Uma enchente, em 1966, criou o ponto mais visitado de Mauá
A ENCHENTE QUE MUDOU A GEOGRAFIA DO RIO PRETO E FEZ HISTÓRIA
Mais que simplesmente morar, residir, vivo em Mauá há pouco mais de dez anos, e nesse período, inúmeras foram as vezes em que ouvi falar da famosa enchente de 66. Aquela que cobrou um alto preço da pequena população da época, mas também mudou muito o Rio Preto, fazendo-o mais largo, profundo e muito mais vistoso, alem de nos ter apresentado pérolas como a cachoeira do Escorrega, o poção e outros belos recantos do rio. As pessoas mais antigas da Maromba contam muitas histórias dessa enchente. Curioso, fui conversar com seu Tatão, morador há mais de quarenta anos da internacionalmente conhecida "Praça da Maromba". Seu Tatão, como é popularmente conhecido o proprietário da Lanchonete e Pousada Serra Negra, foi um dos que viveu a enchente e suas conseqüências, e é quem nos conta um pouco dessa história, recheada de detalhes interessantes.
"Ninguém aqui nunca tinha visto tamanha tromba d'água, a coisa foi feia. Aqui mesmo a chuva era pouca, o negócio caiu foi no alto da serra e desceu limpando tudo; não ficou uma árvore em pé nos dois lados do rio. Então aquilo desceu tudo e enroscou lá perto do Chachaim onde a água foi se represando. Quando eram dez horas da noite arrebentou e desceu carregando tudo."
Percebam que a descomunal tromba d'água, potencializou-se antes de chegar à região da Maromba, porque ao derrubar árvores enormes e rolar pedras aparentemente impossíveis, criou uma represa de tal tamanho que fatalmente acabaria rompendo. Foi o que aconteceu. Se você conhece a Praça da Maromba, sabe ( e se não conhece nós te contamos e convidamos a conhecer) que a igreja está bem distante e mais alta que o rio. Tanto que olhando, parece impossível que a água tenha passado acima da igreja. O certo é que passou e carregou casas, utensílios, e o que é pior: vinte de seus moradores.
Um deles, um bebê com apenas cinco dias de vida, foi o único que se salvou. Levado pelas águas, de dentro de sua casa, uma hora depois de desaparecido, o Dedé da Maromba, um amigo da família que participava das buscas, escutou um choro de criança e o encontrou coberto de lama mas ainda vivo em uma das margens. Depois de repetir um episódio da Bíblia, o menino que deveria chamar-se Basílio Alcântara ganhou outro nome: Moisés. Hoje aos 35 anos, é figura conhecida e requisitada da praça da Maromba, onte tem uma pousada e restaurante. Todos querem conhecer a sua história.
De acordo com seu Tatão, o turismo, que na época ainda engatinhava, logo após a enchente de 66 diminuiu muito. Primeiro devido ao medo que gerou em quem já costumava visitar a região e também por que as poucas pousadas da época, assim como toda a população, não contavam com energia elétrica pública.
Os "melhores hotéis", tiravam a energia para iluminação e aquecimento de pequenas usinas hidrelétricas particulares, feitas ao longo do Rio Preto e que, literalmente desapareceram sem deixar vestígios, tal a força da água que alterou profundamente o leito do rio. Tanto que fez surgir a hoje conhecida cachoeira do Escorrega. Depois de carregar uma quantidade descomunal de terra, pedras e mata, brotou aquela imensa laje lisa por onde escorre a água cristalina, e que forma um escorregador natural, com uma queda de aproximadamente 30 metros. O Escorrega, que hoje faz parte da diversão gratuita e saudável de turistas e moradores, certamente é um dos lugares mais freqüentados e permanentemente incluído em todos os roteiros de passeios por Mauá e região.
Arthur W. Porsani
Redação GuiaMauá
24.01.02