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Lincoln, Obama e o racismo nos EUA

Desde 1865, quando a Guerra Civil e a escravidão no país tiveram fim pelas mãos de Abraham Lincoln, o mundo espera ouvir outra boa notícia americana, a abolição do racismo

Sean Purdy
© MISTYDAWNPHOTO/SHUTTERSTOCK
Obama, na cidade de Delaware, durante a campanha de 2008
A eleição de Barack Obama trará uma grande mudança na sociedade e na política dos Estados Unidos? Vários comentaristas de peso nos Estados Unidos e fora dele têm respondido entusiasticamente: “Sim”.

Thomas Friedman argumenta, em sua coluna no New York Times, que a eleição de Obama sinaliza o fim real da Guerra Civil americana (1861 a 1865). A guerra sepultou a escravidão no país e reservou um lugar nobre na história para o presidente Abraham Lincoln, mas, de fato, não resolveu a situação racial.

Com o presidente Obama, de acordo com Friedman, não só os problemas raciais serão resolvidos, mas haverá uma reafirmação do “sonho americano”, de que todo cidadão – mesmo pobre, negro e filho de imigrante – pode vir a se tornar presidente.

Mais do que equivocados, esses argumentos são, de certo modo, ingênuos. Ignoram duas verdades Lincoln, Obama e o racismo nos EUA marcantes, com o propósito de mascarar os graves problemas que o país enfrenta: 1) como Obama chegou à presidência; e 2) a verdadeira situação racial no país.
A candidatura de Obama expressou mudanças reais nos EUA nos últimos 40 anos. Entre outras, a mobilização de minorias visíveis, o crescimento de uma classe média negra e a bem-sucedida difusão de sua cultura popular. Obama soube se tornar veículo da esperança progressista e dos anseios dos movimentos por direitos civis. Construiu, assim, uma imagem de mudança durante a campanha, em contraste com os oito desastrosos anos de George W. Bush.

Obama fala de mudanças, mas realmente propõe alguma radical? Na política externa, promete a retirada das tropas de Iraque, mas somente para transferi-las para o Afeganistão. Ele não se opõe ao conflito porque a guerra contra o Iraque é racista e imperialista. Já sobre a Palestina, a Rússia e a América Latina, o presidente eleito tem adotado o mesmo tom agressivo e conservador dos discursos de John McCain e Bush.

Na política doméstica, Obama propõe tímidas reformas no Estado de Bem-Estar e na regulação econômica, sem ameaçar o domínio do mercado. Durante a campanha, falou pouco sobre a grave situação da classe trabalhadora americana, sobre as leis trabalhistas e sobre ações afirmativas e cotas para as minorias.

Suas escolhas também nos dão uma boa idéia do que virá. A lista de secretários e assessores é composta majoritariamente por banqueiros e pela alta elite de governos anteriores. Há pouca gente associada a movimentos sociais, supostamente sua principal base eleitoral.

Enquanto a eleição sinaliza mudanças na superfície das relações raciais, o forte racismo estrutural ainda persiste nos Estados Unidos. A segregação racial em todas as grandes cidades permanece em níveis quase tão altos quanto os dos anos 60. A riqueza familiar de brancos é nove vezes maior que a dos negros. Na terra natal de Obama, o estado de Illinois, a maioria das vítimas de HIV-Aids é negra. Três em cada dez crianças negras e latinas vivem na pobreza – o triplo do índice de crianças brancas.

Sem os movimentos sociais e sindicais, Obama tem tudo para ser apenas um presidente democrata que é negro.