmetti comanda, na segunda parte do espetáculo, uma nave carregada de prisioneiros que, segundo Gerald, também pode ser interpretada como um campo de concentração nazista.

O mundo fashion também é lembrado em "N x W", em um desfile em que Tristão e Isolda, personagens da lenda celta adaptada por Wagner na ópera "Tristão e Isolda", desfilam como modelos ao som de um blues. A voz em off de Gerald satiriza a apresentação: "Coitados, são tão magros e tão pálidos!".

Diretor praticamente aboliu o texto na peça
Segundo Gerald, todos os atores masculinos da companhia representam Tristão, em sua versão um prisioneiro de Auschwitz denunciado pelo promotor Nietzsche. Isolda, da mesma forma, é interpretada por todas as atrizes da peça, numa alusão à falta de individualidade e de originalidade atuais. - Todos são Tristão e Isolda porque nem isso existe de individualidade no mundo hoje. Tudo é mito comprável -diz o encenador.

Os Tristãos e Isoldas de Gerald, porém representam um desespero quase mudo em "N x W". O diretor praticamen-te aboliu o texto da pocket ópera, que traz apenas frases soltas:

- Não agüento mais texto em palco. Esta não é a linguagem universal do tea-tro ou da ópera. Mesmo um nativo alemão entende um quarto do que dizem numa ópera. Hoje a linguagem na Internet é fragmentada. Gosto do que está virando o mundo: um colapso de pílulas.

Apesar de totalmente conduzida pela bela trilha sonora composta pelo croata Borut Krzisnik, ex-carpinteiro de Gerald Thomas, e pelo brasileiro Arrigo Barnabé, "N x W" não é uma ópera comum. A música ao vivo é inserida apenas no final do espetáculo quando o barítono Paulo Szot canta um trecho de "Tristão e Isolda", de Wagner.

Depois de "N x W", Gerald quer montar uma peça em homenagem a Samuel Beckett, com textos do dramaturgo inéditos no palco. E, desta vez, não descartará a palavra. O encenador também diz não estar interessado em realizar tratados em suas peças, pois, afirma, atualmente "nada mais tem importância":

- Toda vez que coloco algo no palco me sinto na obrigação de explicar, mas não há nada. Estou dando um urro que não sei onde vai dar. O que faço na minha arte não é resultado do que acho que deveria ser ou em que direção a sociedade deveria ir. Eu quero é brincar.

GERALD THOMAS: "As pessoas terão que berrar porque estarão sufocadas pelo monopólio da informação."
*(O Globo - Segundo Caderno - De 14 de Julho de 2000)