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Haroldo (Eurico Browne) de Campos nasceu em 19
de agosto de 1929 em São Paulo, capital. Foi casado com Carmen de
Paula Arruda, com quem teve um único filho, Ivan Pérsio de
Arruda Campos, em 1962. Poeta, tradutor de poesia em várias línguas,
ensaísta e crítico literário, fez seus estudos secundários no
tradicional Colégio São Bento, onde aprendeu os primeiros
idiomas estrangeiros (latim, inglês, espanhol, francês).
Participou do Clube de Poesia, ligado à Geração de 45, sob os
auspícios do qual publicou seu primeiro livro de poemas, O
Auto do Possesso, aos 21 anos. Em 1952, rompeu com o Clube de
Poesia e, com o irmão Augusto de Campos e Décio Pignatari,
fundou o grupo Noigandres e a revista com o mesmo
nome. Graduou-se em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade
de Direito da Universidade de São Paulo (USP) em 1952. Foi
procurador da USP até se aposentar. |
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O
Noigandres foi o embrião do movimento da poesia
concreta, que exerceu grande impacto na literatura
brasileira e internacional, com mostras e exposições em países
como Alemanha, Japão, Itália, Espanha, Tchecoslováquia, Suíça,
Argentina, Inglaterra. A poesia concreta realizou, por meio da
tradução, uma extensa revisão da poesia mundial com o fim de
revitalizar a invenção poética. Em 1962, Haroldo de Campos
escreveu “Da Tradução como Criação e como Crítica”*,
ensaio fundamental para os estudos da tradução, depois de ter
traduzido ou enquanto traduzia poetas como os grandes modernistas
de expressão inglesa (Pound e Joyce), vanguardistas alemães
(Gomringer, Heissenbüttel), o Mallarmé de Un Coup de Dés,
Francis Ponge, Dante, Ungaretti, Maiakóvski e haicaístas
japoneses. Assim, oferecia aos leitores brasileiros um rico acervo
de poesia, até então virtualmente desconhecido, e extraía dessa
experiência uma teoria inovadora e um novo padrão para a tradução
literária. |
Em
1959, permaneceu cerca de um ano na Europa. Em Colônia,
encontrou-se com Karlheinz Stockhausen, no estúdio de música
eletrônica da rádio da cidade, e em Rapallo, com Ezra Pound, com
quem já vinha se correspondendo e cujos Cantos traduzia
ao lado de Augusto de Campos e Décio Pignatari. A partir dessa
primeira viagem ao exterior, continuou estabelecendo contato com
renomados poetas, artistas e intelectuais estrangeiros. Em 1964,
foi leitor junto à Cátedra de Filosofia (Estética) do professor
Max Bense na Universidade de Stuttgart. Nesse ano, também viajou
para Baden-Baden, onde entrevistou Pierre Boulez, e para a Itália,
onde conheceu os poetas “novíssimos” italianos e o crítico
Umberto Eco, que se surpreendeu ao saber que o poeta brasileiro
tinha antecipado sua teoria da obra de arte aberta num ensaio
escrito em 1955**. Entre 1963 e
1964, visitou também Praga, onde deu uma conferência sobre
poesia concreta e entrou em contato com a obra de Guenádi Aigui,
poeta russo que depois traduziria, e conheceu vários
intelectuais, entre eles Josef Hirsal e Ladislav Novák.
Em 1966, a convite do PEN American Center, participou do
XXXIV International PEN Congress, em Nova York, do debate “O
Escritor na Era Eletrônica”,
presidido por Marshall McLuhan. No mesmo encontro,
representou o Brasil na mesa-redonda “A Situação do Escritor
na América Latina”, com Victoria Ocampo, Pablo Neruda, Mario
Vargas Llosa e Emir Rodriguez Monegal. Também em 1966, conheceu
Roman Jakobson na Califórnia. Do longo convívio que ali teve início,
resultou o ensaio do lingüista russo intitulado “Carta a
Haroldo de Campos sobre a textura poética de Martin Codax”***. |
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Recebeu o prêmio Presenza
d'Italia in Brasile, em 1968. Durante a década de 60,
intensificou sua atividade crítica com ensaios sobre inúmeros
autores brasileiros e estrangeiros, muitos deles depois reunidos
em Metalinguagem & Outras Metas. Procedeu também ao
resgate de autores brasileiros que haviam ficado à margem da
historiografia tradicional, como Sousândrade e Oswald de Andrade.
Em 1969, convidado pela Direction Générale des Relations
Culturelles, desenvolveu pesquisas sobre literatura de vanguarda
em Paris. Conheceu Octavio Paz, com quem já
vinha se correspondendo. Em 1981, concluiria a tradução do poema
Blanco do poeta mexicano. Foi amigo de músicos ligados
à Tropicália, como Caetano Veloso e Gilberto Gil, de cineastas
como Julio Bressane e Ivan Cardoso, e de artistas plásticos como
Helio Oiticica, entre outros. |
Em 1971, recebeu a Bolsa Guggenheim, que lhe
permitiu fazer pesquisas na Europa e Estados Unidos para a tese de
doutorado que defenderia em 1972 na Faculdade de Filosofia, Letras
e Ciências Humanas da USP. A tese foi publicada com o título Morfologia
do Macunaíma. Nesse decênio, dedicou-se a aprender russo,
traduzindo Maiakóvski e outros poetas russos, com Augusto de
Campos e Boris Schnaiderman. Passou a dirigir a Coleção Signos,
da editora Perspectiva, tendo publicado em sua gestão mais de
trinta volumes. Ainda em 1971, foi professor visitante junto à
Universidade do Texas em Austin, onde voltaria a ensinar em 1981.
Aprofundou o interesse pela literatura hispânica, travando
contato com vários escritores, como Julio Cortázar, Severo
Sarduy e Cabrera Infante. Cortázar faria dele um dos personagens
de Un tal Lucas, escrito em 1979. Em 1978, foi professor
visitante na Universidade de Yale, em New Haven. Entre 1973 e
1989, foi professor titular de Semiótica da Literatura no
Programa de Estudos Pós-Graduados em Comunicação e Semiótica
da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP),
obtendo o título de Professor Emérito em 1990. Foi um dos
introdutores da semiótica no Brasil. |
Nos anos 80, estudou
hebraico e começou a traduzir textos bíblicos, projeto que
retomaria na década de 90, para a preparação do livro Éden:
um tríptico bíblico, publicado postumamente. Em 1984,
publicou Galáxias, texto que escrevera entre 1963 a
1976, diluindo as fronteiras entre poesia e prosa. Na década de
90, fez duas viagens marcantes. Em 1991, a Japan Foundation o
convidou para visitar o país de autores que ele divulgou no
Brasil, como o poeta Bashô e o filósofo Fenollosa. Em 1994, o
Instituto Cultural de Israel proporcionou-lhe uma viagem ao país,
em que fez contato com grandes poetas israelenses como Yehudá
Amichai, Natan Zach e Haym Gúri, dos quais traduziu alguns
poemas. Também nesse período, aprofundou seus conhecimentos de
grego e traduziu integralmente a Ilíada de Homero. Foi
um dos fundadores da Associação Brasileira dos Amigos de James
Joyce e introduziu o Bloomsday no Brasil, comemoração que vem se
repetindo anualmente desde 1988. |
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Em 1991, recebeu uma homenagem em
Salto Oriental, Uruguai, organizada pelo Centro Cultural de Salto
e a Academia Nacional de Letras, e coordenada pela Profa. Dra.
Lisa Block de Behar. No mesmo ano, foi homenageado na ocasião do
35º aniversário da Fundação da Aliança Cultural Brasil-Japão.
Em 1992, participou do Ciclo Internacional de Poesía,
na Residencia de Estudiantes, em Madri. Realizou leitura de seus
poemas no Copenhagen's International Festival of Poetry,
na Dinamarca, em 1993. No ano seguinte, participou do Projekt
der KulturRegion Stuttgart im Max-Bense-Saal der Stadtbücherei im
Wilhelmspalais, com apresentação de Galáxias
por Theophil Maier e acompanhamento do conjunto Exvoco. |
Em 1995, juntamente
com outros poetas concretos brasileiros e portugueses, foi
homenageado no evento ”A
Symphosophia on Experimental, Visual & Concrete Poetry”,
The Council on Latin
American Studies, Yale University (New Haven-USA). No mesmo
ano, participou da IIIª Biennale Internationale des Poètes,
em Val-de-Marne, Paris, Lyon e Marselha, na França. Recebeu o título
de Chevalier dans L'ordre des Palmes Académiques de France.
Em 1996, ministrou o “Curso
International sobre Poética da Tradução”, na
Universidad International “Menéndez Pelayo”, Tenerife,
Espanha. Nesse mesmo
ano, participou do VI Festival Internacional de Poesia em
Medellín, Colômbia, e proferiu o “Curso
Internacional sobre Tradução como Gênero Literário”,
na Residencia de Estudiantes, em Madri. Também em 1996, recebeu o
título de Doutor Honoris Causa pela Universidade
de Montréal, Québec. |
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Foi vencedor do prêmio Jabuti
em 1991, 1992, 1993, 1994, 1999, 2002, 2003 e 2004. Sua biografia
foi incluída na Enciclopédia Britânica em 1997. No
mesmo ano, foi homenageado no II Congresso Arte e Ciência,
promovido pelo Centro Mário Schenberg, ECA-USP e ABPA. A PUC-SP o
homenageou no evento Diálogo das Artes - Homenagem a
Haroldo de Campos, em outubro de
1996. Nessa ocasião, foi impresso um álbum de tiragem limitada
com manifestações de Octavio Paz, Guillermo Cabrera Infante,
Jacques Derrida e João Cabral de Melo Neto, acompanhado de um
kakemono de Tomie Ohtake com um poema de Haroldo. Em seu
texto-homenagem, Derrida escreve, “no horizonte da literatura, e
antes de tudo na intimidade da língua das línguas, cada vez
tantas línguas em cada língua, sei que Haroldo a tudo isso terá
tido acesso como eu antes de mim, melhor que eu”. |
Participou
de uma mesa-redonda a convite da Feira Internacional do Livro
em Frankfurt, em outubro de 1998, mesmo ano em que recebeu o Prêmio
Internacional Lumière/Unupadec, em Roma, e participou do Simpósio
Internacional Ressurgences Baroques, na Maison du Canada,
em Paris. Foi o ganhador do Premio Octavio Paz de Poesía y
Ensayo, no México, em 1999. Nesse mesmo ano, as universidades de Oxford e Yale, em homenagem aos 70 anos do
poeta, dedicaram-lhe o simpósio "On Transcreation: Literary
Invention, Translation and Poetics". Obteve o prêmio John
Jameson – Bloomsday 1999 por sua divulgação da cultura
irlandesa no Brasil. |
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Participou do Simpósio
sobre Alexander
von Humboldt, organizado pela Fundação Humboldt,
em Berlim, em junho de 1999. Também nesse ano, recebeu o prêmio Roger
Caillois pela obra Galaxies, tradução francesa de Inês
Oseki-Dépré. Em junho de 2000, participou do Colóquio
Internacional Revues parlées, no
Centro Pompidou, Paris, com leitura a onze vozes de Galaxies.
Também em 2000, recebeu o prêmio Hors Concours Fernando
Pessoa por Pedra e Luz na Poesia de Dante, categoria tradução,
outorgado pela União Brasileira de Escritores. No mesmo ano,
tornou-se membro do Comitato di Collaborazione Culturale
dell'Istituto Italiano di Cultura di San Paolo, nomeado pelo
Embaixador da Itália no Brasil.
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O Projeto: Yûgen/Fundação
Japão prestou homenagem a ele, bem como a Tomie
Ohtake e H. J. Koellreutter. Foi convidado pela UNESCO e pelo
Ministério da Cultura da Grécia a participar, com leitura bilingüe
de seus poemas, do “Dia Internacional da Poesia”, celebrado em
Atenas e Delfos (18-22/03/2001); paralelamente foi nomeado pela
UNESCO e pelas autoridades italianas membro da “Academia Mundial
da Poesia”, patrocinada pelo “International Institute for
Opera and Poetry". Proferiu, na Embaixada do Brasil, na Piazza
Navona, em Roma, a conferência "Poesia brasiliana:
dall'epoca coloniale alla contemporaneità: vocazione universale e
traccia differenziale”. |
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Sua biografia foi incluída no Who`s
Who in the World - 2001. Em 2002, foi homenageado pela USP por
seu papel na divulgação da literatura japonesa no Brasil.
No mesmo ano, realizaram-se uma exposição do grupo
Noigandres em Genebra, Suíça, e uma homenagem no Museu
Guggenheim de Nova York, com um ciclo de debates e leituras de que
participaram, entre outros, Marjorie Perloff e Charles Bernstein.
Umberto Eco o considerou “o maior tradutor moderno de Dante”****.
Em 2003, o Colégio São Bento, por ocasião de seu centenário,
homenageou o poeta, seu ex-aluno, entre outras personalidades
insignes do país. No mesmo ano, recebeu homenagem in memoriam
da Presidência da República, em Brasília, sendo admitido na
Ordem do Mérito Cultural, na classe de Grã-Cruz. |
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Depois de seu
falecimento em 2003, o acervo de 35 mil volumes de sua biblioteca
pessoal (bibliocasa) foi doado pela família à Casa das
Rosas, agora rebatizada de Casa das Rosas – Espaço
Haroldo de Campos de Poesia e Literatura.
Além dos mais de trinta livros que publicou (de sua autoria ou em
colaboração), Haroldo de Campos deixou, entre traduções e
ensaios, um grande número de inéditos, que vão da poesia
neogrega à náuatle. Suas últimas aventuras tradutórias incluem
transcriações de poemas em egípcio antigo, idioma que estudava,
amparado em vasta bibliografia especializada.
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* Metalinguagem & Outras Metas.
São Paulo: Perspectiva, 1992 (Coleção Debates).
** "A obra de arte aberta", em Teoria
da Poesia Concreta: textos críticos e manifestos 1950-1960 (com
Augusto de Campos e Décio Pignatari). São Paulo: Invenção, 1965; 2ª.
ed., São Paulo: Duas Cidades, 1975; 3ª. ed., São Paulo: Brasiliense,
1987.
*** Em Roman Jakobson. Linguistica, Poética,
Cinema. São Paulo: Perspectiva, 1970.
****
Em "La scomparsa di un poeta", L'Espresso,
4.9.2003. |