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A face civil da ditadura militar

Documentário conta a vida do empresário dinamarquês Henning Albert Boilesen, que nos anos 60 financiou e apoiou politicamente a Operação Bandeirante

Dafne Melo
ARQUIVO PÚBLICO DE SÃO PAULO/DOPS/DIVULGAÇÃO
O corpo do presidente da Ultragás, executado por militantes de esquerda na alameda Casa Branca, em São Paulo, em 1971
Entre 1964 e 1985, o Brasil foi governado por uma ditadura militar, certo? Não exatamente. Essa é a tese defendida pelo diretor Chaim Lietwski em Cidadão Boilesen, documentário vencedor do festival É Tudo Verdade em 2009, que estreia nos cinemas do país neste mês.

Ao contar a biografia de Henning Albert Boilesen, empresário dinamarquês radicado no Brasil, Lietwski mostra que o uso do termo “ditadura militar” para caracterizar o regime é uma imprecisão. Mais correto, como afirmam alguns historiadores, seria falar de uma “ditadura civil-militar” que em várias etapas contou com a participação ativa do empresariado, em especial o paulista.

A vida de Boilesen é um exemplo dessa colaboração. O empresário emigrou para o Brasil na década de 30, onde se tornou presidente do grupo Ultragás.

Anticomunista, financiou e apoiou ativamente a Operação Bandeirante (Oban), incentivando outros empresários a fazer o mesmo. Criada pelo Exército brasileiro em 1969, a Oban foi o embrião do Destacamento de Operações de Informações/Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi). De acordo com o documentário, Boilesen também teria sido colaborador da Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos, a CIA.
ARQUIVO PESSOAL / DIVULGAÇÃO
Boilesen (à esq.) e o então ministro da Fazenda, Antonio Delfim Netto (à dir.), dois dos principais articuladores da parceria entre empresários e militares
Segundo testemunhas, a participação do empresário na operação ia além do apoio político e financeiro. Ele teria o hábito de acompanhar sessões de tortura, muitas delas conduzidas por seu amigo pessoal, o delegado Sérgio Paranhos Fleury. Um dos mais brutais agentes da ditadura, Fleury foi responsável pela captura e morte de Carlos Marighella na alameda Casa Branca, em São Paulo, no ano de 1969. Ironicamente, o próprio Boilesen seria justiçado por militantes de esquerda na mesma rua, um ano e meio depois. O documentário aborda o episódio por meio de depoimentos de ativistas que participaram da ação.

Mas não são só os militantes políticos que falam no filme. Lietwski também dá voz a historiadores, familiares de Boilesen, figuras notáveis – como Fernando Henrique Cardoso e dom Paulo Evaristo Arns – e outras mais polêmicas, como o coronel Erasmo Dias, secretário de Segurança Pública de São Paulo entre 1974 Universidade Católica em 1977.

A produção também utiliza cinejornais, imagens de arquivo, filmes de ficção, documentários e documentos (oficiais e particulares) para reconstituir a trajetória de Boilesen. Segundo o diretor, o objetivo foi ouvir diferentes pontos de vista e versões, a fim de construir um perfil mais complexo do empresário, descrito pela família e pelos amigos como uma pessoa afável e alegre.