Sou artista plástico, nasci no Rio de Janeiro e, no final de 1978, vim conhecer Visconde de Mauá.
Apesar de ter uma vida boa no Rio, cheia de amigos, a vontade de sair era muito grande e, um dia, uma pessoa que me conhecia muito pouco, disse que eu tinha a cara de Visconde de Mauá.
Aí eu resolvi vir conhecer. Fiquei este tempo todo por influência de uma pessoa que não me conhecia e que mudou meu destino.
Assim que eu pisei aqui, já na serra, soube que meu lugar era este.
Fiquei impressionado porque, ao subir a serra, um gavião acompanhou o trajeto na frente carro. Eu poderia dizer que foi um sinal, mas não sou exotérico nem nada.
No Rio eu me sentia um peixe fora d´água, eu não sou um ser urbano, sou um ser caseiro, e um ser urbano caseiro fica um pouco sem sentido porque não tem um quintal no apartamento, eu senti, desde cedo que um dia eu ia acabar numa casinha, no alto de um morro. Meu maior prazer era, quando eu ia pra Buzios com os amigos, sempre no banco de traz porque eu não tinha carro, ver as casinhas isoladas, no pé dos morros.
Eu morei na Santa Clara, que era mais isolado que aqui ainda. Tive uma vida muito dura, passei oito meses lá vivendo como índio.
Cheguei a ir embora daqui, me envolvi num projeto e me decepcionei, fiquei três meses isolado, sem falar com ninguém, então resolvi voltar para o Rio. Foi quando vendi minha casa na Santa Clara.
Voltei e morei lá três anos. Trabalhei bastante, até que um dia, uma amiga daqui foi me visitar lá no Rio e me disse: "O pessoal de Mauá está com saudades de você."
Ela me convidou para passar uma semana na sua pousada aqui em Visconde de Mauá e, quando eu cheguei aqui, as pessoas me cumprimentavam e eu percebi que aqui estava a minha vida e que eu havia confundido: o lugar não tinha culpa do meu estado de espírito.
Eu estava sem grana, meus quadros estavam vendendo bem mas, quando aconteceu o plano Collor, fiquei sem grana, as galerias não vendiam nada.
Fiquei na casa de uma amiga por quatro meses, trocando trabalho físico por um terreno, mas não deu certo.
Foi quando apareceu este lote no Vale das Cruzes, dei uma grana de entrada, pedi a um amigo o resto e paguei o terreno.
Aprendi a não perder a coletividade jamais mas já cheguei a me prejudicar pela minha individualidade.
Por incrível que pareça, estou hoje como eu estava há 20 anos atrás, com minha casinha com a placa do Atelier de Arte na porta.
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