Dossiê
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Dossiê: Povos do mar - A onda vermelha do norte
Vindos da Escandinávia meridional, da costa da Alemanha e dos Países Baixos, os povos bárbaros se uniram para expulsar os romanos da Bretanha
por Jean-Yves Marin
[continuação]

A Bretanha romana foi reconquistada, e as fronteiras restauradas e reforçadas. Parece que a ação de piratas saxões que ameaçavam cortar relações com o continente foi considerada mais perigosa do que as investidas dos pictos ao norte e as dos escotos na Irlanda. O dispositivo de defesa da costa foi repensado em razão da terrível derrota de 367. Mas como a ilha da Bretanha ficava na periferia do Império, assim que o perigo se delineou no continente, sua defesa foi novamente negligenciada; as melhores tropas retomaram o caminho da Itália. Na Gália, as usurpações sucederam-se, até que Estilicão, novo senhor do Ocidente, reforçou mais uma vez os dispositivos defensivos ao fazer uma inspeção, em 396. Foi nesse contexto de relativa paz recuperada que houve a grande invasão de 406, na Gália: os germânicos passaram pelo Reno na direção de Mogúncia e, como resume de modo lapidar o historiador Lucien Musset, “tudo desmoronou”. Isolada do continente, a ilha da Bretanha conheceu sucessivamente três invasores, em alguns meses. Bem informados, os saxões precipitaram-se rumo à Bretanha insular para ali permanecer e criar um novo reino. O historiador grego Zózimo escreveu a esse respeito: “Os bretões, em recusa à dominação romana, viviam a seu próprio modo, sem obedecer às leis romanas”. Eles devastaram o país. Nas raras fortalezas onde ainda havia resistência, os pedidos de ajuda multiplicaram-se, mas era muito tarde. O Império já não tinha meios de intervir.

Em 410, Honório, impotente, respondeu aos bretões que eles mesmos deviam enfrentar o perigo saxão. O Império Romano não renunciou formalmente à Bretanha, mas dali em diante sua influência sobre a ilha terminaria. Somente o sudeste resistiu durante algum tempo, mas como a rota marítima da região do Pas-de-Calais (no extremo norte da atual França) estava praticamente interrompida, o último bastião mergulhou no isolamento.

Alguns vestígios da organização política romana permaneceram entre os bretões em luta contra os saxões, como menciona a obra que descreve a vida de São Germano de Auxerre, que foi à ilha em 419. Por meio dela, ficamos sabendo que os saxões faziam incursões até as portas de Londres. Por ocasião de uma segunda visita dele, entre 440 e 444, a situação parecia ainda mais precária. Vários sintomas indicam que em meados do século V teria acontecido a derrocada da administração. Definitivamente, eram os últimos contatos dos bretãos com o continente. - Tradução de Marly N. Peres
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Jean-Yves Marin é curador do Museu da Normandia e especialista em arqueologia urbana.