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Waterloo: "então, ocorreu um rompimento na linha"

Sob o comando do major Georg Baring, a Legião Alemã e o 95º Regimento de Rifles defendem a fazenda La Haye Sainte (A defesa da fazenda La Haye Sainte, óleo sobre tela, Adolf Northen, séc. XIX)
O ponto no qual Wellington montou posição parecia, num primeiro olhar, apenas uma simples montanha, mas havia aspectos que seriam decisivos no decorrer da batalha. A serra do monte Saint-Jean formava um ângulo reto com a estrada principal que seguia para o norte, rumo a Bruxelas, por onde Wellington recuara na véspera. Essa estrada passava por La Belle Aliance, a hospedaria que Napoleão transformara em quartel-general, e pelo topo do monte Saint-Jean, onde o general inglês montara o seu. Agora, eles estavam a 1.200 metros um do outro. No espaço que os separava, o terreno descia suavemente na direção de um vale antes de se elevar na encosta do morro.

O campo era aberto, sem cercas, valas ou árvores, apenas grama alta, entre 1,5 e 2 metros. No início da batalha, essa grama serviria para esconder os homens no terreno, mas logo ela seria pisoteada até se transformar num tapete. O campo era, em geral, plano, mas havia algumas elevações e cavidades aqui e ali. Na parte mais ao leste, o córrego Smohain formava um pequeno vale que ficava abaixo do restante do campo de batalha.

Ao longo do topo da montanha onde Wellington estava, corria uma precária estrada vicinal que ligava Wavre a Hal. No ponto exato onde ela cortava a estrada de Bruxelas, havia um olmo. Ali, Wellington tomou posição para a batalha. A leste dessa encruzilhada, a estrada era margeada por moitas; a oeste corria por um recorte do terreno. Essas características ofereciam proteção extra para a infantaria. Wellington posicionou sua primeira linha ao longo dessa estrada.

No vale, havia três edifícios de pedra, pertencentes a fazendas, que poderiam ser usados como posições defensivas muito eficientes. Homens ocultos ali teriam a capacidade de despejar fogo sobre o flanco dos franceses que seguissem em direção à montanha. Esse fator tornou-se crucial para os planos de Wellington. A leste, no flanco esquerdo de Wellington, estava a fazenda Papelotte, sobre uma ravina, às margens do Smohain. Wellington estacionou os holandeses de Perponcher em Papelotte para defendê-la. Mais adiante, estava a aldeia de Frischermont, que não teve papel de destaque na batalha.

Na beira da estrada para Bruxelas estava La Haye Sainte. Era uma casa grande com alguns estábulos e um celeiro, cercados por um muro alto de pedra, dentro do qual havia ainda um jardim e um lago. Um portão dava acesso, pelo jardim, à estrada, mas o complexo tinha poucas janelas. Wellington pôs dois batalhões da Legião Alemã ali, apoiados por um regimento de Nassau. Na margem oposta da estrada, de frente para La Hay Sainte, havia uma espécie de duna, totalmente escavada pelos habitantes locais para a retirada da areia fina de que ela era composta. Ali se posicionou o 95º Regimento de Rifles. A unidade estava equipada com rifles Baker, que eram bem mais certeiros do que os mosquetes-padrão da infantaria, porém mais difíceis de carregar. Além disso, sofriam constantemente com entupimentos.

A mais ocidental das construções era também a maior delas. Hougoumont era usualmente descrita como um “château”, significando que era mais uma grande casa de campo do que uma fazenda. A casa também era cercada por um muro e tinha um lago defronte, mas os prédios eram maiores e mais sólidos. Além da casa, havia uma capela, celeiro, estábulos, chalés e outras construções. Um portão abria-se para o sul e outro para o norte. A leste do terreno, existia um pomar, também murado; ao sul, um bosque cercado de sebes. Para guarnecer essa verdadeira fortaleza, Wellington enviou os quatro regimentos da Guarda Britânica que estavam no campo de batalha.

Wellington estava preocupado com o lado direito de sua formação. Napoleão poderia ainda marchar para oeste e cortar sua linha  de suprimentos e a rota para a Marinha Real. Ele pôs a maior parte de suas forças a oeste da estrada, à sua direita. Ainda assim, ele não ficou satisfeito e destacou uma força de 15 mil homens, enviando-a para Hal, alguns quilômetros a oeste, a fim de guarnecer a rota de fuga para o Escalda. Ele pretendia se retirar por ali caso Blücher não chegasse a tempo a Waterloo.

Às 2 horas, Wellington recebeu um bilhete de Blücher avisando que seus homens estavam cansados demais para dar início à marcha antes do amanhecer. Assim que o sol saísse, porém, ele colocaria o IV Corpo, de Bülow, em marcha, seguido por outros corpos, tão logo pudessem estar formados o sufi ciente para se movimentar. Analisando o mapa, Wellington concluiu que Bülow deveria chegar por volta de 14 horas.

Quando o dia amanheceu, tanto Wellington quanto Napoleão já estavam no campo de batalha. O general britânico reposicionou umas poucas unidades até fi car satisfeito, depois seguiu para sua posição sob o olmo no cruzamento das estradas, de onde tinha excelente visão da área. E esperou.

A todo momento, ofi ciais se aproximavam do general em busca de aconselhamento ou trazendo notícias. Um deles foi Uxbridge, comandante da cavalaria britânica e segundo oficial em hierarquia no campo. Ele tinha uma questão delicada a tratar. Wellington era notoriamente amigo de segredos e não tinha discutido os seus planos para a batalha que se aproximava. “Como eu sou o segundo no comando”, começou Uxbridge, “no caso de alguma coisa acontecer a você, quais são os planos?”

Wellington pensou por um momento e indicou o campo à frente, onde os franceses se agrupavam. “Quem vai atacar primeiro, Bonaparte ou nós?”, perguntou. “Bonaparte”, respondeu Uxbridge. “Bem”, continou o comandante. “Bonaparte não me mandou uma cópia dos seus planos e, como meus planos dependem do que ele fizer, como você espera que eu possa lhe dizer quais são meus planos?” Uxbridge assentiu um pouco contrariado.

Napoleão, por sua vez, estava ansioso pelo início da batalha. Às 6 horas, ele ditou a Soult as ordens de movimentação das tropas, determinando que as unidades estivessem prontas para se mover às 9 horas. Enquanto seu exército se posicionava, o imperador tomava café com seus ofi ciais superiores. Os homens entravam e saíam de acordo com o que seus deveres permitiam, mas, em todo caso, foi uma refeição completa. Napoleão estivera expondo como as probabilidades eram favoráveis aos franceses quando Ney entrou a tempo de ouvir a parte final de suas observações.

O ofi cial lembrou que, quanto lutou  contra Wellington na Espanha, o general inglês provara ser especialista em escapar de armadilhas aparentemente complexas. Soult, que também já enfrentara Wellington, sugeriu que fosse enviada a Grouchy uma mensagem ordenando que os homens de Gérard fossem destacados para atacar o flanco esquerdo da formação inglesa. Napoleão jogou seus talheres sobre a mesa, raivoso, e disse: “Porque você já foi vencido por Wellington, acha que ele é um grande general? Eu lhe digo que ele é um mau general, que os ingleses são uma tropa ruim e que esse caso não é mais complicado do que tomar o café da manhã”.

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