História Viva


Clique e assine História Viva
Artigos

Waterloo: "os prussianos manobravam muito mal"

Movimentação de prussianos e franceses em Ligny (Batalha de Ligny, gravura, Theodore Young, c. 1850)
Apesar de o grande foco de atenção naquele momento estar na Holanda, a guerra havia começado de fato algumas centenas de quilômetros ao sul. Agindo sem autorização superior e inteiramente contra os planos de campanha acordados, o comandante austríaco no norte da Itália, Frimont, decidira simplesmente invadir a França.

O movimento de Frimont, apesar de inesperado, fazia todo o sentido. Ele temia que Napoleão decidisse iniciar a guerra com um ataque relâmpago contra a Itália, o que era bem plausível. As tropas de Frimont haviam encetado uma dura campanha contra as de Murat, em Nápoles. Os homens estavam cansados; os estoques de munição, baixos, e os deveres das guarnições eram constantemente negligenciados.

Frimont sabia que sociedades carbonárias estavam em atividade em todas as grandes cidades do norte da Itália – Milão, Turim, Gênova, Veneza, em todos os lugares havia alguma efervescência revolucionária. Esses grupos haviam prometido apoiar Murat quando ele chegasse à região, desde que ele lhes trouxesse armas. Certamente, elas se levantariam se Napoleão entrasse na Itália. Se esses reformadores das grandes cidades italianas tivessem algum sucesso em seus levantes, isso seria um grande incentivo para que os seus equivalentes das grandes cidades alemãs tentassem o mesmo. Se isso levasse os Estados alemães de menor porte a deixar a aliança, a posição das forças austríacas, de Schwarzenberg, e russas, de Tolly, se enfraqueceriam e poderiam mesmo se tornar muito difíceis de defender.

Uma vitória rápida no norte da Itália poderia ser obtida com um custo relativamente pequeno – e poderia mudar radicalmente o curso da guerra. As preocupações de Frimont eram pertinentes. O general tinha dois objetivos ao avançar. Primeiro, ele queria ocupar as passagens pelas montanhas, o que facilitaria a defesa das planícies do norte da Itália. Segundo, ele queria testar as posições francesas, para tentar, com isso, avaliar a extensão real das forças inimigas na área.

Frimont dividiu seu exército em dois corpos. O primeiro, sob o comando do marechal Radivojevich, avançou para a França atravessando as montanhas junto à fronteira da Suíça. O segundo, sob a liderança do conde Bubna, seguiu pela fronteira sul. A ofensiva começou em 14 de junho. A princípio, o exército austro-italiano não encontrou resistência. Pelos cinco dias seguintes, enquanto a campanha de Waterloo tinha curso, as forças de Frimont avançavam lentamente por estradas difíceis no sul do território francês.

As notícias sobre os movimentos de Napoleão na Holanda chegaram a Engelhardt e às forças alemãs em 16 de junho. Engelhardt pôs seus homens em marcha na tarde do mesmo dia, na direção de Arlon, no sul da Holanda. Ele pretendia ameaçar o flanco direito e a retaguarda do exército napoleônico. A ideia era tentar interromper as linhas de suprimento das forças francesas, o que obrigaria Napoleão a destacar unidades de suas forças para bloquear o avanço alemão. No entanto, o general francês saberia dos movimentos de Engelhardt só depois da Batalha de Waterloo.

Enquanto isso, o exército de Wellngton fora reduzido a um estado de total confusão. Três ordens diferentes haviam sido expedidas entre cinco da tarde e duas da manhã naquela noite. As primeiras instruíam as unidades a se juntar em ponto de encontro à noite e se preparar para marchar ao amanhecer. Depois, o ponto de concentração passou a ser Nivelles, ou locais próximos. Muitas unidades, porém, não receberam essa orientação por já estar em movimento de acordo com as ordens iniciais. Depois das notícias de Grant sobre as movimentações francesas, veio uma terceira mudança de rumo: todas as unidades deveriam se dirigir a Quatre Bras o mais rápido possível.

Por volta de dez da manhã, Wellington alcançou Quatre Bras, cujos acessos eram defendidos por 8 mil homens, que recebiam reforços a cada minuto. Ele fora informado de que os franceses haviam lançado pequenos ataques, provavelmente com o intuito de experimentar as defesas inglesas, duas horas antes, mas agora tudo estava quieto.

Na certeza de que tudo corria bem, o general se dirigiu a leste, a fim de alcançar Blücher. Os dois generais e seus oficiais se encontraram diante de um moinho, em Brye. A conversa foi apenas ligeiramente prejudicada pelo fato de Wellington não falar alemão nem Blücher, inglês. Müffling atuou como intérprete. Quando as apresentações terminaram, Wellington fez uma pergunta que parecia bem simples, mas não era: “O que você quer que eu faça?”.

Blücher e Gneisenau sabiam exatamente o que eles queriam que o general britânico fizesse e ficaram encantados com sua atitude cooperativa. Ambos haviam alimentado dúvidas sobre o compromisso britânico com a guerra, e os três estavam bem informados das disputas diplomáticas em Viena, que haviam levado a um acordo que parecia prestes a ser quebrado a todo momento.

O plano de campanha de Blücher previa que seu exército formaria uma linha de defesa de Ligny a fim de deter o avanço francês, enquanto Wellington marcharia desde Quatre Bras para atacar o flanco esquerdo dos franceses. Parecia um plano bem simples, mas havia problemas. Para começar, Blücher tinha só parte de seu exército em Ligny. O I Corpo, de Zieten, estava lá, mas praticamente desmantelado após a retirada do dia anterior. O II Corpo, de Georg von Pirch, estava inteiro, assim como o III, de Von Thielmann. O quarto, de Bülow, estava ainda algumas milhas distante e não chegaria naquele dia. Ainda assim, Blücher tinha 84 mil homens em Ligny.

Leia a íntegra do capítulo IV da História Viva Volume IX – Waterloo, que pode ser encontrada nas bancas, nas livrarias, na Loja Segmento e na Amazon.com, no formato e-book.