Jorge Basurto é um peruano que se aventurou pela selva amazônica e resolveu viver no Brasil. Mais especificamente em Visconde de Mauá, encantado pela altitude, natureza e pela amabilidade das pessoas. Deixou em Lima a família, um bom emprego e carro novo e agora vende artesanato peruano na loja Tienda del Inca, em Maringá-MG. "Daqui ninguém me tira", diz ele. Veja a história de Jorge:
Era o ano de 1992. Com um grupo de amigos, quatro pessoas, saí em turismo pela selva peruana. Já conhecia muitos lugares no Peru e meu pensamento era que deveria primeiro conhecer meu país para depois seguir para outros lugares. Certo dia estávamos na região de Madre de Dios, conhecendo a população e seus costumes, quando um amigo do grupo disse: 'por que não cruzamos o rio com o barco e vamos à fronteira do Brasil?'.
Ficamos em dúvida, porque o barco não parecia seguro e nenhum de nós tinha como avisar as famílias. Mas eu topei e todos me chamaram de louco.
Pegamos o barco, muito velho, cruzamos o rio e chegamos à vila de Assis, no Acre. Um lugar de pessoas muito humildes e boas, que nos ajudaram bastante.
A maior dificuldade era com o idioma, porque não sabíamos falar nada de português. Eu tinha muita sede. Pedi uma "gaseosa" (refrigerante), mas o moço da barraca não entendia. Por isso foi muito difícil viajar de um lugar para outro, comer, subsistir.
Passaram os dias, ficamos conhecendo as pessoas e nos tornando amigos dos moradores. Dali fomos para Rio Branco e gostamos muito. Era tudo muito lindo. Seguimos para Manaus e foi muito impressionante, pelo tamanho da cidade, quantidade de pessoa, pela forte atividade turística.
De Manaus seguimos de avião para São Paulo. Fiquei perdido no centro da cidade. Mas queríamos ir ao Rio de Janeiro, e chegando a Copacabana, acabou o dinheiro e tivemos de voltar para o Peru.
Passou o tempo e o Brasil não me saia da cabeça. Seu povo, de coração quente, pessoas que podiam se tornar amigas em pouco tempo, ao contrário de outros países. Minha idéia fixa era voltar ao Brasil.
Nesta época eu trabalhava em uma empresa de transportes interestaduais, que comprava ônibus produzidos em São Paulo. Certa vez, meu tio, dono da empresa, me mandou para São Paulo para fazer contatos com fornecedores. Graças a Deus, com tudo pago pela empresa, voltei ao Brasil.
Eu tinha prazos estabelecidos e fazia tudo muito rápido para que sobrassem dias livres para ir ao Rio. Deu certo e foi quando conheci Helena, que viria a ser minha esposa. Muito linda de coração, muito gentil, amável, me apoiando em tudo o que necessitava. Agora não era só o Brasil que me atraia, mas principalmente Helena.
Voltei para Lima, mas fiquei maluco, pensando nela, queria voltar para cá. Um dia tomei a decisão e comuniquei minha mãe que deixaria de trabalhar e partiria em busca de Helena. Tinha carro novo, bom cargo na empresa, deixei tudo. Vim para o Rio ao encontro dela. Moramos juntos em Niterói alguns anos e lá ela me falou sobre Visconde de Mauá.
Não fazia idéia de onde era, o que era. "É uma serra, lá no alto, a três horas do Rio, você vai gostar." Quando falou de serra... sempre fui apaixonado por mato, por verde, sempre gostei de morar em altitude. A primeira coisa que fiz foi pegar minhas coisas e vir para cá.
Viemos a Resende e subimos de ônibus. O tempo passava e o ônibus subia, subia, "fica tranqüilo, só mais uma hora", e meia hora depois o ônibus quebrou. Subimos caminhando, sob a chuva, só os dois. Isso foi no final de 96, 97. Acabamos pegando uma carona e chegamos a Maromba.
O projeto era ficar quatro dias na pousada Águas Claras, mas gostei tanto que ficamos mais cinco dias. Tudo o que tem aqui, cachoeiras, natureza, rios, sem poluição, era tudo o que precisava. "Mas se ficarmos, o que vamos fazer aqui?" Não importa, vamos mudar para cá. Helena teve a idéia de abrirmos uma loja de artesanato peruano. Vamos viver disso. "Daqui ninguém nunca vai me tirar".
Me lembro que, muito emocionado, saímos procurando uma casa, mas não havia nada disponível, era um feriado. Acabamos encontrando um lugar perto da pousada Casa Bonita. Gostamos muito, alugamos e fomos ao Rio buscar nossas coisas, que vieram de caminhão.
Tenho certeza de que esta foi a decisão mais correta, para mim, minha esposa, meu filho, para nossa saúde, estabilidade familiar e trabalho.
A região onde moramos é uma das mais invejadas, por sua localização. Sempre terei boas lembranças do povo daqui, que sempre me apoiou. Mesmo sabendo que poderia partir a qualquer momento, me deram crédito. As pessoas e a natureza me deram força.