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NxW Já me perguntaram (com a maior seriedade): "Você está dirigindo a ópera Nietzsche Contra Wagner"? Qual ópera Nietzsche Contra Wagner? Nunca existiu uma ópera chamada "Nietzsche Contra Wagner". Mas existe um universo visível e complexo, repleto de óperas, sinfonias, obras de artes em geral nessa briga filosófica entre esses dois monstros. Essa briga, na verdade, representa um dos momentos mais lúcidos do início do modernismo (ou da modernidade), e poderia até ser canonizada como o "monumento maior" do "pós-modernismo". O que pretendo, em "NXW", é encenar a conseqüência desse debate. O que está no palco (na medida do possível), é uma visão bem pessoal de alguém que dirige as óperas de Wagner no século que foi a conseqüência lógica, conceitual e (portanto) caótica dessa briga poética e ética desses seres abissais. Quando dirigo uma ópera de Wagner na Europa (como foi o caso de Tristan und Isolde, em Weimar, em 1996), levo em consideração os ganhos históicos de Schöenberg. Quando dirigo algo de Schöenberg (como foi o caso com "Moses und Aron", em Graz, em 1998), levo em consideração o berco dramático e romântico de Wagner. Não entendo um sem o outro e o que pretendo fazer aqui é a soma de tudo. A idéia de usar essa única nota atonal como fermento para "NxW" me veio quando o genial maestro Arturo Tamayo me demonstrava ao piano, no subsolo da Ópera de Graz, no verão de 98, o desenvolvimento da música no século que passou. Enquanto falava em seu espanhol aristocrático, eu não parava de segui-lo com imagens que iam das artes plásticas até o teatro, passando pela literatura de Beckett (um arranhão formal) e a pintura de Pollock ou de Johns. Wagner embutiu em seu Tristão e Isolda essa demiúrgica nota que, herdada por Arnold Schöenberg (o "judeu" no futuro da música de Wagner), acabou se transformando no vocabulário atonal/dodecafonico, e acabou por expressar todas as angústias existenciais e autofágicas do artista moderno. No meu palco estarão desfilando (literalmente) cenas ligadas ao cerne dessa discussão e, portanto, terão uma relação direta com as maiores estrelas do século passado, como o próprio Arnold Schöenberg, Beckett, Karlheinz Stockhausen, Jackson Pollock, Marcel Duchamp, John Cage e todos aqueles que arranharam a superfície e causaram danos irreparáveis ao romantismo ingênuo em vigor até então. Será que devemos a emancipação do artista "moderno" a Nietzsche? Muitos, como George Battaile, ou Noam Chomski, acham que sim. Seja como for, o esboço de todo o século XX está impresso, e muito, nos acordes finais de Tristão e Isolda, desde a droga (o elixir), ou à manipulação da linguagem (arma prioritária na retórica do repertório moderno e neste mundo de marketing e informática), até a estranha (e doentia) comparação entre o amor e a morte. Ainda assim, nunca consegui me libertar de Wagner. Ao contrário de Nietzsche, achei formas de conviver com sua obra; magnífica, gigantesca, superlativa e tão obso leta que, se prestarmos bem atenção, nos serve como uma espécie de nave, ou de arca de Noé, onde estão contidos os segredos que o tempo apagou. Para consolidar os termos musicais modern.os.desse espetáculo, chamei dois músicos excepcionais: o sloveno Borut Krzisnik e o brasileiro Arrigo Barnabé. De Wagner, acabei usando somente a abertura e o desfecho de Tristão, mas sua linguagem está subüminada em todo o decorrer do espetáculo. Aproveito para dar o meu mais sincero obrigado a Danilo Santos de Miranda por continuar a acreditar na minha obra como um todo e a Domingos Barbosa da Rocha por dar sangue e veias a ela. Gerald Thomas |