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Informativo da ETRM - Escola Técnica Rural da Mantiqueira
Ano 1 - setembro/2002 - número 3
FACES DA MANTIQUEIRA

Diversidade da fauna

FOTOS: MARCOS SÁ CORRÊA

Freqüentador do Parque Nacional do Itatiaia há quase 40 anos, o jornalista Marcos Sá Corrêa deu início ao ensaio fotográfico que ilustra esta edição em meados da década de 90. O projeto de registrar a biodiversidade local se mostrou maior do que ele podia supor. "Tudo ali é variedade. Comecei com certa pressa mas, depois de seis anos e cerca de 3 mil imagens editadas, quanto mais fotografo sinto que estou longe do fim", comenta Marcos, para quem tal constatação está ligada ao bem-sucedido processo de revitalização do território do Parque. "Ele cresceu para dentro de áreas que eram campo quando eu conheci, o que, mesmo com todas as precariedades de sua estrutura, permitiu que a natureza se recuperasse. Eu não tinha, por exemplo, nenhuma lembrança de ver um jacu quando era menino. Hoje você se depara com indivíduos dessa espécie a todo o momento. Com os macacos é a mesma coisa."

Quarenta anos é também, aproximadamente, o tempo que se passou desde a meninice de Paulo Isidoro, na época morador do Vale das Cruzes e hoje funcionário do Ibama, responsável solitário pela fiscalização das áreas do Parque e de seu entorno na região de Visconde de Mauá. "A lista dos bichos que estão sumindo é enorme. O macaco mono-carvoeiro era muito comum. A última vez que vi um já deve ter umas décadas. O macuco, ave quase do tamanho de um peru, é outro com que cruzávamos bastante e há muito tempo não se ouve nem o pio", lamenta, apontando a caça, a degradação das matas e o fluxo de visitantes como principais vetores de ameaça aos animais silvestres da região. "Por outro lado, às vezes esbarro com animais que nunca tinha visto. Há poucas semanas foi um tamanduá", pondera o fiscal.

A diferença entre o que tem sido observado por Marcos e Paulo Isidoro é plausível e marca o dilema entre desenvolvimento e preservação, vivido por toda a região do entorno do Parque. Segundo o professor doutor Rui Cerqueira, do Laboratório de Vertebrados da UFRJ, o número de indivíduos de cada espécie tende a ser maior - e estas portanto mais visíveis - nas áreas internas às unidades de conservação, uma vez que ali estão menos expostas à ação humana. Ele destaca, entretanto, o resultado de pesquisas recentes indicando que a diversidade da fauna em si se mantém praticamente inalterada nos fragmentos de mata. "Nenhum fragmento tem todas as espécies e é difícil saber se as presentes sobraram ou são resultado de uma recolonização. O importante é perceber que até mesmo os fragmentos menores têm bichos, muitas vezes raros. Isso mostra como é importante a manutenção das Reservas Legais. No conjunto a diversidade se mantém".

No caso específico da bacia do Rio Preto, a alta variedade de habitats apresentados se reflete naturalmente, segundo a bióloga Julia Couto, da equipe técnica do projeto Mauá Sustentável, numa fauna diversificada e num grande número de espécies endêmicas (só existentes na região). "Procuramos estudar a potencial ocorrência de determinadas espécies a partir de sua amplitude de distribuição, de seu habitat e de suas relações ecológicas. Em alguns casos, como no da onça pintada, sabemos que ela já viveu na região porque há relato de moradores locais e pesquisadores. Mas devemos considerar que certos fatores conduzem as espécies de porte avantajado às vias de extinção. Elas requerem territórios extensos, o que já restringe a população a poucos indivíduos e, além disso, existe a pressão de caçadores, que vêm nesses animais uma fonte de alimentos e de depredação de suas criações. É triste, mas pelo menos contamos hoje com uma legislação mais adequada contra a caça (que ainda é habitual na região), com a ação criminal descrita e as penas previstas."

Rui Cerqueira explica que comportamento e variação da fauna apresentam uma infinidade de sutilezas e características próprias de cada região. "Nos últimos 20 anos é que o número de pesquisadores começa a ser suficiente para entender melhor à mudança de determinados padrões", revela, para mencionar algumas conclusões reveladoras: "no que tange a biodiversidade da fauna, a proximidade de casas de campo é pior do que a atividade pastoril. A presença de animais domésticos é uma das principais causas de afastamento de mamíferos e aves; estima-se que um gato deve matar cerca de duzentos bichos por ano", destaca, referindo-se também ao impacto de cachorros e galinhas. "Para os gatos, uma medida simples poderia ser o uso de sininhos, que avisariam as presas", sugere.

Outra linha de evolução dos estudos faunísticos citada é aquela que identifica indicadores de biodiversidade, procurando entender as mudanças de determinados padrões em um espaço definido. "Uma população grande de gambás, por exemplo, sugere um ambiente mal equilibrado. Eles são predadores pouco eficientes, apresentam densidade baixa em florestas bem preservadas. Mas se adaptam à proximidade do homem e proliferam quando o número de seus predadores naturais diminui." O equilíbrio da fauna de uma floresta também pode ser avaliado, segundo o pesquisador, a partir de sua diversidade vegetal. Uma mata madura, com boa variação de tipos funcionais de árvores, indica um banco de sementes eficiente, o que depende dos animais polinizadores, principalmente insetos, morcegos e aves. "Os bichos enterram sementes, sendo responsáveis pela renovação da floresta. A sua ausência pode se constituir num futuro problema."

Apesar da recente evolução das técnicas de pesquisa sugerida por Rui Cerqueira, a presença de estudiosos da fauna em Itatiaia remonta ao início do século 20. Nomes como Ernest Holt, Wanderbitt e Barth deixaram suas contribuições sobre aspectos diversos do tema em trabalhos válidos hoje como base referencial. A bióloga Eliana Gouvêa bebe na fonte dos pioneiros para dar continuidade ao projeto de catalogação e estudo da avifauna do Itatiaia iniciado por seu pai, Élio Gouvêa, no começo da década de 80. "Foram 15 anos de coletas, em que foi feito o anilhamento (marcação das aves capturadas para avaliação da dinâmica de suas populações ao longo do tempo) de mais de 4 mil aves e identificamos 40 novas espécies, levando o número total na área do Parque para 363. Neste momento, estou analisando os dados de todo o per+iodo numa tese de mestrado para que, finalmente eles sejam publicados."

O conjunto de pressões sobre a fauna no entorno do Parque de Itatiaia, incluindo-se aí a região de Mauá, é um fato tão concreto quanto lamentável. Mas se há diminuição do número de animais e extinção de espécies, por outro lado o conhecimento desenvolvido ajuda a explicar como funcionam ecossistemas e sua importância para o equilíbrio da natureza. E do conhecimento gerado por pesquisas acadêmicas ou pela observação e a admiração de cada um por esses seres vivos nascem à informação e a consciência, passos fundamentais para a manutenção da biodiversidade.

Ainda que os trabalhos sobre a fauna, na maioria dos estudos de impacto ambiental e diagnósticos regionais estejam relacionados aos vertebrados, sabe-se que cerca de 95% de todo Reino Animal são invertebrados - sua tremenda diversidade adaptativa permitiu-lhes sobreviver em quase todos os ambientes. Insetos e aranhas são os mais representativos neste grupo, constituído cerca de 85%. Em Itatiaia, calcula-se mais de 100.000 espécies de insetos, sendo que 50% são borboletas.

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