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A China dos viajantes

Biblioteca virtual reúne centenas de relatos de ocidentais que visitaram o país entre os séculos XVII e XX

Bruno Fiuza
Biblioteca Nacional da Suécia/ Biblioteca Digital Mundial
Ilustração de manuscrito do século XVIII que descreve uma expedição organizada por mercadores suecos ao porto chinês de Cantão em 1746
Não é de hoje que a China fascina o Ocidente. Desde as viagens de Marco Polo, no século XIII, os relatos de estrangeiros que visitaram a terra dos mandarins povoaram a mente dos europeus com imagens fantásticas dessa civilização milenar, que durante muito tempo foi considerada a mais avançada do mundo.

Tendo em mente a importância desse tipo de literatura para o estudo da história do país, a Universidade de Hong Kong digitalizou centenas de relatos de viajantes que visitaram a China entre os séculos XVII e XX, e disponibilizou esse material para consulta na internet. Assim nasceu a biblioteca virtual “China pelos olhos do Ocidente”, que reúne 389 obras completas escaneadas e disponíveis para consulta no site do projeto (em inglês).

O acervo reúne textos em inglês, alemão, italiano, francês, holandês, espanhol e latim de estrangeiros que visitaram a China ao longo da Idade Moderna. Há, entre outras coisas, obras com descrições do país feitas por missionários cristãos e relatórios de missões diplomáticas. Um exemplo é o relato da viagem do embaixador britânico George Macartney, que em 1793 foi à China para solicitar autorização para os mercadores de seu país participar do lucrativo comércio com a potência oriental. A resposta dada pelo imperador Qianlong ao representante da nação europeia mais desenvolvida da época dá uma ideia do poder econômico da China no fim do século XVIII: “Não temos a menor necessidade das manufaturas de vosso país”.

Documentos como esse certamente ajudarão pesquisadores que atualmente buscam compreender o processo histórico que está transformando a China na superpotência do século XXI. Ao consultar registros como o da embaixada britânica de 1793, o leitor ocidental talvez se surpreenda e chegue à mesma conclusão de alguns cientistas sociais nos últimos anos: a de que a China não está se tornando uma nova potência, mas sim retomando uma hegemonia milenar, interrompida por um curto período de dominação ocidental durante os séculos XIX e XX.