O filme Feliz Natal (Joyeux Noël, 2005), disponível em DVD no Brasil, une fatos históricos e ficção para mostrar a confraternização de soldados de países em guerra no Natal de 1914. A obra revela uma bela parceria entre uma profunda pesquisa histórica e a criação de personagens e cenas tocantes. A imaginação dos roteiristas nos aproxima dos dramas e dos sentimentos daqueles que viveram o conflito.
Dirigido pelo francês Christian Carion, o filme é estrelado por Daniel Brühl (de Adeus Lenin), que interpreta um judeu, tenente do exército alemão, casado com uma francesa. Ao liderar um pequeno regimento na linha de frente da ocupação da Alsácia, ele encontra entre seus comandados um famoso tenor da ópera de Berlim, convocado contra a vontade e separado de sua mulher dinamarquesa.
Do outro lado do conflito, personagens como um militar francês, com sua mulher grávida em território ocupado, um padre e dois irmãos escoceses, entre outros, são forçados a lutar e morrer para tomar um simples pedaço de terra.
O espírito de Natal e a música que ultrapassam as trincheiras (em uma bela cena onde se unem gaitas de foles e ópera alemã) acabam revelando para os dois lados da guerra a humanidade do suposto inimigo. Os personagens decidem fazer uma trégua natalina para descansar, rezar, enterrar seus companheiros e “beber à saúde dos calhordas que, bem protegidos, nos mandam brigar uns com os outros”. O encontro desperta amizades, mas também provoca dura repressão por parte de superiores militares.
O filme é uma grande produção multinacional entre a França, a Alemanha, o Reino Unido, a Bélgica e a Romênia, países que lutaram entre si na Primeira Guerra Mundial. O fato de se unirem para financiar uma obra que celebra a paz já é significativo. O orgulho com que a Europa retoma, 94 anos depois, um episódio que a seu tempo foi escondido e reprimido pelos governos envolvidos no conflito, é ainda mais.
Feliz Natal começa com crianças em escolas alemãs, francesas e britânicas declamando discursos de ódio contra o estrangeiro. Ao mostrar, em seguida, as semelhanças entre as aspirações e sentimentos dos soldados de diversos países, o filme se torna ainda mais emblemático por sugerir uma Europa cansada de guerras.