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Fake news histórica: São Paulo nunca quis se separar do Brasil

Celebrada pelos paulistas no dia de hoje, a Revolução de 1932 buscava uma nova Constituição para o Brasil e o fim da ditadura Varguista. Uma fake news da época, espalhada pelo governo de Getúlio, afirmava que o Estado de São Paulo buscava a independência


A Revolução de 1932 defendia publicamente a derrubada de Vargas e a instalação imediata de uma Constituinte - Foto: Reprodução/ CPDOC - FGV
A Revolução de 1932 defendia publicamente a derrubada de Vargas e a instalação imediata de uma Constituinte - Foto: Reprodução/ CPDOC - FGV

A Revolução de 1932, comemorada neste dia 9 de julho, tinha como objetivo separar o Estado de São Paulo do Brasil? Esta informação é uma fake news que já dura 86 anos. A falsa notícia, amplamente divulgada pelo governo de Getúlio Vargas, visava criar um clima de instabilidade no país e com isso, acabar com qualquer possibilidade de outros estados apoiarem a verdadeira causa paulista que era a criação de uma nova Constituição para o Brasil. Claro, como outras fake news, esta também tinha um fundo de verdade.

Chamada de Revolução Constitucionalista de 1932, o movimento defendia publicamente a derrubada de Getúlio Vargas do poder e a instalação imediata de uma Constituinte para elaborar uma nova Carta Magna ao Brasil. Porém, alguns grupos internos mais radicais defendiam a independência de São Paulo. A opinião estava longe de ser uma unanimidade entre os paulistas e sabendo disso, Getúlio decidiu usá-la como uma arma de guerra. Seu governo espalhou a falsa notícia, através da imprensa estatal e jornais aliados, que São Paulo estava em guerra pela independência. A fake news deu certo e criou uma rejeição popular ao movimento paulista em diversos estados brasileiros.

Para entender o clima que levou a última guerra civil registrada no Brasil é importante recordar que dois anos antes, em 1930, Getúlio havia dado um Golpe Militar e destituído o presidente eleito, Júlio Prestes. Na sequência, ele suspendeu a Constituição em vigor, datada de 1891, fechou o Congresso e exonerou diversos presidentes de províncias (como eram chamados os governadores na época), os substituindo por nomes ligados a ele. São Paulo estava na lista dos estados que haviam perdido sua autonomia política. Com a ausência de uma Carta Magna, o presidente tinha poderes ilimitados, o que desagradou as lideranças políticas e a oligarquia paulista.

A crise política começou com um protesto, que reuniu 200 mil pessoas, contra a ditadura varguista em janeiro de 1932, na praça da Sé, em São Paulo. Na sequência, os dois principais partidos paulistas anunciaram sua oposição ao governo, além de exigirem o fim da ditadura e a convocação da Assembleia Constituinte para elaborar uma nova Carta Magna. Getúlio até tentou acalmar os ânimos paulistas trocando o interventor, mas o Estado permanecia sem autonomia. A gota d´água aconteceu em 23 de maio, quando um confronto entre getulistas e defensores dos paulistas causou a morte de cinco estudantes (Mário Martins, Euclides Miragaia, Dráusio Marcondes, Antônio Camargo e Orlando Alvarenga), que ficariam eternizados pelas iniciais dos seus nomes: MMDCA. Os assassinatos à tiro causaram uma enorme comoção e foram o estopim para o início do levante popular em 9 de julho.

Considerado o maior conflito armado em território nacional no século XX, a guerra envolveu mais de 140 mil soldados. As tropas leais à Getúlio, formadas pelo contingente do Exército brasileiro, chegavam a 100 mil soldados e os paulistas, quase sem infraestrutura, contavam com 40 mil alistados. As batalhas ficaram concentradas no Vale do Paraíba e envolveram até bombardeios aéreos em cidades da região. O objetivo dos revolucionários era tomar a Capital Federal, a cidade do Rio de Janeiro, para derrubar o governo e a instalar uma Constituinte. Os paulistas esperavam o apoio de soldados vindos do Rio Grande do Sul e de Minas Gerais, mas eles nunca chegaram. Isolado, o Estado não resistiu as tropas federais e se rendeu após 87 dias de guerra e aproximadamente duas mil mortes.

Se no campo militar os paulistas perderam, no seu principal objetivo eles venceram. Em 1934, Getúlio Vargas promulgou a nova Constituição brasileira que foi considerada uma das mais avançadas no mundo à época. Entre diversas novidades, o texto instituiu o voto feminino, criou a Justiça do Trabalho e ainda estabeleceu o ensino gratuito e obrigatório. Porém, em 1937, ele deu outro golpe militar instaurando o Estado Novo e criando uma nova ditadura.

As batalhas envolveram 140 mil soldados, sendo que as tropas paulistas contavam com 40 mil alistados - Foto: CPDOC - FGV
As batalhas envolveram 140 mil soldados, sendo que as tropas paulistas contavam com 40 mil alistados - Foto: CPDOC - FGV

Dennys Marcel



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