A história fichada no Deops
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| Ficha de Monteiro Lobato nos arquivos do Deops |
Fábio de CastroAgência FAPESP – Entre 1924 e 1983, período que abrange duas ditaduras, o Departamento Estadual de Ordem Política e Social do Estado de São Paulo (Deops) vigiou e reprimiu movimentos políticos e sociais. Os arquivos do órgão, cujos prontuários reúnem 184 mil fichas policiais, podem agora ser acessados no novo site do Projeto Integrado Arquivo Público do Estado e Universidade de São Paulo (Proin), lançado no sábado (24/1).
Além do lançamento do site, no sábado também ocorreu a reinauguração do Memorial da Resistência de São Paulo, localizado no antigo prédio do Deops, no Largo General Osório, onde hoje funciona a Estação Pinacoteca.
De acordo com a coordenadora do Proin, Maria Luiza Tucci Carneiro, professora do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP), o site facilitará as atividades de pesquisa nos arquivos, que têm importância histórica incalculável.
“Antes do trabalho feito no Proin, os documentos do Deops só estavam disponíveis em microfilme e era muito difícil localizar um prontuário. Com o site, basta digitar o nome da pessoa ou da instituição para encontrar a ficha. Isso facilitará o cruzamento de dados com outros arquivos e permitirá reescrever a memória política brasileira”, disse Maria Luiza à Agência FAPESP.
“Descobrimos que era possível reescrever a história política brasileira a partir de uma história de anônimos. Tivemos acesso, por exemplo, ao caso de uma operária tecelã que fazia poesias revolucionárias, à correspondência de um ativista ferroviário e à lista de livros apreendidos na casa de um sapateiro politizado”, contou.
Os pesquisadores puderam rastrear os caminhos dos impressos revolucionários. Eram livros, panfletos e jornais que mal chegaram a circular e que foram apreendidos em ônibus, trens ou na rua.
“Pelos prontuários, descobrimos estratégias usadas para divulgar publicações proibidas. Por exemplo, a ficha de um lavrador, fichado depois de ler panfletos para camponeses analfabetos, relata que o material havia sido enviado ao interior a partir do porto de Santos, dentro de sacas de café”, disse.
Com base nesses estudos, em 2002 Maria Luiza lançou a exposição e o livro Livros proibidos e idéias malditas. A história dos impressos acabou se transformando em um dos módulos do novo site.
Todas essas possibilidades de abordagem têm resultado em estudos específicos. Os estudos sobre história da censura, história da leitura e história dos anônimos possibilitaram a criação de três bancos de dados que foram transformados em links no site.
O projeto iniciado em 2007, voltado para o período entre 1955 e 1983, segundo a pesquisadora, já gerou também diversos estudos. Um deles é voltado para os panfletos produzidos durante a ditadura militar que teve início em 1964.
Outra linha estuda o movimento feminista, com foco na produção visual, a história da mulher negra e o papel político da mulher ativista. Outro módulo analisa a legislação sobre a expulsão de estrangeiros e corresponde ao link “Expulsos” no site.
“O site permite buscas por gênero, nacionalidade e profissão. Com isso é fácil cruzar informações e encontrar todas as fichas policiais e cadastros, por exemplo, de camponesas, ou tecelãs, de feministas judias, de ativistas japonesas ou alemãs e assim por diante”, afirmou.
Segundo Maria Luiza, os prontuários incluem ofícios, telegramas, cartas, relatórios de informação do serviço secreto ao longo dos anos, panfletos apreendidos, fotos anexadas e todo tipo de informação.
“No momento em que o suspeito era fichado, era feita uma ficha policial e o prontuário era aberto. Ele era então fotografado de frente e perfil e isso era anexado. A polícia então ia acumulando o material ao longo dos anos. Há alguns suspeitos que chegaram a ter o cotidiano acompanhado por 15 anos consecutivos”, disse.
De acordo com a professora da FFLCH, os arquivos permitem reconstruir também os pontos de vista da polícia política, especialmente nos períodos de ditadura.
“Os prontuários estão recheados de relatórios conceituais. A própria polícia define o que entende por comunismo, por terrorismo e por luta armada. Identificam com fotografias como se faz a propaganda comunista ou anarquista, mapeiam as idéias políticas e ideologias”, disse.
Maria Luiza conta que diversas exposições iconográficas já foram realizadas com base no material do arquivo. A última foi inaugurada no sábado (24/1):
Círculo Fechado: os japoneses sob a mira do Deops, com curadoria de Kossoy, durante a reinauguração do Memorial da Resistência de São Paulo, no antigo prédio do Deops.
Mais informações:
www.usp.br/proin