 |
NxW
GERALD MERGULHA NIETZSCHE E WAGNER NO INFERNO FASHION
'NxW', montagem que fica até 5 de agosto no teatro do Sesc Ipiranga,
tem figurinos do estilista Walter Rodrigues.
Segundo Gerald Thomas, a peça foi pensada durante os desfiles do MorumbiFashion
Cynthia Garcia*
'N x W': "O mundo fashion é interpretado erroneamente, as pessoas
se tornam prisioneiras de um holocausto têxtil-imagético", diz Gerald Thomas
|
Passarela vermelha, cadeiras numeradas e backstage são o ponto de partida para o espetáculo N x W de Gerald Thomas.
"O mundo fashion é interpretado erroneamente à medida que as pessoas perdem a individualidade e se tornam prisioneiras de um holocausto têxtil-imagético que estilistas como Walter Rodrigues e Alexandre Herchcovitch debatem em suas divagações estéticas", explica o diretor, que convidou o estilista Walter Rodrigues, com quem já tem uma parceria de vários trabalhos, para criar os figurinos de seu novíssimo exercício cênico.
Para a peça, pensada no meio de "modelos no MorumbiFashion", segundo Thomas, Walter Rodrigues garimpou em brechós, criou e desconstruiu a roupa. "Acredito que o 'hábito faz o monge'. O ator precisa desses subterfúgios para enfatizar o personagem", afirma o estilista. O desfile inicial, com três atrizes, é um sinal da busca estética do estilista para sua coleção de inverno 2001. Uma recriação anos 70, com rufos elisabetanos, veste a atriz Camila Morgado, ruiva como a rainha Elizabeth I.
O figurino de Muriel Matalon foi construído a partir de várias saias pretas, numa alusão aos primeiros modelos criados pela estilista japonesa Rei Kawakubo em seu primeiro desfile realizado em Paris, nos idos de 1982.
A atriz Ludmila Rosa exibe um mantô boule anos 60, desconstruído de um tailleur estilo Chanel, e botas pretas sado-masô. Durante o desfile, o público exercita o voyerismo conforme peças superpostas vão se desgarrando das atrizes, até chegar-se à fluidez longilínea do jersey.
Crítica neurótica
Outro ponto alto do espetáculo é a "crítica de moda" neurótica, vestida de paetês, interpretada por Fabiana Guglielmetti. E como não poderia faltar numa peça em que o filósofo Friedrich Nietzsche é um dos protagonistas, o super-homem entra em cena. Mas o super-homem de Gerad Thomas surge transmutado em uma refugiada. E ele/ela metamorfoseia-se em Batman, dúbio e sombrio personagem da HQ.
Marcello Bosschar interpreta um Wagner de brechó desenhado pelo romantismo, em que se contrapõe a neurose do visual-Nine-Inch-Nails, enfatizado pelo visagismo do hair/make-up stylist Carlos Carrasco. O Einstein dark e bufão de Bruce Gomlevsky, estereótipo do nerd, "fala" a partir de uma camiseta-fantoche.
Os três alunos, que parecem saídos do britânico colégio St. Paul, materializam a ingenuidade utópica (será que é isso?)... E a magnífica interpretação de uma ária pelo tenor polonês Paulo Szot, de casaca e calça Auschwitz, destaca o projeto polêmico de Thomas visualizado por Rodrigues, onde todos, quase sempre, estão de preto, a nülista não-cor fashion.
A viagem criada por Thomas em NxW tem raiz histórica, e remete ao conflito que opôs o filósofo Friedrich Nietzche e o músico Richard Wagner. Depois de admirá-lo por longo tempo, usando sua arte como trampolim para o ensaio Da Origem da Tragédia, Nietzche passou a opor-se à obra do músico depois da morte deste. Os textos que escreveu a respeito de Wagner serviram de inspiração a Thomas.
A força da música de Richard Wagner, Arrigo Barnabé e Borut Krzisnik, e a intensidade da luz - em pink-Schiaparelli e num operístico vermelho-Carmem - são os outros personagens desse laboratório de idéias que é NxW, que pode ser vista de sexta a domingo, até 5 de agosto, no Sesc Ipiranga, e tem estréia marcada dia 17 de setembro no Galapagos, o novo espaço de Thomas em Nova York.
*(Jornal da Tarde - Variedades - De 22 de Julho de 2000)
|