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edição 10 - Agosto 2004
Limites do orientalismo
por Mamede Mustafa Jarouche
O discurso de vários especialistas ocidentais sobre o Oriente, sobretudo o mundo muçulmano, faz parte de um aparato institucional que não buscava um saber desinteressado a respeito de seu objeto. Trata-se, segundo o crítico Edward Said (Orientalismo - 1979), de um conjunto imenso e sistematizado de disciplinas que constroem a imagem de um "Oriente" predisposto a sofrer intervenções ocidentais. Essa "instituição orientalista" se iniciou no século XVIII, mas o historiador medieval Guibert de Nogent (1053-1124) já garantia que Maomé não passava de um bispo que pretendia ser papa e que, vendo frustradas as suas ambições, resolveu fundar uma nova fé. Um dia, continuava Nogent, Maomé se embriagou, caiu e foi pisoteado por uma vara de porcos. É por isso, concluía ele, que os muçulmanos não bebem álcool e nem comem carne de porco.

Nem todas as "explicações" da época se mostravam tão falsas e enganosas. Contudo, eram quase sempre pejorativas, até porque surgiam num contexto de confronto religioso. Mais tarde, os iluministas franceses tomaram o Islã como o símbolo mais acabado do monstro que pretendiam combater: o despotismo cego e cruel. Em sua peça Maomé ou o Fanatismo, por exemplo, Voltaire descreve os árabes como "ladrões que tiveram sucesso". O harém muçulmano povoará como um fantasma o imaginário iluminista, especialmente equivocado na tradução de As Mil e Uma Noites, feita por Antoine Galland no início do século XVIII. O orientalismo propriamente dito foi fruto da expedição napoleônica ao Egito. A partir desse momento passam a se conjugar o poder colonialista europeu - e mais tarde americano - bem como o saber que irá legitimar as suas intervenções. Uma idéia derivada de Hegel é recorrente em boa parte dos textos orientalistas: a de que as civilizações do Oriente, sobretudo o muçulmano, são basicamente estacionárias e, nesse sentido, de algum modo exteriores à inexorável marcha do progresso. Suas populações seriam indolentes, fanáticas, facilmente impressionáveis, propensas à submissão mais abjeta etc. etc.

Essa caricatura marca o trabalho de escritores como Bernard Lewis e Daniel Pipes, cuja obsessão é a do "desenvolvimento interrompido" do Oriente e cujos trabalhos têm implicações sobre muitas das ações do Departamento de Estado americano. Em termos contemporâneos e internacionais, nomes como Titus Burckhardt e Henry Laurens já produziam um conhecimento desvinculado dos interesses políticos imediatos. Em nosso país não houve - talvez pela herança lusitana - uma tradição arraigada de estudos sobre o mundo muçulmano, malgrado esforços isolados, como o de Miguel Nimer, na década de 40, autor do excelente Influências Orientais na Língua Portuguesa, e de José Khoury, autor de uma reconhecida tradução dos Prolegômenos, de Ibn Khaldun, historiador do século XIV. Hoje, impulsionados pela universidade, destacam-se, entre outros, trabalhos como os de Safa Jubran, Miguel Attie, Jamil Iskandar, Michel Sleiman, Rosalie Pereira de Castro e Osvaldo Truzzi. Cada qual em seu campo e a seu modo, esses pesquisadores cumprem o preceito do estudo desinteressado, no melhor sentido do termo, guiado pelo valor imanente do objeto de pesquisa e pela tentativa honesta de compreender essa nossa constante alteridade que é o Islã.
Mamede Mustafa Jarouche é Doutor em Letras, e professor de Língua e Literatura Árabe na USP.
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