No século XVI, manipular o curso das águas era algo milagroso, bíblico como Moisés abrindo o mar Vermelho. Mas com o despertar intelectual do Renascimento, Leonardo da Vinci fez estudos de cartografia e engenharia para “domar” o curso das águas do rio Arno. O primeiro objetivo era militar: em guerra com Pisa, o desvio cortaria a água da cidade, forçando a rendição. Mas a ambição era maior. Através de um canal, Da Vinci pretendia dotar Florença de uma ligação com o mar. Queria ainda evitar as enchentes do Arno, controlando a vazão do rio e ampliando áreas para agricultura com canais de irrigação.
Com o apoio de Maquiavel, Da Vinci conseguiu que a cidade aprovasse uma versão mais simples do projeto, com o desvio pouco acima de Pisa. A obra ficou a cargo do engenheiro Colombini, que não seguiu o plano original de um grande canal. Construiu dois menores, com menos operários do que seria necessário. Leonardo havia projetado um canal com 24 metros de largura, 9 metros de profundidade e 1,6 km de extensão. Os de Colombini tinham apenas 4,2 metros de profundidade. Como eram rasos em relação ao leito do Arno, as águas do rio voltaram ao seu curso e os pisanos puderam atacar o canteiro de obras. Logo após o fracasso, peritos analisaram o ponto do desvio em relação ao nível do mar, e em 1738 o cientista Bernoulli calculou a relação entre o fluxo de água e a profundidade e largura necessárias para o canal dar certo. O projeto de Da Vinci teria funcionado.
Para saber mais: Da Vinci e Maquiavel, um sonho renascentista. Roger Masters. Jorge Zahar, 1999.