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edição 72 - Outubro 2009
O muro e a perplexidade
O muro cortava o quintal das casas, dividia calçadas, atravessava cemitérios, violava túmulos.Em algumas ruas, sobravam aos moradores 40 cm apertados de calçada para chegar em casa
por Ignácio de Loyola Brandão
Arquivo Última Hora/AESP
Em janeiro de 1962, famílias separadas pela barreira ainda podiam manter contato visual em ocasiões especiais, como o casamento
Quando, em março de 1982, o avião sobrevoou Berlim, preparando-se para aterrissar, eu, o olho pregado na janela, procurei “o muro”. Encontrei uma linha cinza que serpenteava pela cidade. Mais tarde descobri um dos apelidos do muro: serpente petrificada.

Desembarquei, me esperavam, queriam que eu fosse ao Möhrig, uma das tradicionais conditoreien(confeitarias) berlinenses, com seus bolos cremosos. Desapontei, dizendo: "Não! Quero ver o muro". Não continha minha ansiedade. Como seria? Uma muralha como a da China, alta, pesadona, intransponível, monumental?

Quando cheguei a Bernauerstrasse, a avenida ao longo da qual a barreira separando leste e oeste foi erguida, tive uma decepção. O muro tinha uns dois metros e meio de altura, parecia inocente, apenas uma parede plantada no meio da rua. Então era aquilo? O muro que causava a famosa síndrome que acometia todo berlinense e o obrigava a deixar a cidade de tempos em tempos?

No fim de minha estada, eu também sentia a síndrome. Tinha me acostumado, ainda que fosse difícil, a andar, andar e dar com ele. Para qualquer lado, lá estava a parede cinza de concreto. A sensação de ser prisioneiro logo me ocupou. Em Berlim Ocidental, diziam, havia a liberdade, só que encerrada dentro de uma parede de módulos de concreto com 155 km de extensão.
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Ignácio de Loyola Brandão é escritor e jornalista. Autor de Zero (Brasília-Rio), Não verás país nenhum (Codecri) e O verde violentou o muro (Global), já recebeu vários prêmios por sua obra, entre os quais o Jabuti e o Pedro Nava (Academia Brasileira de Letras)
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